Roteiros homiléticos

Publicado em janeiro – fevereiro de 2020 - ano 61 - número 331 - pág.: 47-50

2º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 19 de janeiro

Por Francisco Cornélio Freire Rodrigues

Viemos ao mundo para fazer a vontade do Senhor

I. Introdução geral

Vocação e missão são os temas que a liturgia da Palavra evidencia neste domingo. Deus tem um projeto de vida plena para a humanidade e, para executá-lo, quis a participação e a colaboração humana, não por necessidade, mas por pura bondade. Por isso, ele escolhe, chama e envia.

A primeira leitura fala da vocação do Servo do Senhor, escolhido por Deus desde o ventre materno para reunificar o povo de Israel e ser luz para as nações. Na segunda leitura, temos indícios de duas vocações: a de Paulo, ao apresentar-se como “apóstolo de Jesus Cristo”, e a de todos os cristãos, especialmente os de Corinto, com a recordação do chamado comum e universal à santidade. O evangelho também fala de vocação e missão, embora de modo menos explícito do que nas duas leituras: a vocação de João, enquanto precursor, a quem foi concedido o dom de reconhecer Jesus como o “Cordeiro e Filho de Deus” e anunciar sua missão de “tirar o pecado do mundo”; a missão do próprio Jesus, sintetizada nas palavras de João, ao aplicar-lhe a imagem do Cordeiro e reconhecê-lo como o Filho de Deus.

Como Escritura inspirada e performativa, esses textos não visam apenas contar ou descrever exemplos de vocação e missão, mas também devem ajudar-nos a encontrar e assumir nossa vocação e missão neste mundo, a fim de podermos dizer como o salmista: “Eis que venho, Senhor; com prazer, faço vossa vontade!” (Sl 39,8).

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Is 49,3.5-6

A primeira leitura é um trecho do segundo cântico do Servo do Senhor, um texto que remonta à época do exílio na Babilônia. Esse Servo, de identidade misteriosa, conta, simultaneamente, sua vocação e missão. Desde o ventre materno, foi escolhido pelo Senhor para cumprir, em primeiro lugar, a missão de reunir o povo de Israel disperso pelo mundo (cf. v. 5). No contexto do exílio, essas palavras servem como injeção de ânimo, alimentando a esperança do retorno do povo à terra prometida.

Na Antiguidade, o poder de uma divindade era medido pela prosperidade do país que a invocava. Com o aniquilamento de Israel – o Norte pela Assíria e o Sul pela Babilônia –, o que se colocava em questão era a potência e a glória do seu Deus. Por isso, em paralelo à restauração do povo enquanto nação, fala-se sempre da manifestação da glória do Senhor (cf. v. 5). Reunir Israel, ou seja, reconduzir o povo disperso e exilado ao país é apenas uma etapa da missão do Servo, e isso não basta. Sua missão consiste também em ser luz para as nações, para que a salvação chegue até os confins da terra (cf. v. 6).

A identidade do Servo é misteriosa, como já afirmamos. Ora ele é identificado como a personificação do próprio povo de Israel (cf. v. 3) – ou seja, é uma personalidade corporativa –, ora deve cumprir uma missão em favor desse povo (cf. vv. 5-6). Pelas características universais de sua missão, pela predileção de Deus por ele e pelo cumprimento da obra, esse Servo é identificado pelos cristãos como prefiguração de Jesus.

2. II leitura: 1Cor 1,1-3

A segunda leitura compreende os primeiros versículos da primeira carta de Paulo aos Coríntios, cuja leitura será continuada nos próximos domingos. Essa é uma das suas cartas mais importantes e polêmicas. No trecho lido hoje, porém, as polêmicas ainda não aparecem, já que o texto contém somente a saudação do remetente aos destinatários. Apesar de curta, a leitura traz elementos muito importantes que devem ser evidenciados.

Apresentando-se como “apóstolo de Jesus Cristo” (v. 1), Paulo confirma sua vocação de escolhido por Deus e enviado para levar o evangelho, fonte de salvação, até os confins da terra. O termo “apóstolo” significa exatamente “enviado”; com isso, ele quer dizer que a mensagem não é sua, mas de Deus. Ao afirmar que os cristãos são “chamados a ser santos” (v. 2), Paulo quer dizer que há uma vocação primeira e essencial, destinada a todos os batizados: a santidade. Essa vocação à santidade consiste em assimilar os valores do evangelho, independentemente do exercício de um ministério ou função específica na comunidade.

