Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2021 - ano 62 - número 341 - pág.: 43-46

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 19 de setembro

Por Francisco Cornélio Freire Rodrigues*

O primado do serviço no seguimento de Jesus

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia da Palavra deste domingo é marcada pela contraposição entre duas maneiras de conceber e conduzir a existência humana. A primeira leitura, tirada do livro da Sabedoria, expõe a oposição entre a maneira de viver e pensar dos ímpios e a dos justos, funcionando como preparação ao Evangelho, uma vez que a perseguição ao justo é vista como prefiguração da paixão de Jesus, o Justo por excelência. A segunda leitura chama a atenção para o contraste entre a sabedoria terrena e a sabedoria do alto, evidenciando as consequências práticas de cada uma no dia a dia da comunidade cristã. No Evangelho, Jesus faz o segundo anúncio da paixão e, em seguida, propõe o serviço e a humildade como condições para seu discipulado, contrapondo-se à mentalidade ambiciosa e triunfalista dos discípulos. O salmo confirma a unidade entre as três leituras e reforça a certeza de que o Senhor permanece do lado dos justos e humildes, mostrando que vale a pena confiar nele e viver segundo sua justiça.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 2,12.17-20)

O livro da Sabedoria, do qual é tirada a primeira leitura, é obra de um sábio judeu, exímio conhecedor da cultura grega e das tradições judaicas, que viveu na cidade de Alexandria do Egito. Foi o último livro do Antigo Testamento a ser escrito, já no final do século I a.C., quando a cultura grega exercia grande influência sobre as novas gerações de judeus. Com isso, os valores e tradições de Israel, como a fé monoteísta, estavam ameaçados, havendo até perseguição contra quem permanecia fiel. O livro foi escrito, portanto, para reforçar a fé e encorajar os judeus que se sentiam perseguidos por causa da fidelidade a Deus. Para garantir prestígio e autoridade à obra, a autoria foi atribuída a Salomão, expoente máximo da sabedoria de Israel, mediante o fenômeno literário da pseudonímia.

O texto lido nesta liturgia pertence à primeira parte do livro (Sb 1-5), precisamente à seção conhecida como discurso dos ímpios ou injustos (Sb 2,1-20). Nesse discurso, o autor reproduz a mentalidade dos que se opõem à maneira de viver dos justos. Os ímpios ou injustos são os pagãos adeptos de escolas filosóficas materialistas, os governantes corrompidos que, sentindo-se superiores, menosprezavam a fé monoteísta e os judeus que, atraídos pela cultura grega, tinham abandonado a fé. Os justos, por sua vez, são os judeus fiéis que vivem de modo coerente com a fé em Deus, observando os mandamentos.

A maneira de viver da pessoa justa revela a incoerência de vida dos injustos, tornando-se verdadeira denúncia (v. 12). Isso porque a genuína fé no Deus de Israel é, acima de tudo, testemunhal, e não mera abstração teórica. Logo, os justos incomodam porque vivem em conformidade com a vontade de Deus, como filhos, não compactuando com nenhum tipo de injustiça, ganância, corrupção e violência. As características da pessoa justa – confiança em Deus, mansidão, paciência e humildade – são insuportáveis para os injustos. Como consequência, vem a perseguição com humilhações, ofensas e tortura até a morte (v. 17-20).

A figura do justo perseguido prefigura a paixão de Jesus e serve de advertência aos cristãos e cristãs de todos os tempos: o jeito de viver dos filhos e filhas de Deus é sinônimo de contestação a todos os sistemas injustos que excluem e matam. E isso gera perseguição, em vez de prestígio e poder.

2. II leitura (Tg 3,16-4,3)

A segunda leitura ainda é tirada da carta de Tiago. Embora agrupado entre as cartas católicas, esse livro quase não possui características epistolares, aproximando-se mais do estilo dos escritos sapienciais e proféticos. O trecho lido neste domingo é tipicamente sapiencial; nele o autor contrapõe os frutos da sabedoria terrena àqueles da sabedoria do alto. A expressão “sabedoria terrena” não aparece no texto, mas no versículo que o antecede (3,15); já “sabedoria do alto” aparece explicitamente (3,17), o que deixa clara a oposição entre as duas. Para cada uma delas compreende-se um projeto de vida, quer dizer, uma forma de conduzir a existência.

O primeiro sinal da ausência da sabedoria do alto é a presença de inveja e rivalidade, das quais decorrem tantas outras desordens e males (3,16), como guerras, brigas e divisões (4,1). Esses são os frutos da sabedoria terrena. São coisas inadmissíveis na comunidade cristã; se encontradas, precisam ser eliminadas. Já a sabedoria do alto se caracteriza por sete qualidades ou virtudes (3,17), o que evoca perfeição e equilíbrio; quem vive dessa maneira é uma pessoa realizada e coerente com a vontade de Deus, tornando-se promotora da justiça e da paz (3,18).

A insistência sobre os frutos da sabedoria terrena denuncia o quanto ela estava enraizada nas comunidades destinatárias, comprometendo a relação com Deus e, por consequência, tornando ineficaz a oração (4,1-3). A verdadeira oração é comunhão com Deus e conformação à sua vontade. Quem não vive essa comunhão, obviamente, não sabe pedir, pois não conhece sua vontade.

3. Evangelho (Mc 9,30-37)

Conforme a divisão clássica da obra de Marcos (1ª parte: cap. 1-8; 2ª parte: cap. 9-16), o Evangelho desta liturgia já pertence à segunda parte, marcada pelo aprofundamento da catequese de Jesus sobre sua identidade de Filho de Deus e as exigências que seu seguimento comporta. É um texto também dividido em duas partes, delimitadas pela dimensão espacial: a primeira (v. 30-32) transcorre no caminho, enquanto o cenário da segunda é a casa (v. 33-37). Na perspectiva de Marcos, caminho e casa são os lugares privilegiados da experiência cristã. O caminho significa instabilidade, dinamismo, denotando a natureza missionária da Igreja e a necessidade de estar sempre em saída. A casa significa a necessidade das relações fraternas e sinceras que devem marcar a vida da comunidade; é o lugar da acolhida, da compreensão e da vivência do amor.

A incompreensão de Pedro após o primeiro anúncio da paixão (Mc 8,31-35) foi um alerta para Jesus: os discípulos ainda não tinham compreendido quase nada da sua identidade e do seu projeto, o Reino de Deus. Logo, era necessário estar sozinho com eles, isolados das multidões, para reforçar o ensinamento (v. 30). É nesse contexto que Jesus faz o segundo dos três anúncios da paixão (v. 31). Os discípulos não aceitavam um Messias sofredor, porque esperavam um que fosse poderoso e guerreiro. A repetição de um ensinamento é sinal da sua importância e, ao mesmo tempo, da dificuldade de compreensão dos destinatários, como se verificava nos discípulos (v. 32). Eles não compreendiam nem tinham coragem de perguntar, preferindo, covardemente, conversar entre si sobre as próprias aspirações. Jesus, todavia, conhecia-os bem e sabia o que pensavam. Por isso, ao chegar a casa, perguntou-lhes – apenas por protocolo e como forma de denúncia irônica – o que tinham discutido (v. 33). A discussão sobre quem é o maior revela ambição e sede de poder, alimenta rivalidades, coisas incompatíveis com a lógica igualitária do Reino de Deus. O próprio silêncio deles diante de Jesus denuncia a incoerência (v. 34).

Para contornar a situação, Jesus senta e chama os doze para perto de si (v. 35a), gestos que recordam sua condição de Mestre, o único que poderia reivindicar grandeza naquele grupo. Com isso, convida os discípulos a renovar a vocação originária, corrompida pelas pretensões de poder e ambição que estavam alimentando. Assim, ele mostra um caminho oposto, ensinando que só há um modo de ser o primeiro na comunidade: fazendo-se o último, sendo o servidor de todos (v. 35b). Jesus deixa claro, portanto, que o serviço é o primeiro sinal distintivo do seu discipulado. Trata-se de um serviço motivado pelo amor, desinteressado e universal.

Com o gesto de pegar a criança, abraçá-la e colocá-la no meio (v. 36-37), Jesus recorda que as pessoas mais vulneráveis e necessitadas devem ser as primeiras destinatárias da atenção e dos cuidados dos seus discípulos servidores. Na época, a criança era sinônimo de incapacidade e inutilidade, tanto na cultura semita quanto na greco-romana. Jesus, no entanto, vê com outros olhos: a criança é sinal de pequenez, imagem de todas as pessoas necessitadas, mas também simboliza a capacidade de aprendizagem, tão necessária para o discipulado. Com esse exemplo concreto, ele aponta para os discípulos de todos os tempos quem tem prioridade no Reino de Deus: todas as pessoas vulneráveis e marginalizadas, representadas pela criança. Acolher essas pessoas é acolher a ele mesmo e ao Pai, que o enviou.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Relacionar as três leituras, mostrando a coerência temática entre elas. Recordar a incoerência entre o seguimento de Jesus e as rivalidades muitas vezes alimentadas na própria comunidade, comprometendo o anúncio e a eficácia dos serviços pastorais. Questionar a maneira de acolher as crianças e as demais pessoas vulneráveis na comunidade. Continuar a motivar a vivência do Mês da Bíblia.

Francisco Cornélio Freire Rodrigues*

*é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia (Insaf), no Recife, e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN). E-mail: [email protected]