Roteiros homiléticos

25 de agosto – 21º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Johan Konings, sj

VOCAÇÃO UNIVERSAL À SALVAÇÃO

I. INTRODUÇÃO GERAL
São poucos os que vão ser salvos? Muitos cristãos vivem com essa pergunta angustiante, inculcada às vezes por pregadores insensatos.
Segundo Jesus, no evangelho, a salvação é para todos, vindos de todos os lados, dos quatro ventos, de perto e de longe. Só não é para os que se fecham na sua autossuficiência e nos seus presumidos privilégios. A primeira leitura lembra que Deus não apenas quis salvar o povo de Israel do exílio babilônico, como também o encarregou de abrir o Templo e a aliança a todas as nações. Quando Deus concede um privilégio, como foi a salvação de Israel do cativeiro babilônico, esse privilégio se torna responsabilidade para com os outros. Deus rejeita a autossuficiência.
Na reflexão/homilia, pode-se aprofundar o tema do chamamento universal combinado com a exigência de resposta generosa. “Deus não fechou o número, a nós cabe nos incluir nele” poderia ser um lema para inculcar no ouvido e no coração do povo celebrante.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 66,18-21)
O fim da profecia de Isaías evoca a revelação universal da glória de Deus: uma “utopia”. Olhar para o futuro, como faz o profeta pós-exílico de Is 66, não é necessariamente fuga da realidade presente; pode também ser um passo ao encontro da realidade messiânica que vem de Deus. Trata-se do futuro criado por Deus! Ele envia mensageiros a todos os povos, até os mais distantes, os que nunca ouviram falar dele! Então farão subir a Sião esses povos e suas riquezas para santificarem o Senhor no Templo – alguns até como sacerdotes! O profeta vê Israel como o lugar da manifestação dos grandes feitos de Deus. De fato, a própria pessoa de Jesus, o judeu, será desse lugar.

2. Evangelho (Lc 13,22-30)
O evangelho de hoje deve ser entendido à luz da fé na salvação universal: a todos deve ser apresentado o convite do Reino. Algumas pessoas, preocupadas, perguntam a Jesus se são poucos os “eleitos” que vão participar do reino de Deus. Jesus não responde, mas evoca três imagens.
As duas primeiras imagens que Jesus evoca são “restritivas”: 1) a porta é estreita, mas a vocação, universal; porém é preciso esforçar-se (13,23-24; cf. 16,16); 2) em determinado momento a porta será fechada, e então será tarde para chorar por entrar (13,25-27). À preocupação apocalíptica de saber o número dos eleitos e as chances de entrar, Jesus responde: o número dos eleitos não importa; importa a conversão, esforçar-se para entrar e não ficar gracejando, exibindo um ar de interessado, sem nada empreender. Pois vem o momento em que o dono da casa se levanta e fecha a porta; então, não reconhecerá os que estiveram com ele nas praças só “de corpo presente”, sem dar audiência à sua palavra. Ora, a festa em si, ela está aberta a todos os que quiserem esforçar-se. Mas Jesus dirige uma crítica àqueles em cujas praças ele ensinou (13,26): deixaram-no falar, mas não obedeceram a seu apelo de conversão, talvez por estarem seguros de pertencer ao número dos eleitos. Eles são os primeiros que se tornam últimos, enquanto os últimos – os desprezíveis pagãos –, quando se convertem, se tornam os primeiros, para sentar com Abraão, Isaac e Jacó (que provocação para os judeus!) na mesa do banquete escatológico, vindos de todos os cantos do mundo.
Aparece aqui a terceira imagem: o banquete dos povos. Apesar da exclusão dos “primeiros”, que recusaram o convite, Deus realizará o banquete escatológico para todos os povos, incluindo os gentios (os “últimos”) (13,28-30). Portanto, Deus não é mesquinho, não prepara a festa para um número restrito, mas para todos. Espera, porém, o empenho da fé, vivida na caridade, como resposta à palavra da pregação: qualquer um que responder a essa exigência poderá participar. Para compreender melhor essa combinação entre o chamado universal e a exigência de disposição e empenho pessoal, pode-se ver a parábola do banquete universal segundo Mateus, seguida da parábola do traje de festa que se exige para participar (Mt 22,1-14).
Essa mensagem não perdeu sua atualidade. O que Jesus recusa é o calculismo e a falsa segurança a respeito da eleição. Esta não responde a nenhum critério humano. É a graça de Deus que nos chama à sua presença. Diante desse chamado, todos, seja quem for, devem converter-se, pois ninguém é digno da santidade de Deus nem de seu grande amor. Ninguém se pode considerar dispensado de lhe prestar ouvido e de transformar sua vida conforme a exigência de sua palavra. Não existe um número determinado de eleitos (é bom repeti-lo, em vista de certas seitas por aqui). O que existe é um chamado universal e permanente à conversão. E esse chamado vale também para os que já vêm rotulados de bons cristãos. Pois a fé nunca é conquistada para sempre. É como o maná do deserto: se a gente o quer guardar até a manhã seguinte, apodrece (cf. Ex 16,20)! Quem não retoma diariamente o trabalho de responder à Palavra com autêntica conversão gritará em vão: “Senhor, participei de retiros e assisti a pregações, palestras e cursos em teu nome (e também comi e bebi nas tuas festinhas paroquiais)”. E também hoje os últimos poderão ser os primeiros: os que não vão à igreja porque não têm roupa decente, porque devem trabalhar, porque têm filhos demais ou, simplesmente, porque se sentem estranhos entre tanta gente de bem… Para chamá-los é que Jesus não ficou nos grandes centros, mas entrou nos bairros e vilarejos.

3. II leitura (Hb 12,5-7.11-13)
A segunda leitura apresenta um tema delicado: o sofrimento como pedagogia de Deus. Nossa atual condição humana é precária, “frágil” (Hb 5,15). O Filho de Deus participa dessa fragilidade, para nos ajudar. Ele conheceu tentação, sofrimento e morte: “aprendeu a obediência” (5,8). Do mesmo modo, os fiéis devem passar pela “escola” de Deus: assim chegarão à justiça, à retidão, à salvação. Deus nos educa para a vida (12,9-10).
Esse texto entra em choque com a mentalidade “esclarecida”. O texto diz que Deus “castiga” para nos educar: “Pois o Senhor educa a quem ele ama e castiga todo que acolhe como filho” (Hb 12,6; cf. Pr 3,11-12). Achamos horrível: Deus castiga, faz sofrer? Não. Educa-nos, como um bom pai educa seu filho, corrigindo-o. Essa é a resposta dos antigos para o escândalo do sofrimento, e do nosso povo simples também. Será que eles se enganam? Enquanto os eternos disputadores acusam Deus por permitir o sofrimento, os simples veem no sofrimento uma escola de vida. O importante não é de onde vem o sofrimento, a não ser que seja consequência da maldade. Importante é saber o que fazer com ele! Que o sofrimento existe é inegável. Muitas vezes, é causado pelos homens, mas nem sempre. A quem sofre importa menos explicar as causas do que dar um sentido ao sofrer. O sofrimento pode ter o valor de educação para uma vida que agrade a Deus, já que este, em Cristo, também o encarou. Não é errada tal valorização do sofrimento, já que não se consegue escapar dele, nem mesmo no admirável mundo novo da era tecnológica. Como cristãos, devemos aprender a viver uma vida nova, diferente da vigente. Isso não é possível sem sofrer. Porém, esse sofrimento não deprime, não torna fatalista, mas faz crescer a força para produzir frutos de paz e justiça: “Levantai, pois, as mãos fatigadas e os joelhos trêmulos; dirigi vossos passos pelo caminho reto!” (Hb 12,12).
(Um texto das cartas mais próximo das outras leituras seria 1Pd 2,9-10: somos chamados das trevas à luz.)

III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Cristianismo instalado ou aberto? A vocação à salvação é universal, mas nem por isso todos os que a ouvem estão salvos. Existem muitos cristãos acomodados e seguros que fazem formalmente todo o prescrito, porém não assumem com o coração o que Jesus deseja que façam, sobretudo o incansável amor ao próximo. Eles ficarão de fora se não se converterem, enquanto outros, considerados pagãos, vão encontrar lugar no Reino. Os que só servem a Deus com os lábios e não com o coração e de verdade, o Senhor não os conhecerá!
Na América Latina, hoje, os que sempre foram os “donos” da Igreja estão se enterrando no materialismo, e os pobres – marginalizados da vida eclesial ou relegados a uma posição inferior – estão entrando nas comunidades e ocupando o lugar dos antigos donos. Apesar das tentativas de voltar ao “tradicional”, tanto o povo simples como a juventude pós-moderna estão dando outro aspecto a igrejas e capelas. Esvazia-se o comportamento chamado tradicional – porém alheio à verdadeira Tradição –, enquanto se abre espaço para um novo modo de ser cristão, mais jovem e mais simples, mais participativo e menos fechado, mais fiel, também, à primeira tradição cristã.
Contudo, essa chegada de um novo tipo de cristãos, muitas vezes “vindos de longe”, não significa que o ser cristão esteja ficando mais fácil. Pelo contrário, exige desinstalação. Exige busca permanente do que é realmente ser cristão: não apegar-se a fórmulas farisaicas, mas entregar-se a uma vida de doação e de amor, que sempre nos desinstala.
Então a questão não é se poucos ou muitos vão ser salvos. A questão é se estamos dispostos a entrar pela “porta estreita” da desinstalação e do compromisso com os que sempre foram relegados. A questão é se abrimos amplamente a porta de nosso coração, para que a porta estreita se torne ampla para nós também. Deus não fechou o número. A nós cabe nos incluir nele…

Pe. Johan Konings, sj

Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É doutor em Teologia e licenciado em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de Leuven (Lovaina). Atualmente é professor de Exegese Bíblica na Faje, em Belo Horizonte. Entre outras obras, publicou: Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A - B - C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje.
E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br