Roteiros homiléticos

17º Domingo do Tempo Comum – 28 de julho

Por Zuleica Aparecida Silvano

Senhor, ensina-nos a rezar!

I. Introdução geral

Nesta liturgia nos é apresentada a importância da oração. A I leitura descreve a intercessão de Abraão em favor de Sodoma e Gomorra. Essa oração nos revela a sua preocupação com o povo, não com seus interesses pessoais. Jesus nos ensina a rezar, a pedir com insistência e confiar no amor de Deus, que, como um Pai, dará coisas boas a seus filhos, dará o Espírito Santo (evangelho). Essa confiança no amor de Deus, na atuação do Espírito em nós e na participação da vitória definitiva de Cristo inicia-se no batismo, mas somos convidados a crer cada dia na salvação dada por Deus, por meio do seu Filho (II leitura), e ter a coragem de construir o Reino de Deus, que é de partilha, perdão e vida para todos (evangelho).

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Gn 18,20-32

O relato dá continuidade à narrativa anterior, na qual Abraão acolhe as três pessoas em Mambré (entre as quais está Deus). Enquanto as outras duas seguem seu caminho, Deus permanece com Abraão, informa-o sobre a realidade de Sodoma e Gomorra e compartilha suas preocupações e objetivos, como um amigo (cf. vv. 18-21). O tema do diálogo é o pecado dos habitantes dessas cidades, que consiste na injustiça cometida por toda a população e em todos os âmbitos. O clamor dessa injustiça chegou até Deus, que por isso desce para comprovar o pecado de Sodoma e Gomorra. Ele se apresenta como o justo juiz, que discerne qual deve ser a sua atitude somente após verificar de perto a realidade. Nesse diálogo transparece a ousadia de Abraão, ao tentar negociar ou interceder pelas cidades, para que não sejam destruídas. Ele aproveita o tempo que tem para tentar mudar a vontade de Deus. Este esclarece que não irá eliminar os justos com os injustos e que os primeiros, por sua conduta, poderão salvar os segundos (cf. v. 26), independentemente do número de justos que houver na cidade. Nessa “negociação”, descobrimos o poder da intercessão, que vai além da justiça, e deparamos com um Deus capaz de dialogar, sabendo que, ao revelar seus planos, deve estar também disposto a mudá-los. Infelizmente, contudo, não foi possível conceder a salvação, apesar de todas as concessões do Senhor, pela ausência de justos naquelas cidades.

2. Evangelho: Lc 11,1-13

A oração de Jesus em Lc 11,2-4 se diferencia da que se encontra em Mt 6,9-13, provavelmente por pertencerem a tradições litúrgicas diferentes e os evangelhos terem públicos distintos. Há um estilo semelhante às orações judaicas, mas a oração de Jesus traz elementos próprios da sua pregação e está intrinsecamente relacionada com a proximidade do Reino de Deus.

Jesus é apresentado como aquele que reza ao Pai, sobretudo, nos momentos decisivos (cf. v. 1). Neste texto, o evangelista reúne vários ensinamentos sobre a oração: ensina seus discípulos a rezar (cf. vv. 2-4), a orar com perseverança (cf. vv. 5-8) e com confiança (cf. vv. 9-13).

Em Lucas, há a preocupação de apresentar um contexto no qual os discípulos presenciam Jesus em oração. Ao vê-lo rezar, pedem-lhe que lhes ensine uma oração que caracterize seus seguidores, diferenciando-os do grupo de João Batista. Nota-se que o pedido dos discípulos não foi no início da caminhada, mas depois de presenciar vários momentos no qual o Mestre rezava. Isso também acontece conosco, quando percebemos que, ao redor de nós, há pessoas que rezam e desejamos fazer a mesma coisa.

A oração ensinada por Jesus é simples. Ela traz os elementos fundamentais da existência humana e expressa a relação afetuosa entre o Pai e seus filhos. Sobretudo, apresenta como deve ser a relação entre os discípulos e Deus e quais são os elementos essenciais da pregação de Jesus. Os pedidos iniciais são dirigidos a Deus, tendo em vista a realização do seu Reino e a santificação de seu nome. Os demais contêm temáticas diferentes que dizem respeito às relações entre as pessoas: o pão, o perdão e a libertação da infidelidade.

