Roteiros homiléticos

20 de janeiro – 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

NOVA ALIANÇA, NOVO CASAMENTO

I. INTRODUÇÃO GERAL

A partir de Oseias, as relações entre Deus e seu povo passaram a ser vistas no Primeiro Testamento como um casamento em que Deus é o esposo, e o povo, a esposa. As infidelidades da esposa não conseguem terminar com o amor do esposo.

A aliança do Sinai, constitutiva do povo do Primeiro Testamento, ganha, então, o caráter de um matrimônio. O período do deserto é o namoro e o noivado e, “no terceiro dia” (Ex 19,15-16), se realiza o casamento, a aliança.

A 1ª leitura, retomando a metáfora do casamento, sugere como devemos entender o significado do evangelho de hoje. Foi na “sua hora”, hora da morte, que Jesus realizou o novo casamento, a nova aliança não de mandamentos escritos na pedra, mas da lei do amor instaurada dentro de cada um (Jr 31,33).

A nova lei não é feita de leis pétreas que devem ser observadas cegamente e podem virar rotina ou ritualismo vazio. A nova lei é uma força interior, como um vinho que embriaga e leva à ousadia do amor. A nova lei não é manter-se dentro dos trilhos dos mandamentos e rituais, mas deixar-se guiar pelo mandamento único, o amor celebrado na eucaristia.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 62,1-15)

A terceira parte do livro de Isaías ou Terceiro Isaías (capítulos 56-66) é do período da volta do cativeiro da Babilônia. A época foi de grandes desencontros, de grandes decepções e também de grandes esperanças. No capítulo que hoje lemos, o autor dá vazão a toda a sua veia poética para falar da esperança.

A cidade, Jerusalém ou Sião, significa o povo, a nação, menos que o lugar. A volta do cativeiro é a justiça que Deus lhe faz, a vitória, o triunfo. Agora ela terá um novo nome pronunciado por Javé e, quando o Senhor o pronuncia, faz-se nova realidade, o povo sofrido torna-se uma joia nas mãos de Deus.

Jerusalém ainda estava em ruínas e sem moradores; agora, porém, é como a mulher abandonada que se casa novamente. Javé é apaixonado por ela, que já não é uma mulher sem nome, mas uma senhora. E o poema segue falando da esperança de restauração com a metáfora do casamento: Javé, o Senhor, é o esposo apaixonado e a nação, a cidade, é a esposa.

A consequência é que a nação já não vai plantar trigo para alimentar os inimigos nem cultivar uvas para estranhos tomarem o vinho. Está chegando o momento, é preciso organizar o povo e abrir os caminhos.

E, apontando para o significado do evangelho de hoje, o poema termina retomando a metáfora do casamento: “Serás chamada ‘Querida’, ‘Cidade Não Abandonada’”.

2. II leitura (1Cor 12,4-11)

As segundas leituras nos domingos do tempo comum não foram escolhidas, como as primeiras, em função dos evangelhos, mas propõem uma leitura contínua de textos de Paulo ou de outros escritos do Novo Testamento.

O capítulo 12 da primeira carta aos Coríntios, que continuará no domingo próximo, aborda a questão do movimento carismático na comunidade de Corinto. No trecho de hoje, destaca principalmente a unidade na diversidade, para o bem comum.

Corrigindo prováveis desvios dentro do movimento, Paulo lembra inicialmente o envolvimento da Santíssima Trindade na dinâmica dos dons. Quem distribui os dons é o Espírito Santo; quem organiza a comunidade, atribuindo as tarefas ou ministérios, é Jesus, o Senhor; quem faz tudo funcionar, dando forças para a ação, é o Pai.

Depois, insiste em que tudo deve convergir para o bem da comunidade e não servir para o espírito de competição e para a exaltação ou vaidade pessoal de uns ou de outros. E, para o bem da comunidade, tudo deve ser feito em ordem: se a um é dada a profecia, a outro deve ser dado o discernimento dos espíritos; se há o falar em línguas, haja o dom de interpretá-las, e assim por diante.

3. Evangelho (Jo 2,1-11)

A 1ª leitura apontou o significado maior do que vamos ouvir no evangelho. Como a água que se muda em vinho, a primeira aliança, representada pela mãe de Jesus, transforma-se em nova aliança, a dos discípulos de Jesus.

Os detalhes difíceis de explicar como históricos são indícios de que o relato tem sentido figurado. “No terceiro dia”: dois dias antes, Jesus estava onde João batizava, a mais de 150 quilômetros da Galileia. “A mãe de Jesus estava lá; Jesus, com os discípulos, é convidado”: além de chamar sua mãe de mulher, como se fosse a esposa, Jesus quer distância dela e alude à sua hora, a hora da cruz. E mais: a mãe de Jesus dá ordem aos que servem! Talhas de pedra, destinadas às abluções rituais, em número de seis, depositadas vazias numa casa particular! Os convidados (quantos?), já meio embriagados, terão mais seiscentos litros de vinho! O responsável pelo serviço da mesa chama o noivo para cobrar dele por que deixou o vinho melhor para o fim! É o princípio (não o primeiro) dos sinais (não milagres) de Jesus.

Tentar justificar historicamente cada detalhe desses seria o mesmo que se empolgar com o pacote, sem se importar com o conteúdo. Ou, ao ver uma placa na estrada, examinar o modelo das letras ou se a placa é de latão, de madeira, de alumínio… O que interessa é o conteúdo, é ver os rumos que a placa indica. O Evangelho segundo João só fala em sinais de Jesus, nunca em milagres. E nele Jesus diz: “Vocês me procuram não porque viram sinais, mas porque puderam comer e matar a fome!”.

É preciso ver os sinais, o significado das figuras, o espírito. “A carne para nada serve” (Jo 6,63). É o que vamos procurar ver agora.

“Terceiro dia” lembra o dia da aliança do Sinai (Ex 19,16). A palavra Caná, nas duas formas em que se pode escrevê-la em hebraico, significa conquistar, adquirir (frequentemente, “adquirir esposa”, casar) ou ciúme. Cananeus são os homens do comércio, e Deus é chamado também de “El Caná”, Deus ciumento.

O evangelista não fala em Maria. “Mãe de Jesus” aí não é apenas ela, mas toda a parte fiel da primeira aliança, de onde veio Jesus. Ela estava lá porque representa a esposa fiel desse primeiro casamento entre Deus e o povo. Os discípulos de Jesus nem todos são filhos desse primeiro casamento, há alguns que não são judeus; por isso, com Jesus, são convidados.

A esposa fiel da primeira aliança, a “mãe de Jesus”, será também esposa da nova aliança. Jesus é o esposo e por isso a chama de “mulher” aqui, como vai chamá-la de mulher na sua hora, na cruz. Jesus está apenas começando; é preciso manter certa distância da religião antiga, para que o caminho fique aberto para todos. Só na “hora”, na cruz, ele vai pedir que a mãe e o discípulo, os da primeira e os da segunda aliança, se acolham uns ao outros.

“Os que estão servindo” são fiéis, a mãe de Jesus pode lhes dar ordens. As seis talhas: sete é o número da plenitude; “seis” indica que está faltando alguma coisa. As talhas são de pedra, como os mandamentos da primeira aliança foram escritos na pedra. No tempo de Jesus, porém, foram transformados em ritualismo vazio, em rituais de purificação que nada purificam.

Enchendo as talhas até em cima (como encontrar 600 litros de água numa região tão ou mais seca do que o semiárido nordestino não interessa), aquela água se transforma em vinho. A primeira aliança, levada à plenitude, passa a ser nova. A água se transforma em vinho que aquece e embriaga, dá força interior e ousadia para viver a nova lei, o amor.

Os chefes atuais da religião antiga, reduzida à observância de cerimônias sem valor, não entendem, não sabem como isso pode ter acontecido; “os que servem”, os que obedecem à “mãe de Jesus”, estes, sim, sabem de onde veio aquele vinho tão bom.

Quando o chefe do serviço convoca o noivo para chamar-lhe a atenção sobre a distribuição do vinho, o evangelista só falta dizer que o noivo é Jesus e que os chefes do judaísmo de então não o entenderam, não viram que Jesus trazia o vinho melhor, a lei interior, a capacidade de amar como ele amou, único mandamento da nova aliança.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

– Nós nos perguntamos por que tantas pessoas que passam a outra religião se empolgam tanto e se tornam entusiastas de sua nova prática religiosa. E por que tantos preferem ficar sem religião? Será que o nosso vinho acabou? Será que tudo não caiu na rotina? Não se tornou ritual vazio de sentido, como as purificações dos judeus do tempo de Jesus? Será que muitos dos que deveriam estar soprando as brasas e atiçando o fogo não se tornaram simples funcionários do sagrado, cumpridores corretos de suas obrigações, para justificar o que recebem? Será proibido criar, tomar iniciativa?

– Conhecemos bem a frase de Jesus: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Criticamos os fariseus pelos seus 613 mandamentos; mas será que não fizemos dos 1.752 cânones do nosso Código uma lei mais pétrea do que a do amor ao próximo?

– Quem poderá fazer o papel da mãe de Jesus para provocar a transformação dessa água em vinho? A “hora” de Jesus já se foi. Será preciso que ele venha a morrer de novo para que seus discípulos recobrem ânimo, entusiasmo? Ou ele não continua entregando a própria vida para nos comunicar aquele “primeiro amor”? Ou nem sabemos onde, quando e como ele se entrega novamente?

Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

* Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico. Autor dos livros A Bíblia e suas contradições: Como resolvê-las e A missa: Da última ceia até hoje, ambos publicados pela Paulus. E-mail: zedadonana@gmail.com.