Roteiros homiléticos

2º Domingo do Tempo Comum – 20 de janeiro

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

Se quisermos permanecer sempre da mesma maneira, será necessário optarmos por uma vida em que Deus se faça ausente. Talvez pudéssemos dizer que o “sobrenome” de Deus seja “mudança”. Onde ele se apresenta, não somente as pessoas mudam, como também suas histórias são fortemente alteradas. A experiência do êxodo é modelar. Deus se apresentou na história dos escravos mantidos em cativeiro por um faraó que não desejava mudança alguma, mudou a condição deles de escravos para livres e propôs-lhes construir uma história em que eles mesmos seriam protagonistas. Andar com Deus significa, por conseguinte, rever completamente quem somos, o que fazemos e como fazemos. A partir do momento em que experimentamos Deus, não podemos mais ser e fazer do mesmo jeito. Nele a mediocridade é anulada para que possamos ir mais além. Medíocre, nesse sentido, é a pessoa que se acomodou àquilo que é e, além disso, se acostumou com o futuro como uma extensão do que vive no presente. Transformados pela experiência de Deus, somos chamados a viver de forma diferente numa sociedade marcada pela indiferença.

II. Comentários aos textos bíblicos

  1. I leitura: Is 62,1-5

Andar com Deus exige mudança radical de vida. É impossível caminhar com ele e continuar agindo da mesma maneira. Talvez até possamos dizer que, se quisermos continuar vivendo do mesmo jeito, deveremos, na verdade, afastar-nos de Deus. Relacionamento com Deus, portanto, exige transformação. Em Isaías, a transformação vem manifestada pela mudança de nome, o que, nesse caso, significa ter novo destino. A transformação radical pela qual passará Jerusalém pode ser vista na comparação dos nomes antigos com os nomes novos: de abandonada e desolada, Jerusalém será conhecida como minha delícia e desposada. Não se trata de uma repaginação para esconder o que está errado ou, em outras palavras, esconder a sujeira embaixo do tapete. Trata-se, sim, de radical transformação.

Quando Deus se ausenta, também o projeto de vida, liberdade e justiça desejado por ele se afasta. A ausência de Deus se manifesta por meio da instalação de um projeto de violência e de morte. Por isso o profeta Isaías havia dito que a cidade fiel se transformara em prostituta, que antes era cheia de direito e nela morava a justiça, mas, após o afastamento de Deus, estava cheia de criminosos (cf. Is 1,21). Nega-se a Deus e sua presença, nesse caso, quando se vira as costas para os mais frágeis da sociedade; ou seja, nas palavras do próprio Isaías, quando não se faz justiça ao órfão, e a causa da viúva não chega até os chefes do povo (cf. Is 1,23).

  1. II leitura: 1Cor 12,4-11

A segunda leitura nos mostra que a multiplicidade deve sempre ser vista como algo salutar. Não precisamos viver sob a ditadura do que é singular e absoluto. Somos plurais em nossas relações, e o apóstolo Paulo bem sabe disso. Dessa forma, ele ensina que dons, ministérios e atividades devem ser pensados como plurais, mas sob a tutela e a unificação do Espírito. O que vale, portanto, é a unidade do corpo, a qual resulta do exercício da pluralidade. O sentido e a razão de existirem dons, ministérios e atividades estão relacionados à forma pela qual tudo chega como serviço às pessoas. Todos três devem servir à finalidade comunitária.

O olhar de Paulo, sem dúvida, está sempre voltado para o comunitário em detrimento do individual. O apóstolo poderia muito bem fazer a seguinte pergunta: como os dons e ministérios que tenho ajudam a construir minha comunidade? Carisma e serviço, à luz dessa concepção, completam-se. Tudo o que somos e temos pertence à comunidade. Deus jamais concede algo para favorecer o império do individualismo. Na verdade, Deus pensa de forma comunitária e relacional. A criatividade teológica de Paulo é chave para entender que Deus, em sua infinita sabedoria, distribuiu dons, ministérios e serviços a diferentes pessoas a fim de que elas, ao se encontrarem, completassem umas às outras. Na lógica de Paulo, se vivemos separados, sucumbimos ao isolamento. Se, ao contrário, nos aproximarmos, complementaremos o que falta a fim de que o corpo cresça em unidade.

Não podemos, contudo, deixar de perceber a crítica sutil que Paulo faz àqueles que, na comunidade de Corinto, desejavam ser os proprietários do Espírito Santo. A ambição deles promovia a divisão da comunidade; orgulhavam-se de ter determinados dons e, portanto, achavam-se superiores. A esses Paulo afirmava, de forma categórica, que quem concedia os dons e fazia agir era o Espírito de Deus.

  1. Evangelho: Jo 2,1-11

O Evangelho de João retrata uma situação de carência. Maria é a discípula das discípulas. Ela assume o discipulado como estilo de vida, e assim seus gestos, suas palavras, seus sentimentos, seu jeito de ser-viver-fazer estão direcionados para o próprio Jesus. Maria é a mãe de Jesus, mas também se apresenta como discípula dele.

Maria vive para Jesus não apenas porque ele é seu filho, mas sobretudo porque é sabedora de que ele é o Filho de Deus e o salvador do mundo. Dessa forma, a primeira das discípulas dá o tom do que vem a ser o verdadeiro discipulado: fazer a vontade de Jesus.

Muitos cristãos desejam a vida de Cristo sem o discipulado. Querem tudo quanto Jesus pode dar, desde que não haja o seguimento e o compromisso. Na verdade, amamos Jesus e tudo quanto ele fez por nós, porém nos incomodamos com aquilo que ele nos manda fazer.

A fala de Maria (cf. v. 5) revela-nos uma verdade singular: Jesus sempre se apresenta na relação conosco como Senhor e, consequentemente, deveríamos fazer tudo quanto ele nos ordenar. Às vezes temos a tendência – e, em muitos casos, a pretensão – de inverter essa situação e, dessa forma, apresentar-nos como aqueles que determinam o que Jesus pode ou não fazer em relação a nós. Não raro, observando o comportamento de muitos cristãos, tem-se a vívida impressão de que Jesus foi transformado num servo requintado que está à disposição deles.

Queremos a plenitude de Jesus em nós, mas temos dificuldade de nos dedicar completamente a ele. A espiritualidade vivida por Maria segue em direção oposta à nossa e, por isso, indica o bom caminho pelo qual devemos viver o discipulado. Para ela, o discipulado é a marca que distingue o verdadeiro do falso discípulo. Nesse sentido, a obediência e o desejo de servir se apresentam nela como elementos que a tornam discípula por excelência. Obediência e serviço estavam impregnados na maneira como Maria vivia. Eram como irmãs gêmeas que indicavam a melhor maneira de ser e fazer-se discípulo.

Maria estabelece a esperança como padrão de comportamento. Talvez seja necessário olhar a realidade com olhos marianos. Ela vê uma realidade e não se atreve a negá-la. A realidade vivida não é, porém, ainda a definitiva. Falta a ação de Jesus, que virá como o vinho melhor. Em Maria se antecipa a esperança. Através dos olhos dela, podemos ver mais além e enxergar a completude daquilo que nos falta.

III. Pistas para reflexão

– Quando perdemos a referência do comunitário, acabamos nos envolvendo no emaranhado de linhas do individualismo. E não há nada mais contrário à vida cristã do que o individualismo, que nega o encontro e a vivência em comum. Uma das mais importantes descobertas na vida cristã é justamente a percepção de que somente existimos para os outros e no encontro com todos os outros é que nos completamos. Não por outra razão, o apóstolo Paulo afirma que os cristãos individualmente formam, todos eles, o único corpo de Cristo.

– Obediência e serviço são duas das palavras mais difíceis de praticar. Ambas se apresentam como verdadeiro peso que não gostaríamos de carregar. Quão difícil é obedecer a Jesus e fazer sua vontade. É muito mais fácil reconhecer que ele é o Filho de Deus do que segui-lo como discípulo. Seria possível ser discípulo e missionário de Jesus sem obedecer à sua vontade e sem nos pôr a serviço de todos aqueles que precisam?

Luiz Alexandre Solano Rossi

Luiz Alexandre Solano Rossi é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br