Roteiros homiléticos

Publicado em novembro-dezembro de 2022 - ano 63 - número 348 - pág.: 55-58

18 de dezembro – 4º domingo do Advento

Por Izabel Patuzzo*

Deus vem ao nosso encontro!

I. INTRODUÇÃO GERAL

Finalmente, neste 4º domingo do Advento, as leituras proclamadas nos permitem iniciar a contemplação do mistério da encarnação que celebramos no Natal: Jesus é o Deus-conosco que veio ao encontro da humanidade para oferecer um proposta de salvação e vida nova.

A primeira leitura traz o relato do encontro do profeta Isaías com o rei Acaz, propondo-lhe que peça um sinal ao Senhor Deus. O rei recusa dirigir-se a Deus pedindo um sinal de sua intervenção, mas o profeta insiste que, apesar da obstinação de Acaz, Deus lhe dará um grande sinal: enviará o Emanuel, que será concebido por uma virgem.

A segunda leitura, retirada da carta de Paulo aos Romanos, sugere que nosso encontro com Jesus deve resultar em um testemunho de busca de santidade. Quem recebe a Boa-nova da salvação não a pode guardar somente para si, mas deve estar disposto a partilhá-la com aqueles que caminham ao seu lado.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 7,10-14)

O rei Acaz governou o Reino de Judá por volta do ano 734 a.C., em um período de estabilidade política e desenvolvimento econômico. A prosperidade trouxe às tribos de Judá certa tranquilidade. No entanto, no cenário da Mesopotâmia estava despontando grande ameaça, vinda da Assíria. O profeta Isaías, atento à realidade de seu tempo, prevê que essa tranquilidade será temporária. Israel tem de tomar cuidado com seu futuro. Enquanto o rei Acaz deposita toda a sua segurança na prosperidade, o profeta deposita toda a sua confiança no Deus da Aliança. É nesse contexto que o profeta se dirige ao rei, para alertá-lo e lhe recomendar que peça um sinal a Deus, em vista de decidir o que é melhor para seu povo. Acaz recusa-se a pedir a ajuda de Deus. Isaías, porém, insiste em buscar no Senhor as razões para seu discernimento.

O sinal de que Deus atua na história será este: uma virgem conceberá e dará à luz um filho; seu nome será Emanuel, que significa Deus-conosco. Ele será a garantia da continuidade da descendência de Davi, porque Deus manterá sua promessa de enviar alguém que cuide do povo. A mensagem central do texto é a afirmação de que Deus não abandona sua Aliança. Isaías chama a atenção para as falsas seguranças do rei Acaz, que podem levar o povo à ruína. Ele confia excessivamente na força militar, e tal postura resultará em fracasso, culminando em uma guerra que devastará Judá.

2. II leitura (Rm 1,1-7)

A carta de Paulo aos Romanos foi escrita por volta do ano 57 ou 58 d.C., provavelmente quando o apóstolo se encontrava em Corinto e se preparava para deixar sua missão no Mediterrâneo oriental e partir para nova missão no Ocidente. O texto proposto na segunda leitura é a introdução da carta. Essa comunidade não foi fundada por Paulo, por isso ele tem muito cuidado ao se dirigir aos irmãos e irmãs que estão em Roma.

O apóstolo tem a intenção de partir em direção à Espanha e a Roma, porém antes deve visitar a comunidade mãe, Jerusalém, a fim de entregar a coleta das comunidades da Ásia Menor. Um dos objetivos da carta era se apresentar aos cristãos de Roma, ter um primeiro contato e anunciar sua futura visita. Paulo define a si mesmo como servo de Jesus Cristo, apóstolo por chamado divino e eleito para anunciar o Evangelho às nações.

Entender-se como servo de Jesus Cristo, para ele, significava pôr incondicionalmente toda sua vida a serviço da Igreja. Ser servo, para Paulo, não implica ser escravo, e sim uma escolha livre de quem está convencido de que deve se dedicar inteiramente à causa do Evangelho. Ao apresentar-se como apóstolo por meio de um chamado divino, ele quer dizer que seu testemunho é verdadeiro, pois pregar o Evangelho não é algo que partiu de sua iniciativa. Foi Deus quem o chamou e o designou para a missão evangelizadora, e seu passado confirma sua vocação missionária. O ministério apostólico indica a exclusividade do serviço à proclamação da Palavra. Na Igreja primitiva, já havia a distinção entre apóstolos, diáconos ou diaconisas e presbíteros.

O ministério de Paulo no Ocidente exige uma dedicação total à causa do Evangelho. Ele suplica aos cristãos romanos que orem pela sua ida a Jerusalém, pois ainda nem todos os irmãos judeus da comunidade mãe o conheciam. A coleta em favor da comunidade mãe destinava-se aos pobres. Era um gesto de solidariedade dos gentios convertidos, como sinal de profunda gratidão por terem recebido a fé cristã mediante o testemunho da comunidade mãe.

3. Evangelho (Mt 1,18-24)

A narrativa do nascimento de Jesus, no relato de Mateus, compõe a seção dos textos sobre a infância de Jesus. O texto é verdadeira catequese sobre a origem de Jesus. O evangelista ensina que a concepção virginal de Jesus foi obra divina. José nos é apresentado como um homem justo, o que, na concepção veterotestamentária, significa obediente à Lei mosaica. Como fiel observante das Escrituras, José tem compaixão por Maria, no sentido de que não permite a execução do apedrejamento, pena prescrita à mulher que concebesse antes da consumação do matrimônio. José, como os sábios do Antigo Testamento, soube interpretar corretamente seus sonhos. Tal sabedoria era um dom concedido por Deus aos que eram fiéis aos ensinamentos da Torá e justos em suas relações com os demais.

O anjo do Senhor explica a José que Maria não é adúltera, algo que os leitores de Mateus sabiam muito bem, porque conheciam as leis da tradição contida nas Escrituras. O anúncio do anjo a José segue o estilo dos relatos veterotestamentários, quando se anunciava o nascimento de uma personagem muito importante para o povo escolhido. Esse anúncio é cercado de sinais divinos que provocam perplexidade e medo. O mensageiro de Deus comunica o nome da criança que irá nascer. A etimologia do nome indica sua missão de salvador. O Emanuel, Deus-conosco, recorda toda a história de Israel, de um Deus que sempre está no meio de seu povo. Portanto, o nascimento dessa criança faz parte do projeto divino para a humanidade.

As figuras de José e Maria desempenham um papel muito importante como colaboradores do plano salvífico de Deus. Os dois enfrentam desafios e impasses diferentes na obra da salvação. José recebe dupla missão: acolher Maria e dar o nome à criança, o que significa tomá-la por filho. Maria, implicitamente, é aquela na qual se cumpre a profecia de que uma virgem conceberia. A encarnação de Jesus se torna possível mediante a obediência de Maria e José aos planos de Deus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

As leituras nos recordam que, na história da salvação, há pessoas como o rei Acaz, que depositam sua confiança em falsas seguranças. Muitos depositam sua esperança nos poderosos deste mundo. O profeta Isaías pertence à categoria de pessoas que depositam sua esperança somente em Deus. Os poderes deste mundo são falíveis, ao passo que Deus é o único que permanece fiel do início ao fim da história. Neste tempo em que nos preparamos para celebrar a vinda do Senhor, somos convidados a tomar consciência da fidelidade amorosa de Deus, questionando-nos onde depositamos nossa confiança e esperança.

Nós, cristãos, que acreditamos no Emanuel, Deus-conosco, somos chamados a testemunhar, no mundo, sua proposta de vida e liberdade. O exemplo de Paulo apóstolo nos serve de inspiração, para que também nós venhamos a pôr nossa vida totalmente a serviço do Reino que Jesus veio construir. A vida de cada um de nós é uma missão, como nos falou recentemente o papa Francisco. A missão que Deus me confia é única, exclusiva e necessária para o bem das pessoas que convivem comigo.

Segundo a catequese primitiva da comunidade de Mateus, Jesus é o Deus que vem ao encontro da criatura humana na fragilidade de uma criança, acolhida por José e Maria. Ele foi enviado por Deus como o grande dom para a vida e a salvação da humanidade. A celebração do Natal que se aproxima é o momento de cada pessoa experimentar esse encontro pessoal com o menino Jesus. Esse encontro, porém, só é possível se estivermos com o coração aberto para acolhê-lo.

As figuras de José e Maria nos interpelam. Eles foram pessoas capazes de escutar e discernir os apelos de Deus na própria vida. Mudaram seus planos e projetos para poderem acolher a missão que Deus lhes confiou. Até que ponto somos capazes de mudar nossos esquemas mentais e desorganizar nossos projetos, quando precisamos estar disponíveis para o que Deus nos pede?

Izabel Patuzzo*

*pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica. E-mail: [email protected]