Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2021 - ano 62 - número 341 - pág.: 40-43

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 12 de setembro

Por Francisco Cornélio Freire Rodrigues*

Confessar o Messias com palavras e atitudes

I. INTRODUÇÃO GERAL

O centro da liturgia deste domingo é o reconhecimento da identidade de Jesus como Messias e as implicações concretas do seu seguimento. Isso é evidenciado, sobretudo, pelo Evangelho, que corresponde ao exato centro temático e literário da obra de Marcos, constituído pela confissão de Pedro e pelo primeiro anúncio da paixão por Jesus, com as exigências básicas para seu discipulado. A primeira leitura serve de preparação: a situação do servo do Senhor, descrita pelo profeta, é prefiguração de Jesus e da natureza da sua messianidade. Apesar de perseguido e humilhado, o servo mantém inabaláveis a fé e a confiança no Senhor Deus, levando sua missão ao pleno cumprimento. A segunda leitura recorda que não é suficiente confessar a fé com palavras; é necessário traduzi-la em obras, para torná-la credível. E o compromisso com as pessoas mais necessitadas é o modo mais eficaz de fazer isso. A certeza de que “o Senhor defende os humildes” atesta a relação entre as leituras e o salmo responsorial.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 50,5-9a)

A segunda parte do livro de Isaías (Is 40-55) é atribuída a um profeta-poeta anônimo que exerceu seu ministério profético na fase final do exílio na Babilônia. Entre os estudiosos, convencionou-se denominar a obra de “livro da consolação” e o autor de “Segundo Isaías”. Essa obra possui quatro seções, chamadas de “cânticos do servo do Senhor” (Is 42,1-9; 49,1-7; 50,4-11; 52,13-53,12). A primeira leitura desta liturgia faz parte do terceiro cântico e apresenta o servo como um personagem perseguido e humilhado,
mas profundamente confiante no Senhor.

O servo se apresenta totalmente disponível para cumprir em sua vida os propósitos de Deus. Ao dizer que o Senhor lhe abriu os ouvidos, expressa sua consciência de vocacionado; quer dizer que o Senhor o chamou pessoalmente e o chamado foi irresistível (v. 5). Essa convicção é essencial, tendo em vista as consequências da missão: a perseguição e a humilhação, incluindo a violência física (v. 6). Ele encara o sofrimento como consequência da missão, por isso se mantém firme, sem deixar-se abater nem desanimar, pois confia no auxílio do Senhor (v. 7). Convicto de ter Deus ao seu lado, o servo até desafia seus adversários (v. 8). Desse modo, afirma sua confiança inabalável no Senhor e ainda denuncia seus opressores, mostrando que não se combate violência com violência nem se responde ao mal com o mal (v. 9). Logo, a passividade do servo não é sinal de impotência nem de resignação; pelo contrário, significa resistência, denúncia e, acima de tudo, confiança no Senhor Deus, que está sempre do lado dos humilhados.

Sendo o servo um personagem anônimo, sua identidade é misteriosa. Alguns estudiosos afirmam tratar-se do profeta mesmo, tendo em vista que a perseguição faz parte da missão. A maioria, no entanto, vê-o como uma figura coletiva: representa o povo de Israel exilado, especificamente o resto que permaneceu fiel à Aliança, em meio à exploração e ao sofrimento. E essa é a explicação mais plausível. Os primeiros cristãos o identificaram como prefiguração de Jesus, o Messias crucificado por amor e fidelidade aos propósitos do Pai.

2. II leitura (Tg 2,14-18)

A segunda leitura continua a ser tirada da carta de Tiago, cuja contextualização foi feita no domingo passado, embora brevemente. Por isso, ainda faremos aqui algumas considerações contextuais, precisamente sobre o estilo do escrito. Do gênero epistolar, essa carta contém apenas a saudação inicial (Tg 1,1); o restante aproxima-se mais dos estilos sapiencial e profético. Trata-se de um conjunto de reflexões e conselhos práticos sobre aspectos essenciais da vida cristã que pareciam ameaçados nas comunidades destinatárias – por exemplo, sobre a importância de obras concretas que deem respaldo à fé. Por sinal, esse é o tema do trecho lido nesta liturgia, considerado o coração de toda a carta.

O autor introduz o tema com uma pergunta retórica que põe em xeque o sentido de uma fé meramente teórica, considerando-a incapaz de levar à salvação (v. 14). No desenvolvimento, ilustra seu argumento com dois exemplos bem reais: a quem não tem o que vestir nem o que comer, não basta dirigir-lhe palavras; é necessário agir concretamente em seu favor, oferecendo vestimenta e comida (v. 15-16). Isso vale também para as demais situações de necessidade. Daí se conclui que a fé sem obras é morta (v. 17). Nessa perspectiva, não há oposição entre fé e obras. Pelo contrário, há uma relação intrínseca entre as duas; ambas são inseparáveis (v. 18-19).

Com base nesse texto, alguns estudiosos chegaram a afirmar uma oposição entre o pensamento de Tiago e a doutrina paulina da justificação pela fé. No entanto, isso é um equívoco, pois as obras que Paulo contrapõe à fé correspondem à observação da Lei, ao passo que as obras que Tiago reivindica são consequência da fé e do seguimento de Jesus Cristo. Por isso, pode-se dizer que há complementaridade entre os dois, ao invés de oposição.

3. Evangelho (Mc 8,27-35)
Todo o Evangelho de Marcos gira em torno da implícita pergunta: “Quem é Jesus?”, à qual o evangelista responde com dois títulos que marcam a divisão da obra em duas partes: Jesus é o Messias – ou seja, o Cristo – e Filho de Deus (Mc 1,1). A primeira parte (1-8) tem seu ponto alto na solene confissão de Pedro: “Tu és o Messias” (8,29), enquanto a segunda (9-16) culmina na confissão do centurião aos pés da cruz: “Esse homem era Filho de Deus” (Mc 15,39). O texto deste domingo é a conclusão da primeira parte e o centro temático e literário da obra; compreende a confissão de Pedro, o primeiro anúncio da paixão e as exigências básicas para o discipulado. É um episódio presente nos três sinóticos (Mt 16,13-19; Lc 9,18-21), sendo a versão de Marcos a mais rica e original.

A cena transcorre no caminho de Cesareia de Filipe (v. 27), no extremo norte da Galileia. Cesareia era uma cidade imperial, onde se prestava culto ao imperador romano; sua população era predominantemente pagã. A confissão da messianidade de Jesus ali se torna, então, uma denúncia ao império, com todo o seu aparato de dominação. A pergunta de Jesus sobre o que dizem dele não significa preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio. Ele já tinha realizado muitos sinais e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia verdadeiramente. Muitos o acompanhavam por curiosidade, uns pela euforia, outros para tirar proveito dos sinais realizados, e poucos por convicção.

Conforme a resposta dos discípulos, o povo não tinha clareza sobre a identidade de Jesus, mas nutria grande estima pela sua pessoa, ao reconhecê-lo como profeta (v. 28). Isso, porém, não é suficiente, porque Jesus é muito maior. A pergunta sobre o que as outras pessoas diziam foi apenas um pretexto; o que ele queria mesmo saber era a opinião dos discípulos (v. 29a). E Pedro confessou: “Tu és o Messias” (v. 29b). Aqui, Pedro fala em nome do grupo. Essa é a resposta da comunidade e, apesar de solene e formalmente correta, não é satisfatória, por isso Jesus impõe o silêncio. De fato, o messias esperado pelo povo, incluindo os discípulos, era um guerreiro, restaurador do Reino de Israel, enquanto Jesus veio para instaurar o Reino de Deus, com uma mensagem de libertação para toda a humanidade.

Diante do equívoco dos discípulos, Jesus inaugura nova etapa na sua catequese, com o primeiro dos três anúncios da paixão (v. 31). Com isso, revela sua identidade de Messias “às avessas”: vai sofrer muito, será rejeitado e humilhado até a morte. Pedro não aceita um Messias assim; por isso, repreende Jesus (v. 32). Essa atitude é absurda, pois é Jesus quem tem autoridade para repreendê-lo, como o faz (v. 33). O Mestre, contudo, não o manda para longe, como diz a tradução litúrgica, mas para trás, ou seja, para a posição de discípulo. Ao chamá-lo de satanás, Jesus diz que Pedro estava agindo como seu adversário, criando obstáculos
para a realização do seu projeto de libertação.

Pedro queria evitar a cruz, enquanto Jesus afirma que a cruz é condição para seu seguimento (v. 34). Obviamente, não se trata de uma busca voluntária por sofrimento; significa a capacidade de viver por amor, a ponto de dar a vida. Por conseguinte, Jesus reforça: para segui-lo, é preciso coragem de dar a vida por sua causa e pelo Evangelho (v. 35); isso comporta o compromisso com o próximo, especialmente com as pessoas mais necessitadas. Logo, o discipulado é incompatível com o egoísmo e com qualquer pretensão de sucesso e prestígio pessoal.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Apresentar a relação entre as três leituras, enfatizando as exigências concretas que a fé e o seguimento de Jesus comportam. A pergunta de Jesus sobre sua identidade é dirigida aos cristãos de todos os tempos: é importante que haja coerência entre a resposta dada com palavras e as ações concretas do dia a dia. Recordar o compromisso com as pessoas necessitadas como componente essencial da fé cristã.

Francisco Cornélio Freire Rodrigues*

*é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia (Insaf), no Recife, e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN). E-mail: [email protected]