Roteiros homiléticos

24º Domingo do Tempo Comum – 15 de setembro

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

Intercessão e acolhimento: marcas dos discípulos de Jesus

I. Introdução geral

Numa sociedade que estimula o individualismo, as leituras desta celebração parecem não fazer sentido. A percepção de que vivemos em comunidade e de que somos chamados por Deus a viver um projeto comunitário é essencial para a vida cristã. Comunitariamente, evitamos ser inoculados pelo vírus do individualismo, que nos leva a querer sujeitar as pessoas aos nossos caprichos. Somos responsáveis uns pelos outros e, mais do que isso, a responsabilidade pelo outro nos faz seres éticos. Assim, é muito possível dizer que o caminho do discipulado faz que também nos convertamos ao outro. No projeto de Deus, a vitória não é um projeto pessoal que se conquista sozinho; antes, ela é sempre comunitária e, nesse caso, a festa é para todos.

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura (Ex 32,7-11.13-14): a intercessão que salva

A ação da primeira leitura se desenrola em cima do monte, no mesmo lugar onde Deus havia dado a Moisés as tábuas da Lei. Deus começa atribuindo a Moisés todo o mérito pela libertação do povo do cativeiro no Egito e reconhece Israel como povo de Moisés. Este, porém, não aceita pacificamente tal interpretação dos fatos e insiste que foi Deus quem tirou o povo do Egito e que o povo é de Deus. Um lança sobre o outro a responsabilidade, mas sabemos que ambos estão certos. Por conta disso, é possível perceber que a solidariedade entre Deus e Moisés precisa transcender as debilidades do povo. A intercessão de seu líder salva Israel da destruição de Deus. Diante do erro presente do povo, que presta culto a outros deuses e, assim, desvia-se do projeto da aliança, Moisés faz uso de duplo argumento, que requer de Deus o uso de sua memória. No primeiro argumento, faz referência aos atos libertadores de Deus quando da libertação do Egito – “com grande poder e mão forte” – e, no segundo argumento, faz a memória de Deus recuar mais ainda, até a aliança realizada com Abraão, Isaac e Jacó. É justamente o recurso à memória salvífica do passado que produz o arrependimento no presente.

É preciso fazer uma ressalva: na Bíblia, a mudança não é compreendida como imperfeição quando se dá em função do amor pelo outro. À luz da concepção de que toda mudança na divindade seria considerada imperfeição, a teologia evitou entender literalmente esse texto. No entanto, é preciso salientar que, na Bíblia, a maior perfeição de Deus é seu amor. Assim, o arrependimento de Deus tem como motivação sua lealdade para com os patriarcas e seu amor para com Israel. Por isso, Moisés chama a atenção de Deus para o que mais caracteriza sua natureza, a saber, seu amoroso compromisso com a humanidade. Por outro lado, é necessário refletir sobre o que teria levado Moisés a interceder pelo povo. Uma possível resposta se encontra nas palavras de Deus: “De você, eu farei uma grande nação” (v. 10b). Moisés parece não aceitar a possibilidade de se pensar sem seu povo – aquele povo. A percepção dele é comunitária. Como poderia sobreviver e os demais perecer? Dessa forma, ele assume a comunidade como projeto de vida, mesmo que o comportamento dessa comunidade não seja o mais adequado. Assume os riscos de viver em comunidade e não a abandona em nenhum momento. Não deseja privilégios pessoais e, por isso, não se pensa fora da comunidade.

2. II leitura (1Tm 1,12-17): o papel da graça na construção do novo ser

O apóstolo Paulo faz uma oração de ação de graças, motivado pela ação salvadora de Cristo em sua conversão e abrupta mudança – de pecador e perseguidor em vocacionado dedicado ao ministério –, mostrando, portanto, a eficácia da graça que o transformou por inteiro. Nesse sentido, ele é mostrado no texto como uma espécie de protótipo do pecador salvo pela graça de Deus. O apóstolo é totalmente outro por causa da graça que agiu de forma eficaz nele. Destaca-se o poder da salvação manifestada e realizada em Cristo por pura misericórdia divina. Paulo se apresenta como exemplo de conversão. Nele não havia bem algum. Sua vida era caracterizada pela blasfêmia, perseguição e insolência. Via sua vida como completamente destituída de sentido e finalidade. Contudo, mesmo se considerando totalmente inadequado, a misericórdia de Deus o alcançou plenamente e o fez novo homem. Nascia ali, em meio à abundância de misericórdia, nova e eficaz vocação. É precisamente o contato com a graça de Deus que promove a maior e a mais inesperada das transformações no ser humano. Uma graça que nos torna dignos e nos põe a serviço do próprio Salvador.

3. Evangelho (Lc 15,1-32): acolher os que se encontram perdidos

Parece que o murmúrio dos fariseus e doutores da Lei não passou despercebido dos ouvidos de Jesus: “Este homem recebe pecadores e come com eles” (v. 2). O Mestre faz questão de confirmar aos murmuradores que o local privilegiado de convívio de Deus é, justa e prioritariamente, entre as pessoas consideradas não recomendáveis. E para que o processo pedagógico e catequético de Jesus seja bem compreendido, ele conta três preciosas parábolas.

A parábola da ovelha perdida chama a atenção por causa da absurda atitude do pastor, que privilegia a lógica do cuidado e contraria a lógica do acúmulo, tão presente já naqueles dias. O pastor era responsável pessoalmente pelas ovelhas. Não havia pastor que não sentisse que seu trabalho de cada dia era dar a vida por seu rebanho. E, certamente, Deus conhece a alegria de encontrar coisas que se perderam.

Já a parábola da mulher e da moeda perdida ressalta a alegria compartilhada comunitariamente pelo encontro da moeda. A sobrevivência estaria assegurada e a alegria restaurada. Por mais insignificante que a moeda parecesse ser – representava um pouco mais de um dia de trabalho –, os trabalhadores da época viviam sempre apertados e pouco faltava para que passassem fome. A intensidade da busca da moeda se relaciona, portanto, com a possibilidade de continuar se alimentando.

Na terceira parábola – a do pai e seus dois filhos –, vemos um pai que expressa intensamente a alegria por ver seu filho, que se encontrava perdido, retornar para casa. Mais uma vez, Jesus enfatiza a necessidade de acolher e incluir no movimento as pessoas consideradas indignas. Acolhimento, nesse sentido, traduz muito bem a palavra solidariedade. São dois filhos que representam diferentes percepções de projeto de vida. O mais novo, imerso na própria miséria, vai ao encontro do pai, manifestando o movimento não só geográfico, mas também teológico, das pessoas marginalizadas e sobrantes da sociedade em direção à prática de vida e do projeto de Jesus. Por sua vez, o filho mais velho representa os próprios líderes murmuradores, que, enrijecidos, dogmatizados e apegados aos próprios conceitos de justiça e retidão, acabaram por perder a sensibilidade a todos aqueles que, diferentemente deles, viviam rodeados pela miséria e pela carência. A atitude desses líderes demonstra que seus anos de obediência ao Pai foram de irritante dever, e não de amoroso serviço. Além disso, assumem uma atitude de marcante antipatia – afinal, o mais velho se refere ao outro não como “meu irmão”, mas como “seu filho”.

III. Pistas para reflexão

1) Moisés pensa a si mesmo de forma comunitária. Não se vê e não se percebe como alguém que possui um projeto pes-
soal, afastado do próprio povo, ou seja, de sua comunidade. Ele intercede pela sua comunidade. Que prioridade tem sua comunidade em sua vida de oração?

2) A conversão muda a pessoa por completo. Altera caminhos, vida e valores. A mudança é tão radical que a pessoa até mesmo passa a estar apta para o trabalho no Reino de Deus. Quais são os sinais da conversão em sua vida e como eles se refletem em sua comunidade?

3) A mensagem de Jesus sempre foi de acolhimento. Ele jamais excluía ninguém ou deixava de ir ao encontro. Jesus não via, em primeiro lugar, o pecado das pessoas. Via, sim, seu sofrimento e, ato contínuo, aproximava-se delas para anunciar a Boa-Nova. A que distância estamos uns dos outros?

Luiz Alexandre Solano Rossi

Luiz Alexandre Solano Rossi é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre.