Roteiros homiléticos

3º Domingo da Quaresma – 24 de março

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

Certa vez, Jesus passou diante de uma figueira e percebeu que nela não havia fruto algum. Depois de um tempo, passou novamente e, mais uma vez, não encontrou absolutamente nada. Qual é a utilidade de uma árvore frutífera que não produz frutos? Às vezes, quando restringimos essa experiência de Jesus ao universo das árvores, pouco nos incomodamos. E se, porém, em vez de árvores, pensássemos que Jesus está diante de cada um de nós à procura de frutos? Qual seria a ação dele?

II. Comentários aos textos bíblicos

1. I leitura: Ex 3,1-8a.13-15

Estamos no monte Horeb (também conhecido como Sinai), “a montanha de Deus”. Nesse local, Moisés viverá uma experiência extraordinária, que o marcará para o resto da vida. Ele é atraído pela manifestação divina e não acredita no que seus olhos veem: um arbusto que queima e não se consome. Nesse momento, contudo, recebe uma advertência: deve tirar as sandálias dos pés, porque o lugar em que se encontra é terra santa. Moisés é um errante que está fugindo de si e dos outros. Contudo, nesse encontro, Deus lhe reaviva a memória, dizendo: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”. Não era um deus ligado ao império egípcio, que promovia escravidão e morte; não era uma divindade que legitimava os atos violentos do império.

O Deus que falara com os antepassados de Moisés continuava falando. Agora, fala dentro de uma situação de profunda dor: “Vi a aflição do meu povo… Ouvi seu clamor por causa dos opressores, conheço-lhe o sofrimento e por isso desci para libertá-los”. Moisés é chamado por Deus para ser parceiro no processo de libertação.

Qual é a grande e surpreendente descoberta de Moisés? Depois de tantos anos na corte egípcia e de tantos outros como pastor, aprende que Deus está atento ao sofrimento do povo. Não é somente um Deus que fala. Trata-se de um Deus que ouve e age; que não permanece numa zona de conforto, enquanto o povo sofre toda sorte de violências que antecipam a morte. Além disso, é um Deus que vê o que acontece com os escravos: seus olhos estão voltados para os que sofrem, para as vítimas do reino das trevas, representado, nesse momento, pelo império egípcio.

Deus desce, mas não como os deuses do faraó, que, ao descerem, permanecem ao redor daquele que tem o poder e promove seu reino à custa de milhares de vítimas. Deus desce em direção à periferia do Egito e se solidariza com os oprimidos; identifica-se com os escravos e cria para eles nova possibilidade histórica numa terra que mana leite e mel, onde poderão construir nova sociedade, caracterizada por relações que já não sejam marcadas pela violência e pela escravização, e sim pela solidariedade e pela fraternidade.

2. II leitura: 1Cor 10,1-6.10-12

Há, na segunda leitura, clara orientação de Paulo aos coríntios: devem caminhar recordando a história da salvação. Para isso, o apóstolo segue uma ordem: nuvem (cf. Ex 13,21), mar (cf. Ex 14,21), maná (cf. Ex 16,4), água (cf. Ex 17,6), revolta (cf. Ex 32,6). A caminhada da libertação do povo havia sido marcada pela ambiguidade; por isso, ao fazer memória da história, Paulo deseja reavivar os coríntios e comparar a história da peregrinação pelo deserto com a experiência atual da comunidade. Pedagogicamente, demonstra que os crentes coríntios poderiam cair em adversidades tão fortes quanto as dos israelitas no deserto.

Paulo faz belíssima releitura da história de Israel, para atualizá-la na comunidade de Corinto. Assim, a nuvem e o mar prefiguram o batismo; o maná e a água da rocha simbolizam a presença constante de Cristo, que acompanha as comunidades. Profundamente realista, Paulo não faz somente boas comparações, mas passa a aplicar à realidade do povo de Deus em Corinto os fatos negativos do deserto, a saber: não cair na cobiça (v. 6), na idolatria (v. 7), na impureza (v. 8), na tentação a Deus (v. 9) e na murmuração (v. 10). O que determina a vida cristã não é a autossuficiência, mas a atitude de dependência diante de Deus.

