Roteiros homiléticos

31 de agosto – 22º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por

O SEGUIMENTO DE JESUS

I. INTRODUÇÃO GERAL

Pedro apóstolo, mesmo depois de sua indicação como chefe da comunidade de Jesus (evangelho de domingo passado), não entendeu que o caminho de Jesus é o caminho da abnegação de si – se preciso, até a morte. Se nem mesmo Pedro compreendeu isso, o que dizer da sociedade atual! A liturgia de hoje nos convida a refletir sobre a missão da comunidade de Jesus num mundo dominado pela realização imediata do desejo.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Jr 20,7-9)

O primeiro texto da liturgia da Palavra de hoje apresenta o profeta Jeremias “seduzido” por Deus para um trabalho ingrato. Já desde o início, Jeremias não gostou da vocação profética (cf. 1,6). Seu temperamento sensível não era o de um lutador contra os abusos religiosos e sociais de seu tempo e, sobretudo, não servia para proclamar as catástrofes que viriam sobre Judá. Aliás, essas catástrofes se faziam esperar, mas não assim o escárnio e a perseguição que caíram sobre o profeta! Por isso, o profeta chega a amaldiçoar sua própria existência (cf. 15,10-21). Mas, sempre de novo, sua revolta o reconduz a seu Senhor.
Hoje em dia, há muitos que passar por profetas. Mas ser profeta não é fácil, tampouco seguir um profeta. Jeremias descreve sua vida de profeta como uma sedução. “Entrei numa fria”, diríamos hoje. Desde o começo, foi um tanto recalcitrante (cf. 1,6). Até quis fazer greve (cf. Jr 20,9), mas a voz de Deus era como um fogo ardente no seu peito. Não conseguia reprimi-la… Tal é a sorte do profeta. Deus não deixa o profeta em paz quando tem uma mensagem desagradável a ser transmitida. O profeta, sempre de novo, deverá ferir os ouvidos.
2. Evangelho (Mt 16,21-27)
Com a profissão de fé messiânica, apresentada na liturgia de domingo passado, relacionam-se, nos três evangelhos sinóticos, a predição da paixão e o tema do seguimento de Jesus no sofrimento. Pedro mostra-se novamente porta-voz, mas, desta vez, da incompreensão diante do mistério. Que o Messias e sua Igreja devem sofrer é um ensinamento difícil de compreender e que terá de ser repetido e aprofundado sempre de novo.
Jesus sabia que esse era o seu caminho. Sabia que sua visão de Deus e do mundo não concordava com aquilo que o povo esperava, sobretudo os chefes. Pois é grande a diferença entre uma religião que só busca comprar o benefício de Deus (e, se possível, o céu) e uma fé que incansavelmente procura a vontade de Deus (seu incansável amor)! Quem não se quer converter da falsa segurança não pode tolerar a presença do incômodo profeta de Nazaré.
Simão Pedro, o mesmo que, pouco antes, proclamara a fé em Jesus Messias e, por isso, se tornara o responsável dos seus irmãos, ainda não entendia a sorte do profeta. Pensava ainda em termos de sucesso, não em termos de cruz. Afinal, é agradável termos igrejas cheias, obras funcionando bem, entrevistas na TV etc. Mas quem acha isso mais importante do que a fidelidade à Palavra de Deus – mensagem amarga, que deve ser proclamada até o fim – não é digno de Jesus Cristo. É um “adversário” dele (em hebraico, um “satanás”). Para seguir Jesus, é preciso sentir o que Deus sente e não o que as pessoas acham…
A partir daí, Jesus começa a falar do seguimento. Seguir Jesus é renunciar a si mesmo, isto é, aos próprios conceitos feitos e acabados. É assumir a própria cruz, a condenação humana, a degradação total… Diante da exigência da missão profética, querer salvar-se é perder-se (deixar de se realizar na missão de Deus). No modo como hoje traduzimos o texto, Jesus fala em “perder sua vida”, mas na língua original se dizia: “perder sua alma”, significando “alma” a vida em toda a sua profundidade e totalidade. Jesus não apregoa o desprezo da vida corporal em favor de uma alma puramente espiritual, como às vezes se entende a expressão “salvar a alma”. Corpo e alma constituem uma unidade, o ser humano que interessa a Deus inteiramente! Salvar a alma é realizar a própria vida autenticamente. E com “perder sua alma/vida” (aos olhos humanos), Jesus quer dizer: arriscar toda a sua vida. Arriscando-nos inteiramente por Jesus, salvamos nossa alma/vida de verdade e nos realizamos como filhos e filhas de Deus.
A fidelidade à mensagem de Deus nos põe diante de uma escolha: garantir o sucesso aos olhos do mundo (ganhar o mundo todo, que é, no fundo, perder a própria alma/vida) ou ganhar a própria alma/vida diante de Deus. Devemos escolher entre uma realização superficial (diante das pessoas) e a realização radical de nossa vida (diante de Deus). Ora, que podemos dar em troca dessa realização radical? E esta, que pode pôr em jogo até a nossa vida corporal, será sancionada pelo próprio Jesus, que entrou na glória porque pôs em jogo sua vida por nós.
Quem descobre a visão de Deus sobre a realidade (sobre a estrutura socioeconômica, a estrutura religiosa, o abuso ecológico, o esbanjamento dos bens vitais, o cinismo da guerra, a usurpação dos direitos humanos, o desprezo da verdade – tudo o que está em desacordo com Deus) fica, como os profetas, “assombrado” pela mensagem de Deus: só consegue “desfazer-se” dela proclamando-a… e correndo o risco da rejeição. A não ser que sufoque a própria alma num suicídio espiritual.
Neste evangelho, Jesus anuncia sua paixão e morte. Devemos entender bem isso. Jesus sabia que o esperava uma morte de profeta. Mas ele não procurava a morte. Ele morreu porque a fidelidade à palavra do Pai o levou a isso. Se os homens se tivessem convertido à sua palavra, ele não teria sofrido (cf. Mt 26,39-42)! Enfrentou até o fim a “dureza de coração” da humanidade, para dar seu testemunho do amor infinito de Deus.

3. II leitura (Rm 12,1-2)

Nos capítulos 1 a 11 da carta aos Romanos, Paulo descreveu a salvação pela graça de Deus (e pela fé do ser humano). Diante dessa “misericórdia de Deus” (Rm 12,1, início do trecho de hoje), Paulo propõe uma prática de vida que é o “culto razoável”, adequado: as recomendações morais de Rm 12-14. Falando segundo a compreensão judaica, Paulo compara a vida com um sacrifício. Sacrifício não é necessariamente destruição ou negação; significa que algo é transformado pela santificação. Nesse sentido, a vida do cristão é santificada, já não é como a do mundo. O cristão é crítico em relação ao mundo: assume o que é valioso e rejeita o que não o é. Assim, encarna a ação salutar de Cristo no mundo. Esta leitura de Rm 12,1-2 recebe uma luz particular do evangelho de hoje: oferecer-nos como hóstias vivas a Deus não é desprezar a nós mesmos, mas é “culto razoável”, cultivo coerente e consequente da vontade de Deus – sermos plenamente seus (seu povo, seus filhos, seus profetas), não nos conformando a este mundo, mas procurando conformidade com a vontade de Deus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO: tomar a cruz e seguir Jesus

“Tomar a cruz e seguir Jesus”: essa é a lição do evangelho de hoje. Mas o que o mundo nos ensina é outra coisa. Hoje em dia não se tolera nada que restrinja o prazer e o poder: “É proibido proibir”. Privar-se de algum prazer é contrário ao que ensinam os grandes doutrinadores da sociedade – a publicidade, a televisão… “Chega desse cristianismo triste! Para que falar em cruz e sacrifício?”

No domingo passado, vimos que Pedro, com entusiasmo, proclamou a fé em Jesus Messias. Mas, no evangelho de hoje, Jesus começa a ensinar que “o Filho do homem” vai sofrer e morrer. Ao ouvir essas palavras, Pedro fica indignado. Jesus o repreende, porque pensa segundo categorias humanas e não segundo o projeto de Deus. E ensina-lhe que, para segui-lo, é preciso assumir a cruz. Séculos antes, Jeremias já experimentara a estranha lógica de Deus. Ele disse abertamente que Deus o “seduziu” para a tarefa ingrata de ser profeta (1ª leitura).
Os critérios humanos se opõem ao modo de proceder de Deus. O ser humano envereda pelo sucesso e pela eficiência, Deus pelo dom da própria vida. O caminho de Jesus e de seus seguidores é convencer o mundo do amor de Deus.
Deus não deseja “sacrificar pessoas” (como é praxe em estratégias militares, políticas e, mesmo, empresariais e acadêmicas…). Apenas deseja que sejamos testemunhas de seu projeto. Mas os que não concordam com esse projeto matam os profetas e os enviados de Deus que querem ser fiéis à sua missão. Exemplos disso não faltam em nosso mundo. Por isso, quando Pedro protesta contra a ideia da morte de Jesus, este o vê ao lado do grande “adversário”, satanás: “Vai para trás de mim, satanás, tu és uma pedra de tropeço para mim”. Pedro deve ir atrás de Jesus, em vez de desviá-lo para um caminho que não condiz com o projeto de Deus (satanás significa sedutor). Pedro pensava num Messias de sucesso, Jesus pensa no Servo Sofredor de Deus, que liberta o mundo por sua dedicação e pelo dom de si próprio até a morte.
A lição que Pedro recebe ensina-nos a olhar para Cristo, para ver nele a lógica de Deus; ensina-nos a olhar para os pobres, vítimas da estratégia do Adversário… Pois a sede de poder e a ganância produzem os porões da miséria.
Devemos analisar o sistema de Deus e o sistema do Adversário hoje. O sistema de Deus proíbe ao ser humano dominar seu irmão, porque Deus é o único “dono”; os sistemas contrários são baseados na dominação do ser humano pelo ser humano. Quem quiser ser mensageiro do Reino de Deus experimentará na pele a incompatibilidade com os sistemas deste mundo (2ª leitura). O mensageiro de Deus, seguidor de Jesus, será rejeitado pela sociedade como “corpo alheio”. Tomando consciência disso, vamos rever nossa escala de valores e critérios de decisão. A mania do sucesso, o prazer de dominar, de aparecer, de mandar… já não valem. Vale agora o amor fiel, que assume a cruz, até o fim.