Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 43 - 46

17 de maio – ASCENSÃO DO SENHOR

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

“Ide e fazei discípulos meus todos os povos”

INTRODUÇÃO GERAL

A solenidade da Ascensão do Senhor simboliza, no horizonte da fé, o destino da pessoa fiel: o céu, a vida eterna junto daquele que vive e reina. Na perspectiva teológica cristã, a ascensão corresponde ao aceite de Deus acerca da vida inteira de Jesus, que, ressuscitado, volta para o Pai, levando consigo toda experiência aqui vivida. Ele será, ao lado do Pai, no laço do Espírito que os une, o eterno Crucificado-Ressuscitado que enxerta no mistério de Deus a vida humana da encarnação, sendo esta assumida pela redenção. Sua vida é integralmente acolhida por Deus e, portanto, tendo assumido nossa condição mortal, revela que nossa vida está escondida com ele (Cl 3,3). Na primeira leitura, Lucas apresenta a cronologia dos fatos teológicos envolvendo Jesus e seus discípulos logo após a ressurreição, inserindo-nos no contexto da ascensão, que, mais que um fato, constitui a experiência existencial de Jesus de ser acolhido plenamente no coração de Deus. Na segunda leitura, Paulo convida a comunidade de Éfeso a conhecer o amor de Deus e seus planos, que envolvem chamá-la à riqueza da glória com todos os santos (cristãos). No Evangelho, Jesus se despede de seus discípulos em uma montanha e deixa-lhes dupla missão: batizar e ensinar. Jesus não apenas volta para o Pai, mas deixa aos discípulos e à Igreja um legado.

COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (At 1,1-11)

Na primeira leitura, Lucas inicia seu livro, os Atos dos Apóstolos (em grego, Praxéis Apostolon), endereçando-se a Teófilo, o “amigo de Deus”, que pode hipoteticamente não ser apenas um dignitário pagão, mas constituir toda a Igreja, que fez, por Jesus Cristo – o Filho –, uma amizade com Deus, o Pai. Lucas afirma que, no seu primeiro livro, o Evangelho, tratou de tudo o que Jesus havia feito e ensinado (v. 1). O v. 2 já nos põe em sintonia com o mistério hoje celebrado: “até ao dia em que foi levado para o céu”, depois de ensinar, pelo Espírito Santo, os apóstolos, os escolhidos (exeléxato). O termo “levado”, que em grego lucano é anelēmphthē, é traduzido também por “foi elevado”, dando a entender que esse movimento não é autônomo por parte de Jesus, mas sua vida é elevada por ação de Deus, que também o ressuscitou dos mortos, sinalizando, assim, sua plena comunhão com aquele que o enviou e, agora, o resgata deste mundo. Do v. 3 ao v. 5, Lucas faz uma anamnese de tudo o que realizou Jesus: apareceu aos apóstolos e, em uma refeição, após lembrá-los do batismo ministrado por João com água, afirmou que agora os discípulos seriam batizados pelo Espírito, comunicando-lhes em seguida a missão de anunciar o Evangelho. Os que lá estavam reunidos (v. 6) perguntaram a Jesus quando seria a restauração do reino de Israel. Jesus lhes respondeu (v. 7) que não lhes cabia saber o dia e o momento que o Pai havia determinado por sua própria autoridade.

Jesus promete (v. 8) que seus discípulos receberão logo mais o Espírito Santo, aludindo a Pentecostes, a festa da manifestação do Espírito. Diz-lhes que serão suas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até os confins do mundo. Depois de comunicar-lhes a missão evangelizadora, Jesus foi levado ao céu na frente deles (v. 9). A nuvem é uma representação da presença divina desde o AT (Ex 13,21-22), simboliza a presença de Deus junto aos israelitas no deserto. A nuvem impede os discípulos de ver o mistério, que deve ser compreendido com o coração, não com o sentido da visão. Segundo o v. 10, enquanto ainda os discípulos olhavam para o céu, apareceram dois anjos vestidos de branco, mensageiros de Deus, que lhes disseram (v. 11): “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”. Essa promessa, que parece uma consolação, evoca os mistérios que ainda serão testemunhados por eles: Jesus enviará o Espírito Santo em Pentecostes, que falará por eles e agirá por meio deles, para que o Evangelho não seja esquecido.

