Roteiros homiléticos

2º Domingo da Quaresma – 17 de março

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

Uma das nossas maiores dificuldades é cristalizarmos nossos pensamentos e formas de ser e de viver. Cristalizamos de tal maneira, que até Deus parece ser incapaz de alterar. Vivemos engessados e, por isso, temos dificuldades de pensar “fora da caixa”. Tudo parece já bem decidido e refletido. Não damos espaço a novas possibilidades, novas descobertas, novos caminhos, novos estudos, novas percepções. Em determinado momento da vida de Abraão, Deus o chamou para sair de si mesmo, para sair de sua terra, para sair de sua tenda, para ver, de maneira nova, o céu que já havia visto inúmeras vezes. Deus sempre deseja que vejamos de forma diferente. Pensar fora da caixa é permitir-se estar aberto às muitas surpresas de Deus.

II. Comentários aos textos bíblicos

1. I leitura: Gn 15,5-12.17-18

Deus conduziu Abraão para fora de sua tenda não apenas para que visse algo novo, mas também para que pensasse algo novo, isto é, para que pensasse fora da caixa! Uma das maiores dificuldades é nos considerarmos, de fato, filhos e filhas de Deus. Muitas vezes não acreditamos em Deus como deveríamos. Quando erguemos os olhos ao céu, precisamos também acreditar que o Deus que criou a multidão incontável de estrelas é o mesmo que verdadeiramente caminha junto a nós e dentro de nós. Acreditar é empenhar a vida. É se projetar em Deus. Não é apenas um sentimento que passa pelo coração; tem algo de prático, que nos leva a dedicar o que somos ao próprio Deus. Não é mero exercício mental. Novamente o texto revela a fragilidade de Abraão. As situações se tornam difíceis. Nem sempre temos controle sobre os fatos que ocorrem em nosso dia a dia. Quando são imprevisíveis e desestabilizam o que somos e o nosso ambiente, essas experiências geram em nós um sentimento de pânico.

Abraão está vivendo uma situação muito complicada. O medo está sendo gerado em seu coração numa velocidade vertiginosa. Somos frágeis! Não somos tão fortes quanto pensávamos. Às vezes, podemos até nos apresentar como fortes e fazer cara de fortes. Isso, contudo, não dura muito tempo. O normal é termos consciência da fraqueza humana. Se somos fracos, é forte quem nos acompanha. Essa é a experiência de Abraão. Não há problema quando alguém se sente muito fraco ou com medo. O ruim é a pessoa se sentir com muito medo e se esquecer de que junto a ela está alguém todo-poderoso, que supre a fraqueza humana com a sua força divina. Não é errado sentir medo, não é pecado. Não podemos, porém, ser reféns do medo, só porque ele tem a força de nos paralisar e nos impedir de caminhar pelos lugares para onde Deus nos convida. O medo impede que pensemos, sonhemos, acreditemos nas coisas de Deus. Até pode inviabilizar o projeto do Pai.

Faz-se necessário que repensemos o que somos, ao vivermos essas experiências negativas. Abraão sente medo, mas não vai viver com medo a vida toda. Episodicamente, ele tem experiências de medo. Muito mais do que isso, no entanto, tem a certeza de que o Deus que o acompanha é aquele que garante coragem sobre o medo e poder sobre a fraqueza. Um texto que demarca a experiência cotidiana de Abraão: “o sol se pôs e veio a noite”. Deus se relaciona conosco na ordem do cotidiano. As experiências que temos com Deus se inserem na ordem do dia. Para nos relacionarmos com ele, não podemos negar a história de nossa vida ou negar o mundo em que vivemos. No dia exato, Deus novamente aparece e se insere na nossa vida; acontece, então, uma experiência significativa.

Uma orientação clara do texto: Deus fala em meio ao nosso cotidiano. Onde vamos procurar Deus? Devemos procurá-lo no dia a dia. Acontece um episódio muito particular. Deus estabeleceu uma aliança conosco. Vem do alto dos céus e se insere na história do ser humano, caminha com ele como companheiro e faz uma aliança. Não é só diálogo, vai muito além. Não apenas conversa, não joga conversa fora… Faz uma aliança, um acordo, que nos leva a viver uns para os outros, uns se doando aos outros. Não é apenas para vivermos uma experiência (ainda que seja uma experiência maravilhosa). Deus se envolve em nossas experiências de vida. Quer que sejamos seus filhos e filhas. É algo muito mais profundo. É algo que faz a diferença entre sermos filhos bem conhecidos de Deus. Conhecer a Deus significa fazer aliança com ele.

