Roteiros homiléticos

1º de janeiro – SANTA MARIA, MÃE DE DEUS

Por Aíla Luzia Pinheiro Andrade

“NASCIDO DE MULHER” PARA NOS TORNAR FILHOS DE DEUS

I. INTRODUÇÃO GERAL

“Deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo” (Lc 2,21). Essa afirmação do Evangelho de Lucas harmoniza-se com a primeira leitura: “assim invocarão o meu nome… e eu os abençoarei” (Nm 6,27). Essa bênção, reservada outrora ao povo de Israel, estende-se agora a todos os povos por intermédio de Jesus, o Filho de Deus “nascido de mulher” (Gl 4,4). Em Jesus, a face de Deus (Nm 6,25-26) está voltada para o ser humano. Porque é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Jesus viveu integralmente a humanidade e a elevou à mais alta dignidade de filiação divina. Por sua encarnação, participou em tudo da condição humana, para que o ser humano participasse em tudo da condição divina por sua ressurreição.

 II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Lc 2,16-21): Foi-lhe dado o nome de Jesus

As promessas de Deus haviam sido feitas a pastores, tais como Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Davi e outros. Por isso os anjos anunciam o cumprimento dessas promessas aos pastores, nos arredores de Belém. O evangelho destaca o sinal da salvação: o recém-nascido está na manjedoura, lugar onde é posto o alimento. Jesus, desde o início, vem ao mundo como alimento, e o lugar do reconhecimento do Salvador dá-se na eucaristia, fonte e ápice da vida cristã.

Com a circuncisão, Jesus é inserido na comunidade judaica e na primeira aliança. Isso significa que Jesus não é um mito, mas participa em tudo da realidade histórica, é alguém inserido no mundo e sujeito às suas leis.

“Deram-lhe o nome de JESUS, como lhe chamara o anjo” (v. 21). É o próprio Deus, e não os seres humanos, quem dá o nome Jesus (Salvador), e com isso o evangelho assegura que todas as promessas feitas a Israel agora foram realizadas, o tempo da espera pelo Messias terminou.

 2. I leitura (Nm 6,22-27): “Porão o meu nome sobre os filhos de Israel”

O livro dos Números certifica aos sacerdotes levitas que, ao pronunciarem essa bênção, o nome de Deus estará sobre os filhos de Israel (6,27). Era nessa ocasião que os sacerdotes tinham a permissão de pronunciar o nome de Deus dentro do templo de Jerusalém. Com a destruição do templo, o nome de Deus deixou de ser pronunciado e foi substituído pelo termo “Senhor”.

“O SENHOR te abençoe e te guarde” (v. 24). “Abençoar”, na cultura de Israel, inclui almejar todo tipo de coisas boas, sejam materiais, sentimentais, sociais, espirituais. “Guardar” se refere à proteção de Deus. “Fazer resplandecer a face” (v. 25) significa lançar um olhar favorável. “Mostrar a face” (v. 26) quer dizer fixar a atenção em alguém com um propósito benevolente, em contraste com a angústia experimentada quando Deus esconde o rosto.

O último pedido, para que Deus conceda a paz (shalom), é o mais importante de todos. Em hebraico, shalom significa muito mais que a ausência de conflitos, mas inclui todo tipo de bem-estar, entre os quais a salvação.

Então, a bênção de Nm 6,22-27 nos apresenta Deus como um Pai bondoso que deseja dar tudo o que é bom ao ser humano, também a salvação, que é seu próprio Filho, Jesus.

 3. II leitura (Gl 4,4-7): O Espírito clama em nós: Abba, Pai!

Paulo utiliza uma alegoria para falar sobre nossa participação na filiação divina. Na Antiguidade, ainda que potencialmente um menino fosse o herdeiro da família, não poderia exercer a plena liberdade e autonomia de um adulto enquanto não adquirisse a idade previamente estabelecida pelo pai.

Em se tratando de um órfão, era comum o recurso a um curador (v. 2) ou tutor que representasse legalmente o menor até que este alcançasse a maioridade. Durante o período da menoridade, o herdeiro não usufruía totalmente da herança.

Na alegoria de Paulo, algo semelhante se verificou com a humanidade antes da encarnação, morte e ressurreição de Jesus. Quando se completou o tempo previamente estabelecido pelo Pai, o Filho de Deus nasceu de uma mulher (tornou-se humano) para elevar a humanidade inteira à maioridade e pleno usufruto da herança eterna que é a filiação divina.

Jesus nasceu submisso à lei para redimir os que estavam sob a lei da menoridade e assim elevá-los a uma relação superior, a adoção de filhos com plenos direitos de cidadania no Reino de Deus.

Paulo afirma que o Espírito foi enviado após o Cristo. Isso significa que a Trindade está envolvida na realização da filiação divina do ser humano. É pelo Espírito do Ressuscitado que o cristão clama Abba. No idioma aramaico, a palavra Abba significa “Pai”. Jesus usava esse termo quando se referia a Deus, e agora também nós o podemos usar porque, pelo Espírito de Cristo, somos herdeiros de todas as bênçãos recapituladas na salvação integral do ser humano.

 III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A homilia deve ter um viés cristológico e soteriológico, ou seja, a ênfase deve estar no mistério da encarnação em vista da salvação do ser humano. Uma homilia exageradamente devocional a Maria tira a liturgia de seu eixo principal. O objetivo do Filho de Deus ao tornar-se humano foi nos tornar filhos de Deus. Maria colabora nesse mistério da salvação como modelo do perfeito discípulo que penetra o mistério de maneira mais íntima, associando-se a seu Filho, servindo-o no mistério da redenção (LG 56). A filiação divina resulta na exigência de que se viva o cotidiano de acordo com a vontade do Pai, a exemplo de Maria, que obedecia a Deus mesmo quando não compreendia totalmente a vontade dele.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com.