Roteiros homiléticos

Publicado em maio–junho de 2020 - ano 61 - número 333 - pág.: 40-42

4º Domingo da Páscoa – 3 de maio

Por Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues

O Cristo ressuscitado é pastor e porta que conduz à vida em abundância

I. Introdução geral

Todos os anos, a liturgia do 4º domingo da Páscoa utiliza um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, o que justifica o título de “domingo do Bom Pastor” atribuído a este dia, uma vez que, no referido capítulo, Jesus é apresentado como o “Bom Pastor”.

A imagem do pastor sempre foi muito cara a Israel, um povo de origens ligadas à vida pastoril. Por isso, desde o Antigo Testamento foi aplicada a Deus, o pastor por excelência, e às lideranças políticas e religiosas. Essa imagem está explicitamente presente na liturgia de hoje no salmo, na segunda leitura e no evangelho. Implicitamente, é possível identificá-la também na primeira leitura, pois aceitar o Ressuscitado como Senhor e Cristo é, acima de tudo, reconhecê-lo como pastor.

Oportunamente, o papa São Paulo VI instituiu este domingo também como o “dia mundial de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas”, conferindo grande responsabilidade à Igreja ao celebrar este dia: reconhecer o pastoreio único do Cristo ressuscitado e ajudar a suscitar homens e mulheres para viver e agir à sua maneira, cuja característica principal é a capacidade de amar em profundidade, a ponto de dar a vida pelo outro (cf. Jo 10,11).

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: At 2,14a.36-41

A primeira leitura é a continuação do discurso de Pedro no dia de Pentecostes, cuja leitura foi iniciada no domingo passado. Embora o discurso seja atribuído ao apóstolo, sua construção é obra de Lucas, o autor do livro, e apresenta os elementos essenciais da primeira pregação apostólica, cujos destinatários principais eram judeus, como atesta o próprio texto: “Que todo o povo de Israel reconheça com plena certeza” (v. 36a).

Como a ressurreição foi anunciada com bastante ênfase nos versículos anteriores, conforme a leitura do domingo passado (2,14a.22-33), no trecho lido hoje é apresentada a necessidade de conversão como consequência do reconhecimento de que Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado, foi constituído por Deus como Senhor e Cristo, quer dizer, como Messias (cf. v. 36b).

Ao dizer que os ouvintes “ficaram com o coração aflito” (v. 37a), o autor alude ao remorso de terem sido responsáveis pela crucifixão e, ao mesmo tempo, ensina que o anúncio do Cristo ressuscitado é irresistível: é impossível ficar indiferente a essa maravilha realizada por Deus. Daí a pregação se torna praticamente um diálogo com a assembleia, o que reflete provavelmente uma fórmula litúrgica utilizada durante o rito de admissão ao batismo na época da redação do livro dos Atos dos Apóstolos: após a homilia, os ouvintes perguntavam o que deveriam fazer (cf. v. 37b), e o pregador respondia com um programa composto de três etapas fundamentais – a conversão, o batismo e a abertura ao dom do Espírito Santo (cf. v. 38) –, como exigências concretas para a adesão plena a Jesus Cristo.

Essas exigências, inicialmente apresentadas aos judeus, são destinadas à humanidade inteira (cf. v. 39). Diante da salvação ofertada por Deus por meio do seu Filho, o ser humano é chamado à conversão, o que significa uma mudança de mentalidade para acolher o Espírito Santo e viver nova vida, assimilando os ensinamentos e o comportamento de Jesus. E o batismo é a porta de entrada para a nova vida em Cristo, a vida em abundância que ele mesmo anunciou no evangelho (cf. Jo 10,10).

A conclusão (cf. vv. 40-41), mais do que descrever fatos concretos, revela o otimismo do autor e funciona como um estímulo aos pregadores futuros: o anúncio coerente do Ressuscitado, compreendendo o testemunho, é capaz de transformar corações e estruturas.

2. II leitura: 1Pd 2,20b-25

A primeira carta de Pedro, da qual é tirada a segunda leitura desta celebração, foi escrita no final dos anos 80 d.C., provavelmente em Roma, por um discípulo do apóstolo Pedro. É uma espécie de homilia destinada aos cristãos recém-batizados, especialmente aos da Ásia Menor, que enfrentavam dificuldades na vivência do evangelho. Essas dificuldades eram causadas tanto por conflitos internos nas comunidades quanto por perseguições externas.

O trecho lido neste dia foi construído à luz do Quarto Cântico do Servo Sofredor (cf. Is 53,4-12); nele, o autor descreve o exemplo de Jesus diante do sofrimento, exortando os cristãos a fazer o mesmo (cf. v. 21). O batismo agrega na mesma comunidade pessoas que antes poderiam ter vivido conflitos entre si. Uma vez batizadas, isto é, introduzidas na comunidade, todas as pessoas devem assumir a postura de Jesus, que sofreu por ter feito o bem (cf. v. 20b), sem jamais recorrer à violência (cf. v. 23). A resposta cristã ao mal só pode ser o bem, mesmo diante do sofrimento. Não se trata de mensagem de resignação, mas de esperança; é um chamado a viver o amor acima de tudo e a acreditar na sua força transformadora.

