Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2023 - ano 64 - número 353 - pp.: 36-38

3 de setembro – 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Junior Vasconcelos do Amaral*

Somos todos discípulos do Senhor

I. INTRODUÇÃO GERAL

 

Setembro dá início à primavera e é também o mês da Bíblia. Todas as leituras deste domingo recordam o chamado que Deus nos faz, nossa vocação. Todo ser humano é convidado à plenitude da vida, e muitos de nós somos, pelo batismo, chamados a profetizar, quando não a assumir missões específicas, como servir a Igreja no ministério ordenado. Na primeira leitura, o profeta Jeremias, em um clássico texto conhecido por muitos de nós, diz que o Senhor o seduziu a assumir a missão profética. O Evangelho de Mateus põe em relevo o primeiro anúncio da paixão, o seguimento de Jesus e a renúncia necessária para estar com ele. A segunda leitura nos encoraja a nos sacrificarmos – incluindo nosso corpo – de forma santa a Deus. Sacrificar-se é tornar sagrado tudo o que se faz, ao contrário do que muitas pessoas entendem como sofrer. Deus não quer nosso sofrimento, mas nossa realização.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

 

1. I leitura (Jr 20,7-9)

 

O profeta está totalmente enlaçado por Deus. Embora sofra as consequências de uma prisão, Jeremias não deixa de ser poético e esperançoso. Ele é capaz de perceber, mesmo na dor e no sofrimento, a presença divina. Tal capacidade lança ao povo de Israel lampejos de perseverança, apesar de sua realidade dura e desgastante. O profeta se lança no compromisso com Deus, ainda que seja surpreendido por uma prisão. A mensagem de Jeremias é clara por sua objetividade e agudeza no estabelecimento da verdadeira fé javista, aquela que gira em torno somente do Deus único, com um desejo fervoroso de combater toda idolatria.

A primeira parte do ministério de Jeremias se insere nos anos de seu chamado (627-626 a.C.) até o período da reforma de Josias, em 621 a.C. Tal reforma foi eclipsada por um retorno sistêmico à idolatria por parte de Joaquim, e o partido egípcio tomou o poder. Mesmo criticado pelo profeta, Joaquim, o rei, não mudou suas atitudes. A última fase da vida de Jeremias se estende desde a primeira queda de Jerusalém, em 597 a.C., até sua morte no Egito, logoapós a destruição de Jerusalém e Judá, em 587 a.C.

A passagem de Jr 20,7-9 está inserida no chamado “desespero de Jeremias”, que vai até o v. 18 e pertence ao bloco do significado simbólico da vida do profeta, um conjunto narrativo que vai de Jr 18,1 a 20,18. O texto começa com o verbo hebraico patâ, que significa “seduzir” e é usado para expressar a experiência de uma virgem seduzida por um homem (Ex 22,15). Muito frequentemente, esse verbo pode significar também “iludir”, sendo aplicado aos falsos profetas, no sentido de não serem fiéis a Adonai. “Tu me dominaste” também tem conotação afetiva e sexual (Dt 22,25; 2Sm 13,11; Pr 7,13). O teor amoroso do texto permite formar o sentido de que o profeta estaria verdadeiramente enredado pelo Senhor, o qual envia seu mensageiro para “arrancar e destruir, para construir e plantar” (Jr 1,10). Por essa predileção divina, Jeremias agora deve enfrentar as constantes perseguições e, neste caso, a prisão (Jr 20).

O profeta – em sentido pleno – confessa-se diante dessa situação de sedução. Ele diz ter se tornado causa de zombaria e de riso (v. 7b), mas é corajoso e sempre deve gritar: “violência, opressão” (v. 8). É válido recordar que a atividade profética se baliza pelo verbo denunciar – neste caso, para acusar os perversos de toda opressão praticada. Jeremias ainda afirma que a Palavra de Deus se tornou para ele vergonha e gozação todo o dia (v. 8b). Por fim, no v. 9, diz: “Pensei: ‘Nunca mais hei de lembrá-lo, não falo mais em seu nome’”. Contudo, a força divina que o atrai é muito superior, e o profeta, enfim, diz que há em seu coração um fogo devorador. Tenta desistir, mas não é capaz (v. 9).