Outro elemento que não pode passar despercebido nessa leitura é o conceito de Igreja exposto por Paulo ao chamar os cristãos à unidade, um dos mais belos de todo o Novo Testamento: a Igreja é “todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (v. 2); invocar, aqui, não significa apenas pronunciar o nome ou chamar, mas aderir pela fé, sentindo-se convocado a participar da assembleia, cuja adesão é outorgada pelo Espírito Santo por meio do batismo. Esse conceito exprime também a universalidade da salvação. É em Jesus Cristo, por meio da Igreja, assembleia de todas as pessoas chamadas à santidade, que a salvação chega até os confins da terra.

3. Evangelho: Jo 1,29-34

Assim como nas duas leituras, também o evangelho fala de vocação e missão, embora com mais discrição. Ainda no prólogo, o autor do Quarto Evangelho afirmou que “houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João, para dar testemunho da luz” (Jo 1,6-7) – ou seja, de Jesus. Se João foi enviado para dar testemunho, significa que fora também chamado, escolhido. O evangelho deste dia corresponde a um trecho do seu testemunho.

Enquanto, nos sinóticos, João é caracterizado e conhecido mais pela sua atividade batizadora, no Quarto Evangelho ele se destaca pelo testemunho, e não propriamente por aquela atividade. Além disso, no evangelho joanino ele é chamado apenas de João, sem o nome funcional de Batista, utilizado na tradição sinótica.

O testemunho de João consiste no reconhecimento e anúncio da identidade de Jesus (Cordeiro; Filho de Deus) e da sua missão (tirar o pecado do mundo), tarefas nada fáceis, pois não havia traços que distinguissem Jesus dos demais homens. Além disso, havia muitas concepções de messianismo na época, o que dificultava ainda mais; tanto que o próprio João foi confundido com o Messias, sendo alvo de interrogatório por isso (cf. Jo 1,19-24). Logo, o testemunho de João é fruto de sua experiência profunda com Deus (cf. v. 33).

Do testemunho de João, duas afirmações se destacam: a primeira é a declaração de que Jesus é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (v. 29). Embora tenha ressonâncias veterotestamentárias, essa expressão é única em toda a Bíblia: além de prefigurar a morte sacrifical de Jesus na cruz como cordeiro pascal, contradiz os ideais messiânicos e nacionalistas da época. Esperava-se um Messias forte e guerreiro, que viesse ao mundo para exterminar os pecadores por meio da força, da violência. A imagem do cordeiro, pelo contrário, evoca mansidão e paz.

No culto do Templo, eram as pessoas que ofereciam seus cordeiros a Deus como sacrifício. O testemunho de João anuncia um movimento inverso: é Deus quem oferece seu cordeiro – seu próprio Filho – à humanidade. Por isso, ele não apenas “expia” os pecados das pessoas, mas também tira o pecado do mundo. Esse pecado é a rejeição ao amor de Deus. “Tirar o pecado do mundo”, portanto, significa restabelecer a comunicação entre a humanidade e Deus; é a proposta de um mundo novo, cujas relações se dão somente pelo amor. Enfim, é a superação do mal que impede o estabelecimento do Reino de Deus no mundo.

Embora surpreendente e nova, a identificação de Jesus como “Cordeiro de Deus” poderia ser compreendida como mera repetição das profecias sobre o “Servo do Senhor”, como aquela da primeira leitura, por exemplo. Por isso, João vai mais além e, para não deixar dúvidas, afirma explicitamente que Jesus é o “Filho de Deus” (v. 34). Com essa afirmação, seu testemunho chega ao ápice: é a confirmação do cumprimento da sua missão de ser testemunha da luz.

Por ser o Filho de Deus, Jesus é o portador por excelência do Espírito Santo e o comunica a todos os que invocam seu nome.

III. Pistas para reflexão

É importante enfatizar a relação temática entre vocação e missão nas três leituras, bem como a sequência histórico-salvífica em ambas: o universalismo da salvação sempre esteve nos propósitos de Deus, como atesta a designação do Servo para ser luz das nações (I leitura). No entanto, somente em Cristo esse plano encontra seu cumprimento, pois ele “tira o pecado do mundo”, uma vez que é mais que servo, é o Filho de Deus (evangelho). Por extensão, “a Igreja de Deus em Corinto” e em todos os lugares (II leitura) é uma demonstração concreta de que, em Cristo, a salvação chega até os confins da terra.

Como assembleia reunida “em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”, onde quer que esteja, a Igreja deve ser testemunha autêntica do Cordeiro, contribuindo para que desapareçam do mundo os sinais de pecado que impedem a vida em abundância para todos, como a violência, as injustiças, os preconceitos, as divisões e todo tipo de mal.

Independentemente da especificidade da missão de cada um(a), todas as pessoas são chamadas por Deus a uma vocação comum: a santidade. Esse chamado coincide com o compromisso de empenhar-se contra o mal enraizado nos corações e nas estruturas do mundo.

Francisco Cornélio Freire Rodrigues

é presbítero da Diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife) e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN).