Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2023 - ano 64 - número 351 - pp.: 58-62

18 de junho – 11º domingo do Tempo Comum

Por Marcus Mareano*

Deus conta conosco

I. INTRODUÇÃO GERAL

O Tempo Comum é caracterizado como um tempo para o amadurecimento da graça batismal. Celebram-se nele os ensinamentos de Jesus, sua existência entre as pessoas e sua missão, realizada no mundo por amor a Deus e à humanidade.

Este domingo é um chamado e um envio para participar efetivamente da vida de Cristo. A primeira leitura apresenta a eleição de Israel e a Aliança de Deus com seu povo. A carta aos Romanos descreve a nova condição daqueles que estão, em Cristo Jesus, a caminho da salvação definitiva. Jesus, no Evangelho, convoca os doze para se dirigirem às ovelhas perdidas da casa de Israel. Nós hoje somos o novo povo eleito em Cristo para espalhar a mensagem do Evangelho a todas as pessoas e em todos os lugares.

A missão não consiste apenas em uma ação ou em um período de exercício de uma atividade. Ela é o estado comum do ser cristão. Por nossa fé, tornamo-nos missionários de Cristo. Recusar- se a viver essa dimensão da fé é desconsiderar o efeito batismal na pessoa humana.

Pelo batismo, somos inseridos no mistério da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Esse mistério não pode ser guardado para nós mesmos, como um tesouro a esconder. Ao contrário, deve ser compartilhado, proclamado, acreditado e celebrado. Todos os batizados são chamados e enviados em missão. Comprometamo-nos com o que celebramos, tornemos nossa vida uma missão!

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Ex 19,2-6a)

O livro do Êxodo conta a libertação do povo de Israel da escravidão do Egito. Nessa travessia para a Terra Prometida, aquelas pessoas escravas se constituem o povo de Deus com base na experiência de fé nele no deserto.

O episódio da primeira leitura deste domingo relata esse momento, no qual Deus reúne o povo, sob a liderança de Moisés no Sinai, e anuncia a Aliança. Israel é eleito entre todos os povos para ser o povo do Senhor e para levar seu nome a todas as nações, cumprindo sua Palavra. Essa fé em um Deus único e invisível distingue Israel dos outros povos, que adoravam deuses fabricados por mãos humanas.

Enquanto aquela gente acampava no deserto, Moisés subiu ao monte para se encontrar com Deus. A Aliança fará de Israel um povo consagrado ao Senhor, como uma propriedade (Jr 2,3; Dt 7,6; 29,19). Tal como era entre os esposos, assim se tornou a Aliança entre o Senhor e Israel. Então, Moisés deve comunicar o que ouviu desse momento e ajudar as pessoas a cumprir sua parte nesse acordo (v. 3).

A instrução de Deus se inicia recordando os eventos passados no Egito. O Senhor guiou o povo no deserto e o fez livrar-se dos egípcios, carregando-o “como asas de águia” para demonstrar-lhe seu cuidado e ternura (v. 4; Dt 4,34; 29,2). A história passada confirma a presença de Deus junto a seu povo.

Por conseguinte, Deus convoca o povo para ouvir sua voz e cumprir sua Aliança. Seguindo essa condição, Israel se torna propriedade de Deus entre todos os povos (v. 5), pois toda a terra pertence a Ele. E o povo da Aliança é chamado de “reino de sacerdotes” e “nação santa”, caracterizando o efeito da Aliança para Israel.

A partir daí, na narrativa do livro do Êxodo, o povo se instala no deserto. Seguem-se inúmeros capítulos decorrentes da Aliança. A Palavra de Deus é dirigida aos israelitas em forma de Lei, preceitos a cumprir e modos de viver conforme a fé no Senhor. O povo partirá do Sinai em Nm 10,33-36.

2. II leitura (Rm 5,6-11)

Continuamos a acompanhar, neste e nos próximos domingos do Tempo Comum, a leitura da carta aos Romanos. O trecho desta liturgia está inserido na explicação que Paulo dá acerca do ser humano justificado em Cristo, a caminho da salvação.

De início, o autor recorda a condição humana antes da fé em Cristo. Éramos fracos, e Cristo morreu por todos os ímpios (v. 6). Se é difícil alguém dar a própria vida por um justo, muito mais difícil é dá-la por quem não merece, como no caso dos pecadores. No entanto, assim Deus demonstra seu amor pela humanidade: Cristo morreu pelos pecadores (v. 8). Desde então, o ser humano se encontra sob nova condição, está justificado, a caminho da salvação.

Nessa nova situação de justificados pelo sangue (vida, existência) de Cristo, seremos salvos da ira por sua vida (v. 9-10). Então, podemos nos gloriar em Deus por Jesus Cristo, por quem já recebemos a reconciliação.