2. II leitura (Rm 12,1-2)

 

A carta aos Romanos é considerada a carta magna de Paulo, de sua maturidade pastoral e teológica. Foi destinada a uma comunidade que o apóstolo não teria fundado por sua obra missionária, mas pela qual tinha apreço, por causa das pessoas que lá residiam. Paulo terá seu fim trágico em Roma, onde será martirizado. A essência da carta aos Romanos é, indubitavelmente, a justificação advinda pela fé. A fé é a base soteriológica para o cristão, que, incorporado à Igreja, corpo de Cristo, se salva, não obstante o apego às obras. Estas corroboram  a fé e, portanto, conduzem também à salvação. Por essa razão, nesta seção de Romanos, sobrea vida cristã e os serviços vividos na comunidade, Paulo convida os destinatários de sua carta a viver pela misericórdia, a oferecer o corpo em sacrifício vivo (v. 1). Para ele, essa doação de si, como sacrifício vivo, santo e agradável, corresponde a um verdadeiro culto a Deus. No segundo versículo, em tom parenético, exortativo, convida-os a não se conformarem com este mundo, mas a transformá-lo pela renovação da mentalidade, a fim de que possam discernir o bem do mal.

3. Evangelho (Mt 16,21-27)

 

Nos sinóticos, encontramos três anúncios em que Jesus mesmo prediz sua morte e ressurreição. Trata-se, para a arte narrativa, de uma prolepse (anúncio antecipado do que deve acontecer no futuro próximo; algo que historicamente já aconteceu, mas, na arte narrativa, é situado antes do evento). Essa tradição, ao longo dos Evangelhos, evidencia o querigma fundamental da fé cristã: o anúncio da morte e ressurreição de Jesus, o cumprimento dos desígnios do Pai. Esta passagem, advinda da tradição de Marcos (Mc 8,31-33), é também conhecida como o primeiro anúncio da paixão.

Encravado entre a profissão de fé feita por Pedro, em Cesareia de Filipe (16,13-20), e a transfiguração de Jesus (17,1-9), o texto bíblico deste domingo pode ser dividido em três partes, para melhor compreensão: a primeira parte, o v. 21, no qual Jesus mostra aos discípulos que ele deveria ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, morrer e, ao terceiro dia, ressuscitar. Essa parte relaciona Jesus à figura do Servo de Adonai, conhecido na teologia de Isaías como o Servo sofredor (ebed Adonai). Marcos, Mateus e Lucas seguem essa teologia do Servo, o Filho de Deus, que entrega sua vida pelo resgate de muitos (Mc 10,45). A segunda parte, v. 22-23, evidencia o contrassenso de Pedro de querer ensinar seu próprio Mestre (didáskaloi).

Jesus coloca Pedro no seu lugar – de discípulo –, dizendo: “Vai para trás de mim, satanás” (paralelo em Mc 8,33). Pedro é desafiado por Jesus a pensar como Deus, a ter os mesmos pensamentos de Deus, não os pensamentos humanos de ostentação, poder e glória. A terceira parte, v. 24-27, apresenta um ensinamento, fruto dessa decepção e desapontamento vividos com Pedro. Como clímax da narrativa, Jesus os ensina a segui-lo e a negar a si mesmos, tomando a cruz e seguindo seus passos (v. 24).  Para Jesus, quem quiser salvar a própria vida deve perdê-la, em vista do Reino. Essa terceira parte,de ensinamento, contém sentenças que dão sentido à vida do discípulo, seguidor dos passos do Mestre. Sendo fiel, o discípulo receberá do Filho do Homem, figura escatológica, a recompensa pela sua fidelidade.

 

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

 

Mostrar a relação entre as três leituras, destacando que ser profeta é testemunhar com a vida, com o próprio corpo, a fidelidade a Deus, no caminho do discipulado de Jesus. Recordar que somos profetas para denunciar as injustiças e anunciar o direito e a justiça de Deus. Enfatizar a força do convite de Jesus a Pedro: “Vai para trás de mim”, no qual se evidencia nossa relação de discípulos com o Mestre, embora assumamos na Igreja funções hierárquicas de serviço-poder. Ressaltar que, neste mês da Bíblia, somos

Junior Vasconcelos do Amaral*

*Pe. Junior Vasconcelos do Amaral é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG. Doutor em Teologia
Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seu doutorado
na modalidade “sanduíche”, estudando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Bélgica). É
professor de Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e publicou vários artigos sobre o Evangelho de Marcos
e a paixão de Jesus em perspectiva narratológica. E-mail: [email protected]