Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2021 - ano 62 - número 339 - pág.: 62-64

13⁰ COMUM DO TEMPO COMUM – 27 de junho

Por Izabel Patuzzo

“Menina: levanta-te”

I. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras deste domingo nos convidam a meditar que Deus é o autor da vida; ele criou o ser humano para a vida eterna. Na concepção bíblica, a morte física não significa o fim da vida, mas sua transformação para uma condição de imortalidade, pois viver é estar com Deus. A obra da criação é uma ação divina em favor da vida. Esse é o grande ensinamento da primeira leitura, do livro da Sabedoria.

Jesus, em sua vida terrena, sempre defendeu a vida. O itinerário de Marcos aproxima-se do momento culminante: o desabrochar da fé dos discípulos, reconhecendo a divindade de Jesus. O evangelho desta liturgia nos apresenta um duplo milagre: a cura da filha de Jairo e a da mulher hemorrágica. Jesus não somente tem autoridade, mas também força para curar as enfermidades.

A segunda leitura nos lembra que Deus dá a vida e revela isso àqueles que acreditam em Jesus Cristo, seu Filho. Se essa é a Boa-nova, não podemos ficar insensíveis ao pedido de Paulo acerca da partilha fraterna que deve existir entre irmãos, expressa por meio da coleta entre as comunidades para ajudar os pobres. 

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 1,13-15; 2,23-24)

O livro da Sabedoria oferece uma reflexão teológica produzida por comunidades judaicas em um período muito próximo do Novo Testamento. A longa caminhada de fé percorrida no Antigo Testamento chega à maturidade de apresentar o rosto de um Deus gerador de vida. Tal ensinamento contradiz certas ideias espalhadas na época, segundo as quais aqueles que não agradavam a Deus deviam morrer. O autor bíblico deixa claro que a morte não tem origem divina, mas veio ao mundo por inveja do demônio.

A mensagem central do texto é que quem pertence a Deus, pela fé, experimenta sempre a vida; para o justo, morrer é entrar na imortalidade. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus e foi chamado à comunhão eterna com o Criador, que restaura a vida em perigo de se apagar. O livro da Sabedoria superou a mentalidade antiga que se fundamentava na crença de que o pecador devia morrer e somente os justos iriam ressuscitar.

2. II leitura (2Cor 8,7.9.13-15)

A partilha e o cuidado com o empobrecido eram uma tradição arraigada no Pentateuco que foi retomada e ampliada no Novo Testamento. A sensibilidade para com os necessitados também fazia parte da vida das primeiras comunidades cristãs. Nesse texto, Paulo exorta a comunidade de Corinto a praticar a entreajuda e a partilha com as comunidades mais carentes. O apóstolo tinha organizado uma coleta nas comunidades da Ásia Menor, as quais se encontravam em uma realidade econômica melhor, para ajudar as comunidades de Jerusalém. Tal iniciativa correspondia às orientações da Igreja nascente. O apóstolo justifica essa ação de partilha recordando a generosidade de Cristo, que não se apegou a nada do que tinha e deu tudo de si, até a própria vida. Paulo propõe Jesus como o modelo para todo cristão, pois todos se beneficiaram de sua oferta generosa na cruz, todos foram redimidos graças à sua doação total. Portanto os discípulos, em conformidade com esse espírito, partilham tudo que está ao seu alcance para o benefício dos irmãos.

3. Evangelho (Mc 5,21-43)

O relato do duplo milagre realizado por Jesus sugere o crescimento da fé salvífica. A decisão do evangelista de colocar os dois milagres juntos tem uma finalidade catequética: em ambos os acontecimentos, passa-se de uma fé/confiança inicial em Jesus ao encontro definitivo com ele, como fonte de salvação e vida plena. Jesus, ao usar a expressão imperativa: “Sê curada”, denota sua afeição pela mulher, restaurada na sua dignidade total; é restabelecida na sociedade, que a excluía por ser doente. Foi sua fé que a salvou, e Jesus se alegra com isso. Nos Evangelhos, a cura é consequência do dom da fé, que é sempre fonte de vida e felicidade.

No segundo milagre, a expressão “Levanta-te!” traduz perfeitamente que Jesus é o Senhor da vida. O imperativo tem o mesmo sentido de: “Ressuscita!” Aqui já se evoca a plena vitória de Jesus sobre a morte, na ressurreição. A recomendação de que ninguém soubesse o que tinha acontecido é paradoxal, considerando as circunstâncias.

Esse silêncio, contudo, é perfeitamente lógico na perspectiva do Evangelho segundo Marcos. Jesus venceu a morte, mas seria uma vitória muito pequena, se se resumisse a devolver alguns anos de vida à criança. O milagre é apenas um sinal, a antecipação da vitória final de Jesus na cruz, onde será elevado, vencendo a morte para sempre. As testemunhas do milagre ficarão em silêncio, porque Pedro, Tiago e João ainda irão presenciar a transfiguração do Senhor na montanha e depois sua vitória final em Jerusalém.

As duas mulheres agraciadas pela ação de Jesus tinham algo em comum: uma sofria fazia 12 anos e a outra morreu aos 12 anos de idade, antes de se tornar mulher. Na concepção judaica, ambos os casos constituíam um fracasso total, pois nenhuma delas tinha condição de gerar vida. Cristo cura as duas mulheres e permite-lhes, assim, desempenhar sua vocação materna. Em seu ministério, Jesus transforma a vida daqueles e daquelas que abraçam a fé. No contexto das primeiras comunidades cristãs, o relato ressaltava que a fé era condição essencial para receber o batismo, o sacramento da vida nova em Cristo.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Os dois milagres realizados por Jesus evidenciam que a fé pode transformar a vida das pessoas. Jairo, como chefe da sinagoga, dá grande testemunho de fé ao cair de joelhos diante de Jesus. É a atitude daquele que teme a Deus: ajoelha-se e dirige sua súplica para que Jesus lhe cure a filha. A mulher hemorrágica contenta-se em tocar em Jesus e tem a certeza de que ficará curada, embora fosse considerada impura, indigna de tocar em suas vestes. Para Jesus, basta apenas essa fé para levantar as pessoas de situações de morte, curar a humanidade ferida. As atitudes daqueles que presenciam as cenas são diversas: alguns têm fé, outros riem, duvidam, fazem ironia. Podemos tomar parte das cenas e meditar onde nos situamos; como se caracterizam nossas atitudes diante de situações que exigem fé.

As cenas descrevem Jesus mergulhado no barulho e nos apertos da multidão. Jairo e a mulher hemorrágica representam aqueles que desejam encontrar-se com ele e são atendidos em seus clamores. Vemos que Jesus circulava em meio ao povo, atento às necessidades concretas daqueles que o procuravam. Ao seu olhar, ninguém era anônimo, e ele cuidava de cada pessoa na sua individualidade. Nele habitava o cuidado amoroso de Deus. Jesus acolhia a todos e não era indiferente às angústias; ao contrário, tomava a iniciativa de ir ao encontro dos sofrimentos onde as pessoas estivessem. Para nós, que acreditamos em Jesus, ele é a única verdadeira fonte de vida; não só para nós, mas também para aqueles por quem intercedemos, a exemplo de Jairo.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo. E-mail: [email protected]