2 II leitura (Ef 1,17-23)

Constituindo verdadeiro legado espiritual de Paulo, embora considerada deuteropaulina, escrita desde sua prisão em Roma (Ef 3,1; 4,1), a carta aos Efésios demonstra a doutrina de fé do apóstolo, sendo provavelmente expressão de sua íntima relação com os judeus da sinagoga daquele lugar, onde ele permaneceu por pouco tempo. Éfeso era um centro de irradiação para a vida missionária na Ásia Menor. A carta possivelmente foi escrita por volta dos anos 60 a 62. É dirigida aos “santos” que estão em Éfeso, aos cristãos daquela renomada comunidade. Paulo escreve com a intenção de ajudar a desenvolver a espiritualidade e o testemunho daqueles que já eram membros. O propósito era ajudar esses convertidos a crescer no conhecimento espiritual de Deus e da Igreja, sobretudo aqueles oriundos do paganismo, com os quais o apóstolo sempre soube dialogar.

Paulo inicia falando da sabedoria dada por Deus aos que ele chamou (v. 17). Em tom litúrgico, parece estar rogando a Deus para que o coração deles se abra à luz, a fim de saberem a esperança do seu chamamento, a herança da glória reservada aos “santos” (leia-se “cristãos batizados”). Deus (v. 20) manifesta em Cristo sua força, ressuscitando-o dos mortos e fazendo-o assentar-se à sua direita. Essa cristologia (v. 21) ainda ressalta a potestade de Deus em Cristo. Deus submeteu todas as coisas a Cristo (v. 22), que está acima de tudo e é a cabeça da Igreja, seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal (v. 23). Para Paulo, Cristo é a razão de ser dos cristãos e todos estamos nele vinculados. Como verdadeiro legado de fé, Efésios demonstra a convicção de Paulo mesmo em meio aos sofrimentos e lágrimas que vive em sua prisão.

3. Evangelho (Mt 28,16-20)

Correspondendo ao final do Evangelho segundo Mateus, essa passagem tem um tom de despedida e, ao mesmo tempo, de envio missionário, à luz do que Jesus já havia ensinado sobre a montanha (Mt 5-7, intitulado “Sermão da montanha”). Trata-se de transmissão importante de legado, o de Jesus para os discípulos, chamados de apóstolos como em Mt 10,2-3 (apostolōn: “enviados”).

Desde o sepulcro vazio, a atenção se volta para o encontro de Jesus com os discípulos na Galileia (Mt 28,7). Na opinião de Giuseppe Barbaglio, a relação entre Jesus e os discípulos constitui “o centro de interesse de Mateus nesta seção pascal” (“O Evangelho de Mateus”. In: BARBAGLIO, G. et al. Os Evangelhos I. São Paulo: Loyola, 1990, p. 417), opinião compartilhada por inúmeros exegetas. A cena acentua não apenas a atitude dos discípulos com relação a Jesus, vendo-o (v. 17), mas também a de Jesus com relação a eles (v. 18), em que ele se aproxima e lhes diz: “Foi me dado por Deus todo o poder no céu e sobre a terra”. A exousia de Jesus, seu poder, é autorizada pelo Pai, que o envia ao mundo para revelar a si e seu plano, o Reino de Deus, em Mateus entendido como Reino dos Céus (Mt 3,2). Jesus incumbe seus discípulos de constituir outros discípulos do meio de todos os povos, revelando que seu plano e sua vontade se orientam para a universalidade, e não apenas para os da casa de Israel (v. 19). Essa ordem termina com o verbo “batizai-os” (em grego: baptizontes autous) em nome da Trindade. O v. 20 inclui: “ensinai-os (didaskontes) a observar tudo o que vos ordenei”. Note-se que o verbo é derivado de didaskalia, do ensinamento daquilo que Jesus veio comunicar. Tudo o que ele deseja é que suas verdades sejam observadas.

Jesus envia sua Igreja ao mundo e promete que estará presente com ela, os discípulos, no mundo. A Igreja, segundo Barbaglio, “não foi deixada sozinha no seu longo e cansativo caminho histórico” (op. cit., p. 420). Jesus a acompanha, sustentando e encorajando seus passos sobre o pó da história. Como Igreja em saída, Jesus sai com seus discípulos, pois, onde dois ou três estão reunidos em seu nome, ele está no meio deles. A comunidade eclesial experimenta, nas vivências fraterna, missionária e anunciadora, celebrando também hoje a Eucaristia, a presença viva de Jesus, Senhor que a anima e não a deixa sucumbir diante dos desafios.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Anunciar que Jesus está no meio de nós, que nossas comunidades não se encontram órfãs nem abandonadas, pois ele é quem preside a vida da Igreja, animando os ministros e os fiéis leigos na missão evangelizadora. Catequizar a comunidade para firmar nela a certeza de que a ascensão de Jesus não constitui uma despedida fatídica, na qual a vida dele é apartada da nossa, mas sim um ganho para a humanidade, que, em sua humildade, é acolhida na realidade celestial por Deus. Ajudar os fiéis a se prepararem para a festa solene de Pentecostes, pedindo ao Espírito os dons diversos para que a evangelização continue acontecendo.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]