Roteiros homiléticos

Publicado em janeiro-fevereiro de 2024 - ano 65 - número 355 - pp.: 52-54

4 de fevereiro – 5º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*

“Jesus, todos estão te procurando!”

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia deste domingo nos coloca diante das fragilidades humanas e, ao mesmo tempo, diante da potencialidade divina revelada em Jesus, o Filho de Deus. Se Jó representa a humanidade limitada e sofredora, por conta da triste realidade em que está inserida, o Evangelho descortina a face de Deus em Jesus, aquele que todos nós estamos procurando. Jesus é o taumaturgo do Pai, que passa por Cafarnaum, e também por nossa vida, fazendo o bem. É preciso, porém, que o busquemos de coração. Na segunda leitura, Paulo nos lembra da imperiosa necessidade de evangelizar, sobretudo com nossa vida e, se preciso for, com nossa pregação.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Jó 7,1-4.6-7)

Inserido no primeiro ciclo dos discursos alternados entre Jó e seus amigos, o texto da primeira leitura corresponde a um trecho existencial, no qual o autor questiona sobre a finitude e o sofrimento humano: “Não é a vida de um homem trabalho e luta sobre a terra?” (v. 1). O texto de Jó está ligado à tradição sapiencial, que traz à tona questões sobre a finitude, a vida, o sentido da existência humana e, sobretudo, a oferta de bom senso, que seria o estado de sabedoria (em hebraico, shokmah), com as quais o ser humano deve lidar. Essa sabedoria é o bom direcionamento de suas ações em relação a Deus, ao próximo e a si mesmo.

“Se me deito, penso: quando virá o dia?”; e quando chega o dia, o ser humano já pensa na noite. Jó está falando sobre o sentimento que perpassa seu ser e também o da humanidade: a insatisfação, fruto da finitude, entremeada à angústia. Além de a vida passar rapidamente, ela pode ser comparada a um sopro, a um hebel, fumaça. Essa palavra é a mesma utilizada por Qohélet, o autor do livro do Eclesiastes, para dizer vaidade – do latim vanitas. Aparentemente pessimista, na verdade Jó é um realista que vê sua vida passar, como a vida do povo que passa por altos e baixos, por liberdade e exílio. É preciso, contudo, dar sentido à vida, às pequenas e boas experiências que somos capazes de viver, entre ciclos e estações.

2. II leitura (1Cor 9,16-19.22-23)

A primeira carta aos Coríntios é fruto da maturidade de Paulo, de sua experiência narrativa de evangelizador. Por isso, ele diz (v. 16): “Evangelizar para mim não é um motivo de glória, de ensimesmamento ou vaidade, mas uma necessidade imperativa”, a qual lhe foi imposta pelo Senhor, desde o caminho para Damasco, quando se converteu a Jesus, a quem perseguia. Paulo conclui ainda nesse versículo: “Ai de mim se eu não evangelizar”. Constitui uma necessidade vital anunciar o Evangelho, a boa novidade de Cristo, seu amor salvífico pela humanidade. Paulo acredita que isso é para ele um cargo, uma missão que lhe foi confiada (v. 17). Seu salário consiste em anunciar o Evangelho, pois, por ele, o apóstolo também adquirirá a graça salvífica (v. 18). O Evangelho é, para Paulo, trabalho e sustento, caminho de salvação e possibilidade para muitos outros serem conduzidos a Cristo.

Em uma realidade que contrapõe, de forma clara, liberdade e escravidão, o apóstolo se vê livre para ser escravo de todos, a fim de comunicar o Evangelho de Cristo, levando outros à mesma libertação propugnada pela Boa-nova de Cristo. Paulo assumiu a fraqueza para ajudar os fracos a ganhar a fortaleza (v. 22). O apóstolo dos gentios se faz tudo pelo Evangelho, para ganhar, pelo mesmo Evangelho, a salvação. Ter parte na Boa-nova de Jesus é, para Paulo, uma necessidade, pois o Evangelho de Cristo é o próprio Cristo que vem salvar o mundo (v. 23). Tudo pelo Evangelho é o desafio para nós, evangelizadores do presente. Tomar parte nesse Evangelho é vivê-lo com nossa vida e, se for preciso, pregá-lo por palavras, como nos lembra São Francisco de Assis.

3. Evangelho (Mc 1,29-39)

A passagem do Evangelho de Marcos proclamada neste domingo apresenta um momento especial para Jesus: o dia de Cafarnaum. Trata-se de um dia que serve de paradigma narrativo e teológico para todos os demais dias da evangelização de Jesus. Após ter chamado seus quatro primeiros discípulos, o Mestre vai com eles para a casa de Simão, a quem posteriormente chamará Pedro, e seu irmão André. A casa é o segundo cenário para a ação taumatúrgica de Jesus em Marcos: primeiro foi a sinagoga – conforme o episódio do domingo passado –,
no interior da qual Jesus fez calar um espírito imundo que estava em um homem. Agora, os discípulos comentam com Jesus que a sogra de Simão, aquele discípulo que os recebia em casa, estava de cama e com febre. Jesus tocou-a com a mão, levantou-a e a curou. Em seguida, a mulher curada pôs-se a servi-los (diekonein é o verbo grego utilizado por Marcos).

À tarde (v. 32), levaram a Jesus todos os doentes, e ele expulsou os demônios que possuíam aquelas pessoas. Os demônios eram a melhor explicação para as doenças que não tinham diagnóstico confirmado pela ciência da época. Sem condições de obter um diagnóstico seguro, muitos eram considerados possuídos ou simplesmente amaldiçoados, por causa de seus pecados ou dos pecados de seus antepassados.

Na madrugada (v. 35), Jesus se dirigiu a um lugar deserto para orar. Orar era essencial para ele, a fim de continuar intimamente relacionado com aquele que o tinha enviado ao mundo, o Pai. Simão e os discípulos o procuraram a fim de que continuasse suas curas e milagres. Jesus, porém, respondeu: “Vamos para as outras aldeias e povoados da redondeza”. E acrescentou: “Pois foi para isso que vim”. Jesus passou por toda a Galileia, e sua fama se espalhou. Ele pregava nas sinagogas e expulsava os demônios (v. 39).

Para Marcos, o dia de Cafarnaum é indispensável para marcar a popularidade de Jesus. Trata-se de um dia revelatório da exousia de Jesus, do seu poder autorizado por Deus. Jesus é o taumaturgo do Pai, aquele que vem realizar a plenitude da criação. É o Messias por palavras e por obras. Ele ensina, cura e, gradativamente, vai aproximando cada vez mais as pessoas de Deus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Mostrar a relação entre as três leituras, destacando a primazia do amor de Deus revelado em Jesus, o Filho, que vem salvar o que está decaído e submerso no pecado. Evidenciar que a vida, embora seja difícil de ser vivida, como retrata a primeira leitura, deve ser tomada com a esperança e a fé que o Evangelho apresenta. Ajudar a comunidade a orar como Jesus, em meio às dificuldades do dia a dia, e convidar a todos para juntos evangelizarmos, sobretudo os fracos e pecadores, os vulnerabilizados.

Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*

*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), realizou parte de seus estudo de doutorado na modalidade “sanduíche”, cursando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor na PUC-Minas, em BH, e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]