Jesus se dirige a Deus como Pai, título atribuído a Deus no AT, ligado aos títulos de Criador e Senhor do povo. Evoca também a bondade e a misericórdia divina, por ser o Deus de Israel aquele que sempre está pronto a perdoar. Dirigir-se ao Pai provoca a abertura do orante a Deus, predispõe-no a assumir uma atitude de confiança, de comunhão e de proximidade e indica a responsabilidade de ser filho. Chamar Deus de Pai é descobrir novo horizonte de vida e tomar consciência de que ele tem um projeto para nós. A santificação do nome parece mais com uma expressão de louvor e de esperança de que a santidade, a soberania e a ação salvífica de Deus sejam reconhecidas na história (cf. v. 2). O segundo pedido exprime o desejo de que o Reino de Deus, anunciado por meio das palavras e dos gestos de Jesus, seja plenamente manifestado. Para isso, entretanto, é necessário que o cristão esteja aberto ao projeto do Pai, totalmente em comunhão com sua vontade e comprometido com a construção de uma sociedade marcada pelos valores evangélicos. Os demais pedidos também têm como conteúdo problemas existenciais, mas são também sinais da realização do Reinado de Deus.

“Dá-nos a cada dia o pão” é um pedido que também envolve a comunidade suplicante, pois indica a necessidade constante da partilha, da solidariedade, da comunhão fraterna e da justiça social. Mais do que um pedido, é exortação a não acumular, não criar a desigualdade entre as pessoas. Expressa também a confiança incondicional dos cristãos no Pai, que destinou os bens do mundo a todos.

O quarto pedido, que tem como objeto o perdão, é voltado a Deus e é o único que é mediado pelo agir fraterno: “pois nós perdoamos a todos os nossos devedores”. De fato, pedimos a Deus que nos perdoe os pecados cometidos contra ele, pois também nós fazemos a mesma coisa com os nossos irmãos. É importante sublinhar que com Jesus já recebemos o perdão dos pecados, mas, por nossa condição histórica, podemos pecar; assim, é necessário pedir a Deus tanto o perdão para o tempo presente quanto o perdão definitivo, no fim dos tempos. Nesse sentido, o último pedido exprime a consciência da fraqueza humana diante da tentação, por isso é necessário pedir forças para resistir a ela. A grande tentação é justamente desanimar, abandonar o projeto do Pai, ser infiel na construção do Reino, não realizando a vontade de Deus (cf. Lc 22,46).

A oração conclui pedindo a Deus não que o discípulo não seja provado ou que não haja conflitos em sua caminhada, mas sim que tenha a capacidade de perseverar no seguimento, não obstante as tentações e dificuldades.

O evangelista apresenta, a seguir, duas parábolas. A primeira sublinha a atitude do amigo que foi importunado, para mostrar a necessidade de perseverar na oração (cf. vv. 5-8) e confirmar que Deus é mais disponível que o amigo. A finalidade do exemplo dado é teológica, ou seja, ele deseja apresentar o agir de Deus, bem como o fato de que Deus ouve nossa oração, pois é nosso amigo (I leitura). Na segunda parábola, Jesus afirma que o Pai é muito melhor que qualquer pai terrestre (cf. vv. 11-13). Ele nos dará o Espírito Santo, ou seja, realizará a promessa reservada para os tempos messiânicos ou para o fim dos tempos (cf. Jl 3,1-2; Is 11,4; 32,15; 59,21), concedendo ao discípulo o dom por excelência da salvação. O Espírito está ligado à vinda do Messias, sendo, portanto, o sinal de sua presença e do início da era messiânica. O Espírito também é aquele que estabelece a comunhão entre o Pai, o Filho e os membros da comunidade. Ele assume uma dimensão ética, sendo associado à caridade e à nossa configuração a Cristo. O Espírito Santo é que impulsionará e animará o discípulo e a discípula a dar continuidade ao projeto do Pai, revelado pelo Messias Jesus.

