Roteiros homiléticos

Publicado em janeiro-fevereiro de 2024 - ano 65 - número 355 - pp.: 43-46

14 de janeiro – 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*

“Encontramos o Messias, o Cristo”

I. INTRODUÇÃO GERAL

Neste 2º domingo do Tempo Comum, a Igreja nos oferece na liturgia textos vocacionais. Todos somos vocacionados por Deus à vida, à santidade e a uma missão específica. A primeira leitura nos põe em sintonia com Samuel, chamado pelo Senhor a servir como profeta. A segunda leitura nos convida a compreender que nossa vida e nosso corpo devem estar a serviço de Deus e que tudo começa a partir do nosso encontro com Cristo – nosso enamoramento por ele. No Evangelho, somos conduzidos por André, irmão de Simão Pedro, a encontrar o Messias – o Cristo – e a permanecer a seu lado. Desse modo, seremos transformados pelo Senhor em pedras vivas para a construção da Igreja, sacramento universal de salvação (Lumen Gentium, n. 48).

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (1Sm 3,3b-10.19)

Estamos diante de um clássico texto vocacional, que nos permite perceber o agir de Deus no meio de seu povo, chamando seus servidores para as mais diversas missões. O chamado é feito a Samuel – nome que, em hebraico, pode ser traduzido por “aquele a quem Deus escuta”. Samuel estava dormindo no templo, junto à arca da Aliança. Por três vezes, o Senhor chamou-o: “Samuel, Samuel!” O jovem vocacionado ao profetismo, não percebendo que era Deus aquele que o chamava, “pois não conhecia o Senhor” (v. 7), dirigiu-se a Eli, o sacerdote do templo. Por duas vezes essa cena acontece; na terceira vez, Eli entendeu ser Deus aquele que estava chamando o jovem (v. 8), então o instruiu, dizendo: “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: ‘Senhor, fala, que teu servo escuta!’” Pela quarta vez, Deus, em pé ao lado dele, chamou-o: “Samuel, Samuel!” E o jovem lhe respondeu: “Fala, que teu servo te escuta” (v. 10). Ao final, o v. 19, que foi incluído no texto deste domingo, diz que Samuel crescia, que o Senhor estava com ele e que não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras.

A vocação de Samuel é um apelo que Deus faz não apenas ao profeta, mas também a toda sua Igreja, incluindo a nós, hoje. Somos interpelados pela Palavra de Deus, a qual nos convida ao profetismo – que consiste em anunciar a esperança divina e sua consolação e, também, denunciar as injustiças que corrompem a humanidade e a impedem de prosseguir no caminho salvífico indicado por Deus: a paz em busca da fraternidade universal. Deus acompanha aqueles que ele mesmo chamou, além de capacitá-los no caminho e no projeto que devem cumprir.

2. II leitura (1Cor 6,13c-15a.17-20)

A chave de leitura para compreender esta passagem paulina sobre a dignidade do corpo é o v. 17, que afirma: “Quem adere ao Senhor torna-se com ele um só espírito”. Paulo sabe que a cidade de Corinto tinha como lema “viver à coríntia”, denotando uma atitude de licenciosidade e laxismo, práticas que não correspondiam à dignidade com a qual o Evangelho de Jesus Cristo convidava seus ouvintes a viver. Viver de modo licencioso, na concupiscência, não era o teor do convite feito por Paulo: “O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo” (v. 13c).

O apóstolo entendeu que a comunidade de Corinto estava dividida entre os costumes consuetudinários (comuns àquela região) e os valores que o Evangelho lhes procurava incutir. O supracitado v. 17 serve para compreender que quem faz uma aliança, após o convite de Jesus Cristo, torna-se unido a ele pelo Espírito. Essa união pneumatológica fortalece a consciência do cristão, que, conquanto viva em meio a imoralidades – àquilo que o torna menos digno, em razão da força pecaminosa –, é chamado à santidade de vida, unido com o Senhor.

3. Evangelho (Jo 1,35-42)

O prólogo de João – além da teologia do Logos, a Palavra que se fez carne (Jo 1,14) – apresenta, em sua continuação, a tradição de João Batista. Nos Evangelhos sinóticos, João é o personagem que apresenta Jesus, preparando os caminhos para que o Senhor possa passar. É o precursor do Messias, aquele que vem antes, apontando quem é o Filho de Deus. João é também o Batista, pois batiza as pessoas de seu tempo, admoestando-as à metanoia, que em grego significa “arrependimento”.

No Evangelho de João, o Batista é um mestre que ensina seus discípulos. Ao ver Jesus passar, o profeta afirma: “Eis o Cordeiro de Deus”. Tal afirmação quer dizer que Jesus é, de um lado, para a comunidade joanina, símbolo da paz e, de outro, na esteira do judaísmo, símbolo da passagem, remetendo ao sangue do cordeiro, no contexto pascal do livro do Êxodo. A imagem do cordeiro também aparece, na tradição joanina, no livro do Apocalipse (Ap 5,6). Nele, o Cordeiro está de pé no meio do trono, com aparência de morto; recebe o louvor dos seres vivos, que aparecem juntamente com os 24 anciãos que se prostram diante dele.

No v. 37 do Evangelho, ao ouvirem as palavras do Batista, os discípulos passaram a seguir Jesus. Vendo que o seguiam, este pergunta: “O que estais procurando?” Eles dizem: “Rabi, onde moras?” E Jesus fala-lhes: “Vinde ver!” Então eles foram ver onde Jesus morava e, nesse dia, permaneceram (verbo que se repete no Evangelho joanino) em sua companhia (v. 39). Um dos que ouviram o Batista e seguiram a Jesus era André, irmão de Simão Pedro. Ele foi até seu irmão e lhe disse: “Encontramos o Messias”, que João explica: “que quer dizer Cristo”.

André conduziu Simão a Jesus. O Senhor viu (do verbo grego ídon – traduzido por “ver”, no sentido de “identificar”) Simão com profundidade e disse-lhe: “Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que se traduz por Pedra)” (v. 41-42). Desse modo, “encontramos o Messias” é a expressão-chave da celebração deste domingo. Também necessitamos descobrir em nossa existência cristã o Messias que nos chama e nos convida a permanecer com ele.

Essa narrativa vocacional, assim como a primeira leitura, convoca-nos para seguir os passos de Jesus Cristo e permanecer com ele. Sermos olhados – identificados – por Jesus é, para nós, condição de possibilidade para o encantamento necessário, com base no qual ele conta conosco para edificar sua Igreja como pedras vivas desse edifício espiritual (1Pd 2,5), cujo fundamento é a fé apostólica de Pedro. Assim, formaremos uma casa espiritual – como lembra o apóstolo Pedro em sua primeira epístola –, um sacerdócio santo.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Ajudar a comunidade cristã a perceber sua vocação à vida, à santidade e à ministerialidade, no contexto da sinodalidade: todos “juntos-unidos” no mesmo caminho de Cristo Jesus. Compreender que nosso corpo, bem como toda nossa vida física, psíquica e espiritual, formam, integralmente, um lugar salvífico de Deus. Ele nos quer salvos na nossa integridade. Despertar na Igreja a missão de ir ao encontro de Cristo nos pobres: onde eles moram – nos asilos, nas prisões… –, também Cristo ali se encontra. Lá estão nossos “Cristos abandonados”.

Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*

*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), realizou parte de seus estudo de doutorado na modalidade “sanduíche”, cursando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor na PUC-Minas, em BH, e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]