Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2023 - ano 64 - número 351 - pp.: 44-48

28 de maio – Pentecostes

Por Marcus Mareano*

Proclamar as maravilhas de Deus

I. INTRODUÇÃO GERAL

A solenidade de Pentecostes é celebrada no quinquagésimo dia após a Páscoa. Nela, fazemos memória do cumprimento da promessa de Jesus a seus discípulos (Jo 16,7-24; Lc 24,49; At 1,8).

Os judeus a celebravam recordando, sobretudo, o dom da Aliança entre Deus e o povo de Israel. Era considerada uma das três grandes festas de peregrinação a Jerusalém (Ex 23,14-17; 34,18-23). Ela tem origem agrícola, por causa das primícias da colheita do trigo (Ex 23,16), e depois, com a restauração do culto, no período persa, adquiriu o significado de renovação da Aliança (2Cr 15,10-15). Então, imagina-se que, naqueles dias, para essa celebração, Jerusalém ficasse repleta de peregrinos judeus de todas as partes.

Para nós, cristãos, o sentido da solenidade é o evento narrado na primeira leitura (At 2,1-11). Os discípulos, reunidos em Jerusalém, experimentam a força de Deus e passam a anunciar corajosamente suas maravilhas realizadas por meio de Jesus. Muitas pessoas aderem a essa mensagem, nela acreditam e formam comunidades de fé que confessam Jesus como Senhor (1Cor 12,3b-7.12-13).

No Evangelho (Jo 20,19-23), Jesus visita seus discípulos para soprar sobre eles seu Espírito. O que ouvimos em Pentecostes (At 2,1-11) se encontra narrado de outra maneira por João. Há uma mudança dos seguidores de Jesus: de medrosos galileus passam a ser proclamadores do Evangelho a todos os povos. O Espírito Santo faz a Igreja nascer em Pentecostes a partir da ressurreição de Jesus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 2,1-11)

Os discípulos, como judeus observantes, permaneciam em Jerusalém após a Páscoa (Lc 22,1-2), esperando chegar o dia de Pentecostes. Perseveravam na oração (At 1,14) para que se cumprisse a promessa de Jesus. No dia de Pentecostes, o Espírito Santo prometido vem sobre eles, impulsionando-os ao anúncio do Evangelho.

Os discípulos se encontravam “reunidos no mesmo lugar” (v. 1). Possivelmente, sentiam-se ameaçados e sofriam com o risco de morte como a de Jesus. Mesmo com os encontros com o Ressuscitado, ainda não ousavam espalhar a Boa-nova na qual acreditavam. Contudo, na perseverança da oração, experimentam o Espírito Santo vindo sobre eles como um vento forte e línguas de fogo (v. 3; Is 5,4), sinais de manifestação divina.

O Espírito faz os discípulos falar novas línguas e proclamar, de maneira compreensível a todos, as maravilhas de Deus. Pessoas de todas as partes conhecidas do mundo antigo se encontravamem Jerusalém (v. 9-10) e escutavam a respeito dos feitos de Deus. Pela ação do Espírito Santo, o grupo acanhado de galileus se torna intrépido proclamador do Evangelho de Jesus a todos.

Ao final, lê-se que alguns ficaram perplexos com o evento e se perguntaram: “Que é isso?” (v. 12), enquanto outros, incrédulos, zombavam do que se passava e achavam que os discípulos se houvessem embriagado. Pentecostes faz pensar e convida à fé desde quando aconteceu pela primeira vez até nossos tempos.

2. II leitura (1Cor 12,3b-7.12-13)

A comunidade de Corinto era conhecida pelos seus problemas, que exigiam do apóstolo Paulo recorrentes orientações a fim de organizá-la para o testemunho da fé em Cristo. Por isso, chegaram até nós alguns dos ensinamentos do apóstolo para a comunidade mediante suas cartas.

Corinto foi reconhecida por Paulo como uma comunidade abundante de dons (1Cor 1,4-5.7), e nela os cristãos buscavam zelosamente os carismas espirituais, exagerando a ponto de quererem os mais espetaculares, principalmente a glossolalia.

Isso era considerado pelos membros da comunidade como um sinal da pertença das pessoas às realidades divinas. O Espírito Santo era visto por alguns membros unicamente em suas manifestações extáticas e extraordinárias, à semelhança dos cultos pagãos a Baco e Pítia. Os oráculos e os comportamentos frenéticos produzidos eram conhecidos pelos coríntios, em virtude de sua prática religiosa passada.

Então, Paulo ensina a respeito da ação do Espírito de Deus. O Espírito promove a Igreja, comunidade dos que creem no Cristo, e leva à confissão de fé em Jesus como “Senhor” (v. 3; Fl 2,11), título dado a Deus no Antigo Testamento.

Nessa seção (1Cor 12-14), Paulo escreve à comunidade de Corinto sobre os carismas e lhe aconselha a unidade no amor. O Espírito Santo move as pessoas para o serviço nos diversos ministérios na Igreja “em vista do bem comum” (v. 7).