3. Evangelho: Lc 13,1-9

A parábola tem como função principal causar certo impacto no ouvinte e arrancar uma resposta. Não há, diante de uma parábola, a possibilidade de ficar neutro; é necessário que o ouvinte responda! Na parábola da figueira estéril, encontramos três referenciais: o dono da parreira, Deus; o cultivador de uvas, Jesus; a figueira estéril, o povo judeu.

A audiência dessa parábola eram os judeus que, apesar de sua pompa religiosa, deixavam de lado o espírito de arrependimento. Eles achavam que, pelo simples fato de morarem em Jerusalém, seriam superiores a todos os outros, assumindo um comportamento radicalmente condenado por Jesus (cf. Lc 13,4-5).

Aquela figueira era marcada pela esterilidade. Nos três primeiros anos, esperava-se que a árvore crescesse (cf. Lv 19,23). No entanto, já eram passados seis anos (cf. v. 7) do seu plantio e, como não produzira nada, confirmando sua esterilidade, não cumpria sua missão. Há um propósito específico para a figueira, assim como há para cada diferente árvore frutífera. No caso da figueira, seu propósito consiste em produzir figos. Para a da parábola, não bastava fazer sombra e abrigar pássaros. Afinal, qualquer árvore podia abrigar pássaros em seus galhos e fazer sombra. Aquilo que era específico da figueira, próprio de sua natureza, ou seja, produzir figos, não acontecia.

A natureza de uma árvore é conhecida pelos frutos que produz (cf. Mt 7,16). À semelhança da figueira estéril, os judeus, chamados por Deus para testemunhá-lo, não estavam exercendo sua missão. Ao contrário, com sua falsa religiosidade, impediam que as pessoas se relacionassem com Deus. Não se apresentavam, portanto, como elos de comunhão, e sim como empecilhos. Neles não se encontravam o perdão (cf. Mt 18,35), a misericórdia (cf. Mt 9,13) e a justiça (cf. Lc 11,42).

O drama vivido pela figueira não se relacionava com a qualidade de sua sombra nem, muito menos, com a beleza de suas folhas. O problema estava na ausência permanente de frutos. A árvore é conhecida pelos frutos que produz, e a ausência de frutos impede a verdadeira identificação de sua natureza. Nesse caso, ela perde seu sentido de existir; torna-se inútil.

O problema da esterilidade da figueira não estava, portanto, em sua aparência, e sim na sua raiz, no seu coração. O viticultor (Jesus) acena com esperança para recuperar a figueira estéril, dando tratamento às raízes. Sem dúvida se trata de ação recheada de esperança e graça. Jesus se apresenta como o cultivador que quer fazer algo excepcional e não costumeiro, ou seja, quer tentar a última ação possível. Não se trata necessariamente de uma declaração de julgamento, mas sim de conversão. A misericórdia de Deus chega a ponto de suspender a decisão de castigar que já fora tomada. Em Jesus encontramos profunda graça e misericórdia, que faz nosso coração se converter e produzir frutos em abundância.

III. Pistas para reflexão

Pelo fruto os conhecereis, disse certa vez Jesus. Uma árvore boa não pode produzir frutos ruins, e uma árvore ruim não pode produzir frutos bons. Se estamos inseridos em Jesus, damos bons frutos. Trata-se, no final, exatamente disto: qual o fundamento de nossa vida? Quais frutos produzimos por causa de nossa dependência do Senhor? Com que tipo de árvore somos assemelhados? Será que não vivemos marcados pela esterilidade e as pessoas não encontram fruto algum em nós?

– O Deus que se revela nas Escrituras não é um iceberg. É um Deus que se relaciona e, por isso, vê, conhece, ouve e visita seu povo, para libertá-lo. Não se trata de um Deus insensível, que se acomoda numa zona de conforto. Ele está atento ao sofrimento do seu povo e age a favor dele. Deus não é marcado pela passividade e pela apatia. Nele encontramos ação libertadora e coração generoso.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Luiz Alexandre Solano Rossi é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br