3. II leitura: Cl 2,12-14

Esses versículos pertencem a uma longa parte exortativa e teológica (cf. Cl 2,6-23). Nessa seção, é enfatizada a vitória de Cristo, apresentado como a revelação plena do Pai, sendo, portanto, o mediador de nosso encontro com Deus (cf. vv. 10-11). A salvação se dá no batismo (cf. vv. 12-13). Essa seção tenta exortar os cristãos de Colossas a não procurar a salvação em seres celestes, teorias filosóficas e práticas espirituais que estavam sendo propagadas na comunidade, mas em Jesus Cristo.

O autor dessa carta, diferentemente do que se encontra nas protopaulinas, exprime a concepção de que o batizado morre para o pecado e ressuscita com Cristo (cf. v. 12), porém receberá um corpo glorioso somente na parusia.

No batismo não se realiza a ressurreição no sentido físico, nem ele pode ser compreendido como participação na vida celeste, mas produz uma união especial com Cristo, pois o batizado participa da vitória final, a ressurreição de Jesus. Desse modo, vive em comunhão com Cristo e já possui a vida eterna. A escatologia não está realizada, mas o fiel definitivamente está unido com o Ressuscitado. Com a fidelidade a Cristo, o cristão vive uma existência nova que o habilita a descobrir, na história e na vida, a realização do projeto salvífico de Deus. O autor, no v. 13, descreve a condição de pecado dos gentios antes do batismo; ao aderirem a Cristo, porém, Deus lhes concede uma vida nova e lhes faculta a participação nos efeitos da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Estes efeitos são a expiação dos pecados (cf. vv. 13-14) e a libertação. Desse modo, o/a batizado/a é convidado/a a deixar o pecado, a morte e a escravidão. Essa condição é sepultada por meio do batismo (morte para o pecado), e o/a batizado/a já ressuscitado/a assume uma vida nova, marcada pela liberdade de ser filha/o de Deus (cf. Cl 2,12-14). O autor faz os colossenses entender que, com a morte de Jesus na cruz, o amor de Deus pela humanidade já é revelado em sua grandeza. Cristo é o mediador pelo qual Deus se põe totalmente
à disposição da humanidade e no qual o ser humano pode experimentar a proximidade definitiva da salvação.

III. Pistas para reflexão

No evangelho, Jesus nos ensina a rezar, a pedir com insistência e confiar no amor do Pai. Esse amor é manifestado em seu Filho, com o qual nos unimos por meio do nosso batismo (II leitura). Ter no coração a plenitude do projeto do Pai, descrito na oração que Jesus nos ensinou, é ter sempre dentro de nós o constante apelo de entregar a nossa vida ao serviço do irmão. É desejar que, por meio de nós, esse Reino sonhado, querido, pedido constantemente em nossas orações se torne realidade em todos os recantos do mundo. Também é necessário, contudo, pedir a intercessão de Deus para aqueles que não creem em seu projeto (I leitura), acreditando que ele ouvirá nossas preces se forem feitas em nome de Jesus e tenham como conteúdo o Reino, o desejo sincero de cumprir sua vontade e se deixar guiar pelo seu Espírito. Diante da riqueza que nos foi oferecida nesta liturgia, podemos nos perguntar: em geral, o que pedimos a Deus? Qual é o conteúdo das nossas orações? Pedimos o Espírito Santo para a nossa vida, para nossos filhos e filhas, para a Igreja? O que significa para nós rezar comunitariamente a oração que Jesus nos ensinou? O projeto do Pai, descrito nos pedidos da oração que Jesus nos ensinou, afeta a nossa vida e a vida da nossa comunidade? Temos a preocupação de alimentar a nossa vida interior com a oração que Jesus nos ensinou? Nas comunidades primitivas, a oração que Jesus ensinou (Pai-nosso) era explicada somente após o batismo. Nesse sentido, podemos refletir: Qual é a relação entre ser batizado e rezar a oração que Jesus ensinou aos discípulos e que caracteriza aqueles que o seguem?

Zuleica Aparecida Silvano

Ir. Zuleica Aparecida Silvano, religiosa paulina, licenciada em Filosofia pela UFRGS, mestra em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico (Roma) e doutora em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde atualmente leciona. É assessora no Serviço de Animação Bíblica (SAB/Paulinas) em Belo Horizonte. E-mail: zuleica.silvano@paulinas.com.br