Assim, a Igreja é como um corpo, o de Cristo, com diferentes membros (v. 12). Entretanto, esses membros não podem viver apartados uns dos outros; antes, devem formar unidade, gerada pela mesma fé em Cristo. Tal unidade não significa uniformidade; ao contrário, o texto destaca as diferenças (v. 5), direcionando para a unidade.

Todos os carismas devem ser avaliados segundo o princípio: “Que tudo se faça para a edificação!” (1Cor 14,26). Paulo valoriza os dons espirituais e enfatiza que o Espírito quer atuar como princípio de ordem e integração comunitária. Para isso, eis um caminho precioso: o amor (1Cor 13,1-13), o centro e a meta da vida carismática. O amor é o oposto do individualismo, não procura a própria satisfação e suporta o mal.

3. Evangelho (Jo 20,19-23)

O Evangelho traz a narrativa da vinda do Espírito Santo em João, em continuidade com a “exaltação” de Jesus (morte e ressurreição). O mesmo trecho bíblico proclamado no 2º domingo da Páscoa é retomado agora, com ênfase no cumprimento da promessa do dom de Jesus aos discípulos: o Espírito Santo, que os impele a continuar o anúncio iniciado por ele.

A cena ocorre na tarde do primeiro dia da semana e com as portas fechadas (v. 19). Os discípulos se encontravam com medo, sentindo sua vida ameaçada e sem perspectivas por causa da ausência do Mestre.

Jesus vai aos discípulos e se coloca no meio deles, desejando-lhes a paz e apresentando as mãos e o lado. Aquele que fora abandonado regressa àqueles que o abandonaram. Ele, quecaminhou com os discípulos por tantas estradas, encontra-os fechados e quietos naquela sala.

Os discípulos se enchem de alegria por verem o Senhor (v. 20). A situação conflituosa e perturbadora é convertida em profunda alegria, entusiasmo, ânimo e coragem. O inverso daquilo que os discípulos sentiam antes desse encontro com o Ressuscitado. A experiência da ressurreição de Jesus é transformadora, empolgante e arranca o ser humano da própria angústia, abrindo-o à felicidade plena e ao sentido da vida.

A paz que Jesus deseja aos seus discípulos não é mera quietude ou ausência de problemas (v. 19.21). Ao contrário, as primeiras pessoas que seguiam Jesus corriam mais risco de vida do que nós na atualidade. A saudação, em hebraico shalom, representa um estado de plenitude e integração com Deus, com as pessoas, com a sociedade e com a criação. A paz realizada por Jesus (Jo 14,27) e comunicada aos discípulos não se restringe a eles, mas alcança a todos os que dela necessitam. Quem a recebe também se torna um sinal de paz no mundo.

A paz vem acompanhada de alegria (v. 20). O luto pela morte de Jesus, o possível remorso pelo abandono do Mestre e a decepção com o aparente final de uma mensagem entusiasmante parecem minúsculos diante do encontro com o Ressuscitado e da transformação que ele provoca no grupo.

Ainda falando, Jesus acrescenta: “Como o Pai me enviou, também vos envio” (v. 21). Os discípulos têm a tarefa de anunciar e testemunhar aquela experiência de fé que lhes converteu o coração. Doravante, a intrepidez, a ousadia e o destemor devem caracterizar a nova postura de vida e a proclamação da ressurreição de Jesus, o qual apresenta também suas chagas glorificadas como sua identificação e registro de sua entrega amorosa a Deus e à humanidade.

Os discípulos recebem então o Espírito Santo, a fim de continuarem a missão de Jesus Cristo, proclamando e realizando o que foi sua missão: o perdão dos pecados (v. 23). Testemunhar o Ressuscitado significa viver impelido pelo Espírito de Deus que foi soprado sobre todos, dando vida nova, plena e em comunhão definitiva com Deus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O sopro de Jesus desloca os discípulos de uma condição estática para uma nova dinâmica de vida, comprometida com a prática do amor. Retira-os da sala com portas fechadas e recoloca-os nas trilhas das nações, a fim de que a Boa-nova chegue aos confins da terra (At 1,8). Esse sopro pedimos e acolhemos nesta liturgia.

O vento do Espírito nos movimenta. Somos tirados do comodismo para chegarmos a outras pessoas, propondo um encontro com o Senhor. Podemos abandonar os medos que trazemos (violência, complexidade social etc.) e as ameaças atuais (indiferença, rejeição etc.) com um Pentecostes em nós – não por meio de barulhos ou frenesis, mas pela eloquente presença do seu Espírito, que faz renascer todas as coisas (Sl 104,30)

Marcus Mareano*

*Pe. Marcus Mareano é bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece); bacharel e mestre
em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); doutor em Teologia Bíblica com dupla
diplomação: pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven); professor adjunto de
Teologia na PUC-MG e de disciplinas isoladas em diferentes seminários. Desde 2018, é administrador
paroquial da paróquia São João Bosco, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]