Como na primeira leitura, esse texto mostra nossa pertença a Deus. Já não por meio de uma Aliança externa ao ser humano, mas pelo sangue de Cristo, que nos dá a condição de justificados, reconciliados e a caminho da salvação, como novo povo de Deus.

3. Evangelho (Mt 9,36-10,8)

Seguindo o tema da pertença a Deus, lemos, no Evangelho, que Deus não quer as pessoas para si mesmo, mas para os outros. O episódio narra a constatação da miséria da multidão e o envio dos doze discípulos.

Os primeiros versículos (9,36-38) servem como um prelúdio para a escolha do grupo dos discípulos. Ao ver aquela gente, Jesus se compadece, sente seus sofrimentos e necessidades. Ele se “move de compaixão”, como Deus em relação ao seu povo (Ex 34,5-6; Is 40,11).

O Evangelho compara as pessoas a “ovelhas sem pastor” (9,36). Essa imagem, presente desde o Antigo Testamento, descreve a necessidade de uma voz para nortear o rumo a seguir (Nm 27,17; 1Rs 22,17; Ez 34,5.8; Jr 50,6). Jesus é a Palavra de Deus encarnada que revela o mistério do amor do Pai.

Continuando a dirigir-se aos seus discípulos, Jesus faz uma constatação e uma recomendação em forma de parábola: “A colheita é grande, mas poucos os operários! Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie operários para sua colheita” (9,37-38; Lc 10,2). Com isso, o discurso missionário seguinte fica preparado (Mt 10,1-11,1).

Jesus chama para si um grupo de doze discípulos. Esse número recorda as doze tribos de Israel (Mt 19,28), significando que aqueles eleitos em Cristo formam um novo Israel. A eles Jesus confere a autoridade (exousia) recebida do Pai para a missão. Cabe-lhes continuar a agir à maneira de Jesus: expulsando os espíritos impuros e curando os males e as enfermidades
(10,1).

Em seguida, os discípulos se tornam apóstolos, isto é, enviados (10,2). Mateus só chama os seguidores de Jesus de apóstolos nessa passagem. A lista é encabeçada por Pedro, o “primeiro”, que serve de modelo aos outros. Depois vêm André (irmão de Pedro); os filhos de Zebedeu: Tiago e João; Filipe; Bartolomeu; Tomé; Mateus (o publicano); Tiago; Tadeu; Simão; Judas, o traidor. Então, Jesus dá recomendações ao grupo (10,5).

Eles são enviados ao antigo Israel, povo eleito na Aliança, não devem pegar o caminho dos pagãos e samaritanos e têm a missão de proclamar que o “Reino dos Céus” está próximo (Mt 4,17). Mateus prefere essa expressão a “Reino de Deus” (exceto em Mt 12,28; 19,24; 21,31.43), comum nos outros Evangelhos, por causa da sensibilidade de seus leitores oriundos do judaísmo, no qual se evitava o uso do nome de Deus (Ex 20,7; Lv 19,12; 24,16; Dt 5,11).

Essa proclamação do Reino não consiste em palavras apenas. Ela se realiza por meio da cura dos enfermos, da ressurreição dos mortos, da purificação dos então chamados leprosos e da expulsão dos demônios (10,8). O que Jesus fazia, os discípulos estavam autorizados e empoderados para fazer também.

Os atos comunicam mais do que palavras. Os discípulos receberam de graça e assim deverão distribuir, pois são portadores da presença de Deus, o Espírito Santo, que repele o mal e torna possível a comunhão do ser humano com Deus. O missionário não transmite nada de si, mas de Deus, que o inspira para aquela ação.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Nossas realidades eclesiais e o mundo no qual vivemos estão repletos de pessoas que vivem como “ovelhas sem pastor”, sem um sentido maior para a vida, sem propósitos nem objetivos. As leituras deste domingo nos propõem sair em missão para nos encontrarmos com essas “ovelhas”.

Um poema de dom Helder Camara, divulgado e recordado no âmbito das missões, inicia-se assim: “Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu. É parar de dar voltas ao redor de nós mesmos, como se fôssemos o centro do mundo e da vida…”. A partida para a missão não consiste em um deslocamento de território, mas na conversão interior, na saída de uma existência em torno de si mesmo para uma vidaoferecida, doada e significada na alteridade.

Sejamos corajosos em responder ao Senhor. Ele conta conosco! Recebemos seu Espírito Santo para agir conforme Jesus Cristo e torná-lo presente no mundo atual. Saiamos para evangelizar e, quando necessário, usemos as palavras.

Marcus Mareano*

*Pe. Marcus Mareano é bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece); bacharel e mestre
em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); doutor em Teologia Bíblica com dupla
diplomação: pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven); professor adjunto de
Teologia na PUC-MG e de disciplinas isoladas em diferentes seminários. Desde 2018, é administrador
paroquial da paróquia São João Bosco, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]