2. II leitura: Fl 3,17-4,1

Imitar a Paulo porque ele é imitador de Jesus. Paulo apóstolo frequentemente se apresenta como modelo. Sabe que tem algo a oferecer. Nem sempre é fácil ou simples apresentar-se como modelo aos outros. No entanto, em que perspectiva Paulo será modelo? Podemos observar que o v. 18 nos ajuda a responder. É modelo pelo caminho da cruz que escolheu. Muitos outros escolhiam o caminho da facilidade, do comodismo e da glória pessoal. Paulo, ao contrário, escolheu o caminho da humilhação, do sofrimento, do esvaziamento de si próprio. Nesse sentido, o apóstolo, como discípulo que era, reproduzia em si os mesmos sentimentos que havia em Jesus. Isto é ser discípulo: trazer na própria vida as marcas/características que lembram o Cristo. Cada discípulo, de fato, deveria reproduzir em si mesmo, em seu modo de viver, os mesmos sentimentos existentes em Jesus. Dessa forma, seremos modelos uns para os outros.

3. Evangelho: Lc 9,28b-36

Em certa ocasião, Jesus levou três discípulos seus para rezar: Pedro, Tiago e João. Foram até a montanha, que, na tradição do povo de Deus, é lugar privilegiado para manifestações divinas. Quando Jesus estava rezando, aconteceu uma mudança espetacular: o rosto dele mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante. Além disso, duas outras pessoas apareceram e conversavam com ele: Moisés e Elias. Conversavam a respeito do conflito final que, no texto, é tomado como “êxodo”.

Depois de acordar de sono profundo, Pedro entra na conversa e dá sinais de que não estava sintonizado com o projeto de Jesus. Poderia um discípulo, mesmo após um tempo considerável, não compreender os planos do mestre? Parece justamente esse o caso de Pedro. O texto bíblico é de clareza impressionante: “Ele não sabia o que estava dizendo”.

“Mestre, é bom estarmos aqui”, diz Pedro. Ele reconhece a experiência sublime que está vivendo. Na verdade, se pudesse, o apóstolo congelaria esse momento para eternizá-lo. É o momento em que a antiga e a nova aliança estão presentes. Dois grandes personagens da antiga aliança se apresentam memoravelmente. Pedro, Tiago e João são testemunhas privilegiadas desse evento. Pedro, contudo, fala mais rápido do que pensa: “Vamos armar três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”.

Ele se deixou encantar com o que via e resolveu acomodar todos no alto da montanha. Nem mesmo se mostrou incomodado com a falta de uma tenda pessoal. Que Jesus, Moisés e Elias ficassem bem acomodados, contanto que fosse no alto da montanha. O grande problema é que Pedro, ao fixar o olhar no alto da montanha, se esqueceu da missão que deveria acontecer na cidade. Qual seria a relevância de um evangelho restrito a poucas pessoas no alto de uma montanha?

Talvez o apóstolo esperasse, com essa atitude, desviar Jesus de sua missão. No entanto, uma voz celeste afirmou: “Este é o meu Filho escolhido. Ouçam-no!”. Para Jesus, a missão devia realizar-se em meio ao conflito do cotidiano, e não no bem-estar que privilegia alguns poucos. Pedro queria trocar o conflito pelo conforto de uma visão celestial, enquanto Jesus queria que suas palavras e ações fossem relevantes na história do povo pobre que o seguia.

O verdadeiro discipulado não é aquele que se esconde em visões celestiais, e sim o que assume as contradições da história, encarnando os valores do evangelho.

III. Pistas para reflexão

Deus nos fala em meio ao cotidiano. Por isso se faz necessário sermos bons intérpretes da realidade, a fim de o encontrarmos justamente aí. Muitas vezes, temos predileção por um evangelho que nos desconecta da vida e nos faz perder nossas raízes. Deus, porém, revela-se dentro da história. Por isso é necessário valorizar o cotidiano como lugar privilegiado de encontro com Deus. Sim, ele nos chama para vivermos um evangelho integral na história, assumindo-a, ao construirmos nela o Reino.

– Vivemos numa sociedade que, a todo momento, produz modelos e os expõe 24 horas por dia. No entanto, são modelos que não se sustentam, porque são frágeis e artificiais. A quem devemos imitar? Quais modelos devemos eleger para orientar a vida de nossos filhos? É claro que Jesus é o modelo mais bem-acabado que pode existir e que vale a pena imitar. Paulo descobriu essa verdade e o imitava. Por isso, podia dizer com toda a convicção: sejam meus imitadores. Quanto a nós, poderíamos dizer a mesma coisa?

Luiz Alexandre Solano Rossi

Luiz Alexandre Solano Rossi é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br