Roteiros homiléticos

27 de janeiro – 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

HOJE SE CUMPRE A PALAVRA

I. INTRODUÇÃO GERAL

A homilia de Jesus na sinagoga de Nazaré, primeiro ato da sua “vida pública” no Evangelho segundo Lucas, está resumida em três palavras: “Hoje a Palavra se realiza”. A Bíblia não é um museu nem um repertório de antiguidades. Ela fala hoje e deve realizar-se hoje.

Na leitura pública da lei de Deus após a volta do exílio, o povo fica atento desde a manhã até o meio-dia; por fim, todos se põem a chorar, pois entenderam que o que foi lido falava de sua vida, de sua história e do momento que viviam.

A Bíblia é escrita não para dar informações frias e objetivas ou para deixar documentos para museu ou para arqueólogos, e sim para formar segundo a justiça (2Tm 3,16). Seu objetivo não é satisfazer a curiosidade dos historiadores, mas reforçar a fé e a prática dos discípulos. Existe para hoje, não para o passado. É como a eucaristia, que faz memória, se realiza e provoca.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ne 8,2-4a.5-6.8-10)

O texto narra uma leitura pública da lei de Deus. O povo voltou do cativeiro e a vida recomeça na terra de Judá. Novo começo exige renovação da aliança e, portanto, uma leitura solene e oficial da lei do Senhor.

O povo todo se reúne como uma só pessoa. Mesmo os que não tinham sido levados para o exílio ou seus filhos, todos se consideram repatriados, em busca de – à luz da palavra de Deus – retomar a vida na terra que Deus lhes dera.

O leitor é o sacerdote e escriba Esdras. A experiência do exílio, longe do templo, então destruído, fez que a palavra de Deus se tornasse mais importante do que o culto. A leitura é solene e há tradução ou explicação para todos os que falavam o aramaico e já não entendiam tão bem o hebraico.

Ao final, o povo chora. O que foi lido falou de sua vida, dos últimos acontecimentos, de seus erros, de seus sofrimentos e das novas esperanças que agora eles viviam; tudo estava ali nos textos bíblicos que acabavam de ouvir. Por isso, choraram. Entretanto, voltam para casa felizes e reanimados, pois agora têm a luz da palavra de Deus para iluminar suas vidas.

2. II leitura (1Cor 12,12-30)

Continuamos lendo o capítulo 12 da primeira carta aos Coríntios. Paulo já havia insistido em que as diferenças de dons, ministérios e atividades não significam desigualdade, porque tudo deve colaborar para o bem comum.

Talvez alguns ainda não entendam bem o que isso significa e se prendam mais às diferenças, o que leva ao espírito de competição. Paulo usa, então, a comparação do corpo.

Não há ciúme nem espírito de competição entre os diferentes órgãos e membros do nosso corpo. Assim também invejas, ciúmes, vaidades e espírito de competição nunca podem fazer parte da vida cristã.

3. Evangelho (Lc 1,1-4; 4,14-21)

A terceira leitura de hoje une dois trechos do Evangelho segundo Lucas: a introdução, onde ele conta como escreveu o evangelho; depois a leitura da Bíblia em Nazaré e a homilia de Jesus, que declara o objetivo de sua missão.

A Pontifícia Comissão Bíblica publicou, em abril de 1993, um documento sobre a interpretação da Bíblia na Igreja católica. Ali se diz que um dos maiores erros da leitura fundamentalista ou literal da Bíblia é confundir, no caso dos evangelhos, a última etapa – ou seja, os evangelhos como os temos hoje – com a primeira etapa, os fatos e palavras de Jesus que deram origem aos evangelhos. É o grande erro achar que os evangelhos contam tudo exatamente como aconteceu.

Na introdução ao Evangelho segundo Lucas, podemos encontrar estas quatro etapas da formação dos evangelhos: 1. Os acontecimentos; 2. As pregações dos apóstolos e discípulos de Jesus; 3. Vários escritos menores; 4. Os evangelhos atuais, como estão na Bíblia. Podemos observar: “Muitos tentaram escrever (3ª etapa) a história dos fatos (1ª etapa) assim como nos transmitiram (…) testemunhas oculares (…) ministros da Palavra (…) (2ª etapa) decidi também eu redigir (…) um relato ordenado” (4ª etapa).

O objetivo do evangelho é “para que conheças a solidez do ensinamento que recebeste”. É dar firmeza à fé do Teófilo, quer dizer, do amigo de Deus que cada um de nós pretende ser.

O segundo trecho descreve uma leitura pública da Escritura que, num sábado, Jesus faz durante a celebração da Palavra na comunidade de Nazaré, sua terra. Jesus lê e explica: “Essa passagem da Escritura se realiza hoje, aqui!”. A reação é de espanto e, depois, de indignação. As pessoas começam se perguntando se ele não é o conhecido “filho de José” e terminam querendo jogá-lo no precipício. Mas, “passando pelo meio deles, ele seguiu seu caminho”.

Qual é a palavra da Escritura que Jesus aplica a si mesmo? É o programa de seu ano missionário segundo Lucas. O evangelista une duas passagens de Isaías: uma do capítulo 61,1-2 (“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção para anunciar a boa-nova aos pobres, enviou-me para anunciar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista”) e outra do capítulo 58,6 (“para dar liberdade aos oprimidos”), voltando por fim a 61,2 (“e proclamar o ano de graça da parte do Senhor”).

Certa vez alguém me perguntou: “Por que a Bíblia fala tanto em ‘evangelizar os pobres’ e não os ricos, que parecem estar mais distantes de Deus e da fé?”. A missão de Jesus, resumida nessa citação de Isaías, é exatamente evangelizar, ou seja, levar a boa notícia (é o que significa a palavra evangelizar) aos pobres, proclamar o ano da graça ou do agrado de Deus, o jubileu. Nesse ano, segundo Levítico 25,10, quem está preso por causa de dívida recupera a liberdade; quem devia tem suas dívidas perdoadas; quem perdeu suas terras, seu meio de vida, volta para a antiga propriedade. Isso não é boa notícia para os pobres? Para os ricos talvez não seja tão boa… Mas é a missão de Jesus.

É o programa de Jesus no Evangelho segundo Lucas: “Hoje essa palavra se realiza”. A preocupação com os pobres percorre todo o Evangelho de Lucas. Jesus não nasce num berço de ouro; seu berço é o cocho de um estábulo. Seu nascimento é anunciado aos pastores, gente pobre e temida, como os ciganos e os sem-terra de hoje. “Hoje nasceu para vós um salvador”: salvador dos pobres, ele será reconhecido na pobreza do berço. As viúvas pobres estão presentes nesse evangelho bem mais do que nos outros. As parábolas próprias de Lucas falam do homem sem nome, roubado e caído à beira do caminho; falam dos pobres forçados a entrar para a festa do rei; falam do pobre Lázaro caído à porta do banquete diário do rico e do abismo que os separa aqui e na eternidade.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

– As comunidades que nos deram esse evangelho eram, em sua maioria, pobres, mas preocupadas com outras mais pobres. Quando se resolveu o problema com as comunidades da Judeia, ficou combinado que os cristãos gentios não se esqueceriam dos judeus pobres (Gl 2,10). As comunidades da Macedônia (Filipos, Tessalônica), apesar de sua profunda pobreza, participaram de uma campanha em favor deles (2Cor 8,1-2). Vinte anos depois de Jesus, em Corinto, a grande maioria era de pobres, sem nome e sem estudo (1Cor 1,26), mas a minoria rica os humilhava até na celebração da Ceia do Senhor (1Cor 11,17-34).

– Quando as autoridades da Igreja pareciam ter se esquecido dos pobres e da pobreza, permitindo que o poder e a riqueza a governassem, são Francisco inventou o presépio, para lembrar o nascimento de Jesus segundo Lucas. Hoje, aqui, ainda há lugar para o presépio e sua mensagem? Ou não é preciso falar mais nisso, não é oportuno? Seria proibido?

– Ao fim do Concílio Vaticano II falava-se muito em “Igreja pobre e servidora”, depois em “opção preferencial pelos pobres”; hoje talvez o pobre tenha escapado do vocabulário.

– Ainda há ricos que, todos os dias, dão esplêndidos banquetes, para os quais convidam os líderes da Igreja? Os pobres Lázaros, enquanto isso, continuam esperando migalhas. Eles só encontram solidariedade nos cães – que se alimentam de seu sangue e, com a saliva, lhes aliviam a dor e curam as feridas.

– Despertar nas pessoas a consciência e a atuação sobre tal realidade era a missão de Jesus. A nossa deve ser a mesma…

Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

* Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico. Autor dos livros A Bíblia e suas contradições: Como resolvê-las e A missa: Da última ceia até hoje, ambos publicados pela Paulus. E-mail: zedadonana@gmail.com.