Roteiros homiléticos

29 de junho – SÃO PEDRO E SÃO PAULO

Por Aíla Luzia Pinheiro Andrade

COMBATERAM O BOM COMBATE

I. INTRODUÇÃO GERAL

A Igreja celebra o martírio de Pedro e de Paulo na mesma data porque eles estiveram unidos no mesmo propósito: seguir Jesus até a morte. Ambos são alicerces vivos do edifício espiritual que é a Igreja. Pedro evangelizou os judeus, Paulo fez a mensagem de Jesus chegar às demais nações. A incessante pregação de ambos foi fecundada com o martírio. Eles deram provas de até que ponto pode ir o ser humano quando elege o projeto de Deus como opção de vida. Não foram pessoas apenas de palavras, mas testemunhas de que a fé remove as montanhas do egoísmo. O modo como viveram e como morreram questiona o comodismo de nossa fé.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Mt 16,13-19): As portas do inferno não vencerão

No evangelho de hoje, Jesus faz duas perguntas aos discípulos. Na primeira, ele quer saber o que as pessoas em geral estão dizendo a respeito dele e, na segunda, o que os discípulos pensam sobre ele.

Com essas perguntas, pode parecer que Jesus está fazendo uma pesquisa, para ver se a mensagem dele está agradando ao público ou se ele terá de mudar alguma coisa que aumente o índice de audiência. Na verdade, Jesus está ocupado em construir, na consciência coletiva, a identidade dele, ou seja, quer estabelecer exata compreensão a respeito do Messias e, além disso, mostrar que tipo de Messias ele é. Jesus faz essas perguntas aos discípulos porque sabe que da correta assimilação de sua identidade depende a correta compreensão de sua mensagem. Se alguém entende de forma errada quem é Jesus, compreenderá erroneamente a sua mensagem e terá uma práxis totalmente diferente daquela que ele espera.

Na resposta dos discípulos à primeira pergunta são explicitadas as diversas esperanças messiânicas de Israel.

Pedro toma a iniciativa para responder à pergunta feita aos discípulos sobre a identidade de Jesus. Mas é a comunidade dos discípulos, representada por Pedro, quem diz corretamente quem é Jesus e qual sua missão. A resposta da comunidade representada por Pedro é uma profissão de fé no “Cristo, Filho do Deus vivo”.

Essa profissão de fé não é fruto da lógica e do esforço humano, mas é revelação divina, pois quem o revela à comunidade é o próprio Pai, que está no céu. Foi a abertura da comunidade à revelação divina que possibilitou reconhecer o Cristo e confessar a fé nele. E é sobre a fé confessada no Cristo, Filho do Deus vivo, que a Igreja é edificada. A expressão “esta pedra” refere-se à confissão de fé e é um trocadilho com a palavra “Pedro”, por cujos lábios ela é pronunciada. O fundamento da Igreja é Jesus, pedra angular (Mt 21,42), confessado Messias/Cristo pela comunidade de seus seguidores.

Porque a comunidade dos seguidores confessou a verdadeira identidade de Jesus como Messias/Cristo, pedra angular ou fundamento, ela recebeu “as chaves do reino” (e não da Igreja). O termo “chaves” significa ter acesso e, nesse caso, remete a Is 22,22. Então, é tarefa da Igreja cuidar da obra divina, não como um proprietário – pois o Reino é de Deus –, mas como um mordomo ou despenseiro que cuida da casa de seu verdadeiro senhor, ao qual prestará contas de seu serviço. E cuidar do Reino significa fazer que ele cresça neste mundo.

Então a principal tarefa da comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja, é proporcionar o avanço do Reino dos céus (ou de Deus). Esse avanço significa uma ofensiva contra tudo o que se constitui em antirreino (representado pelo termo “inferno”). “As portas”, naquela época como hoje, significavam o poder de defesa. Uma cidade (murada) com portas resistentes tinha grande poder de defesa numa batalha. “As portas do inferno não resistirão” significa que a comunidade dos discípulos de Jesus faz o Reino avançar contra o antirreino (o inferno), e, por mais fortes que sejam os poderes de defesa (as portas) do inferno, não conseguirão resistir por muito tempo e por fim o Reino vencerá e será instaurado plenamente. As portas do antirreino cairão.

Em função do avanço do reino, uma das tarefas da Igreja é “ligar ou desligar”, mas isso não diz respeito a uma autoridade soberana do líder da Igreja. O sentido de “ligar ou desligar” diz respeito ao âmbito da comunhão entre o fiel e a comunidade, ou melhor, ao sacramento da reconciliação. É precisamente no âmbito do ministério da reconciliação que a Igreja exerce a tarefa de excluir oficialmente um membro da comunhão plena ou readmiti-lo (reconciliá-lo), uma vez cumpridas certas condições.

Assim, “ligar” significa “algemar” alguém, ou seja, deixá-lo preso ao pecado; e “desligar” significa romper os laços com que o pecado escraviza o ser humano, readmitindo o pecador arrependido à comunidade salvífica.

Desse modo, “ligar ou desligar” significa fundamentalmente a faculdade de perdoar os pecados, reconciliando o pecador com Deus, mediante a visibilidade do sacramento, e impondo-lhes condições e obrigações que sejam o sinal da verdadeira conversão.

2. I leitura (At 12,1-11): Foi lançado na prisão

Na primeira leitura, Pedro é envolvido no mesmo destino de Jesus, primeiramente porque foi preso na festa dos pães sem fermento (a Páscoa). Além disso, o texto começa com a decisão do rei Herodes de tentar destruir a Igreja, prendendo e matando seus líderes. O rei deseja remover os pilares da casa para fazer a construção inteira ruir. A prisão de Pedro não é um fato isolado – na mesma época, Tiago (filho de Zebedeu) foi martirizado. O governante condena pessoas inocentes para garantir a própria popularidade, algo semelhante ao que foi feito a Jesus.

Os detalhes sobre como Pedro estava sendo guardado pelos soldados romanos querem apenas assegurar que uma fuga seria impossível. Enquanto Pedro estava preso, a Igreja reunida orava incessantemente, solidarizando-se com a situação dele, pois constituíam um só corpo no Senhor. E ao fervor da oração Deus respondeu com a libertação. Na noite anterior ao dia em que Herodes apresentaria Pedro ao sinédrio para ser condenado, Deus agiu em resposta à oração da Igreja.

O texto enfatiza que Pedro dormia enquanto esperava o próprio julgamento e condenação. Ele teve dificuldade para saber se o que estava acontecendo era real, o que significa que não esperava a libertação. E se mesmo assim conseguia dormir, era porque confiava plenamente em Deus e estava preparado para morrer por sua fé. Enquanto Pedro está sendo libertado, o texto faz questão de ressaltar novamente que a prisão era de segurança máxima e que, apesar de todas as precauções, Herodes não conseguiu o seu intento de destruir a Igreja. 

3. II leitura (2Tm 4,6-8.17-18): Terminei minha carreira, guardei a fé

O texto da segunda leitura se refere ao momento em que Paulo estava preso e pensava que seria condenado à morte. Suas palavras não revelam nenhuma amargura, mas a serenidade de quem se abandonou nas mãos de Deus. O apóstolo estava pronto para ser imolado, isto é, estava à disposição para ser morto por causa do evangelho. Além disso, considera que a morte por causa do evangelho é aceita por Deus como verdadeira oferta ou sacrifício.

A vida do cristão é comparada a uma batalha e a um esporte de olimpíada: “Combati o bom combate, terminei minha carreira” (v. 7), mas em tudo a fé saiu vitoriosa; faltava apenas subir ao pódio e receber a coroa de louros que confirmava a vitória. Isso significa que o apóstolo sabe que Deus não deixará sua morte sem resposta; a última palavra não é da morte, mas de Deus, que dá vida plena aos que nele se abandonam. A ressurreição não significa um prêmio, mas sim que Deus partilha a vida que lhe é própria (eterna) com aqueles que lhe doaram a vida humana e efêmera. A ressurreição é grande dom de Deus e não simples troca de uma vida por outra; a vida que doamos a Deus em nada se compara à vida eterna que ele gratuitamente nos dá. Por isso não é um prêmio. A coroação de que o apóstolo fala significa que a última ação é de Deus, e não do carrasco. 

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

– As prisões dos dois apóstolos atestam que somente é verdadeiro discípulo de Cristo quem por ele enfrenta perseguições e martírios, mantendo a fé/fidelidade. Os exemplos de Pedro e Paulo mostram que a Igreja não é edificada sobre homens, mas sobre a confissão de fé no Cristo ressuscitado e ressuscitador. Tal confissão de fé não é apenas um discurso de belas palavras, mas testemunho de vivência da fidelidade a Deus custe o que custar, mesmo que seja a própria vida. Muitas pessoas se orgulham de que Cristo tenha entregado as chaves do Reino para Pedro e não se lembram de que as chaves significam serviço. Outras pessoas se ufanam de que Pedro tenha recebido a missão de “ligar e desligar” e não sabem que o objetivo disso é manter a Igreja numa fé autêntica e operante no mundo.

– É oportuno que o presidente da celebração evite aumentar o orgulho de ser católico e destaque a humildade de ser cristão, pois foi isto que Cristo nos ensinou. Também deve ficar claro, mesmo quando Pedro é o padroeiro do lugar, que a festa é também de são Paulo. Ambos são as duas colunas principais da Igreja.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade

Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje - BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica e lecionou por alguns anos. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com.