Diante disso, além de modelo a ser imitado, Jesus é reconhecido como o autêntico pastor que resgatou a todos da condição de ovelhas desgarradas (cf. v. 25), levando-os à condição de pessoas livres e justas, por ter carregado sozinho o pecado de todos (cf. v. 24). Como pastor que ama incondicionalmente, mesmo perseguido e ultrajado, sua resposta é sempre o amor. É assim, portanto, que devem agir também os cristãos.

3. Evangelho: Jo 10,1-10

O capítulo 10 do Evangelho segundo João é marcado pelo uso abundante da imagem do Bom Pastor aplicada a Jesus. O evangelho deste dia corresponde aos dez primeiros versículos desse capítulo, no qual Jesus se apresenta também como a porta das ovelhas, reforçando a sua identidade de único mediador entre Deus e a humanidade. Para compreender melhor todo o capítulo, sobretudo o trecho lido nesta celebração, é necessário recordar alguns elementos do capítulo anterior. Após ter curado um cego de nascença (cf. 9,1-7), Jesus foi hostilizado por alguns fariseus (cf. 9,13-16), que não aceitavam a origem divina da sua autoridade (cf. 9,16.29) e contestavam a veracidade da cura. O evangelho deste dia, portanto, faz parte da resposta de Jesus aos fariseus, os verdadeiros cegos (cf. 9,39-41).

A solene fórmula de introdução “em verdade, em verdade” do v. 1 (em grego: amén, amén) indica a importância do que será ensinado; significa que se trata de catequese vital para a comunidade cristã, como de fato essa é, pois diz respeito à própria identidade de Jesus enquanto único pastor credenciado pelo Pai para cuidar do rebanho. Assim, em uma pequena parábola, construída segundo um paralelismo antitético, Jesus contrapõe o comportamento do pastor ao do ladrão e assaltante (cf. vv. 1-5). Com essa comparação, ele acusa os dirigentes políticos e religiosos do seu tempo de agirem como ladrões, alertando a comunidade para não se deixar enganar. Só é autorizado a cuidar do rebanho quem entra pela porta (cf. v. 2), o pastor verdadeiro que é ele mesmo, pois foi enviado pelo Pai. Enquanto os líderes de Israel exploravam e oprimiam o povo, Jesus afirma que ser pastor é estabelecer uma relação familiar com as ovelhas, mediante a escuta que gera confiança (cf. v. 3); é promover a libertação das ovelhas e arriscar-se por elas, caminhando à sua frente em busca de liberdade e dignidade (cf. v. 4). Quando o pastor é autêntico, as ovelhas não se perdem, porque conhecem e escutam somente a sua voz (cf. v. 5); essa voz é o evangelho, por meio do qual Jesus fala em todos os tempos.

A não compreensão dos interlocutores de Jesus (cf. v. 6), os fariseus, só confirma a cegueira em que viviam (cf. 9,40-41). Diante disso, Jesus passa a falar de maneira mais direta, em primeira pessoa, ainda que simbolicamente, apresentando-se como a porta das ovelhas (cf. v. 7). Assim, a denúncia contra os dirigentes de Israel se torna ainda mais dura, pois revela a ilegitimidade do poder exercido até então. São eles os ladrões e assaltantes a quem as ovelhas não devem escutar (cf. v. 8). Só tem credibilidade diante de Deus quem passa por Jesus, a porta (cf. v. 9). A imagem da porta representa, portanto, a sua condição de único mediador entre Deus e a humanidade. A dinâmica do entrar e sair, facilitada pela porta, é sinal de liberdade: quem passa por Jesus é pessoa livre, pode entrar e sair e encontra pastagem (cf. v. 9) – a vida em abundância que ele mesmo veio comunicar ao mundo (cf. v. 10). Essa vida em abundância é, na verdade, a vida livre, digna e plena de amor; não se trata de uma vida para o além, mas da realização plena do ser humano neste mundo.

III. Pistas para reflexão

As três leituras apontam para Jesus como o pastor autêntico e fonte de vida em abundância. Para participar dessa vida, no entanto, é necessário passar por ele mediante o batismo e a conversão contínua (I leitura), adotar o seu jeito de viver (II leitura), aceitá-lo como a única porta de acesso ao Pai e ouvir a sua voz (evangelho). Pedir oração por todas as vocações necessárias à edificação da comunidade cristã, especialmente pelas lideranças em atividade (bispos, presbíteros, religio-
sos/as e leigos/as), para que sejam promotoras de vida em abundância.

Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues

é presbítero da Diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife) e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN).