Roteiros homiléticos

4º Domingo da Páscoa – 12 de Maio

Por Rita Gomes

A constituição do rebanho do Senhor

I. Introdução geral

No domingo anterior, o evangelho apresentou a experiência do reconhecimento do Ressuscitado como o mesmo que fora crucificado, a exemplo do que ocorrera no domingo precedente, não permitindo assim um desvirtuamento da pessoa de Cristo. Neste 4º domingo da Páscoa, o tema do reconhecimento aparece, mas de modo diferente, menos central. Somos chamados a refletir não sobre a identidade do pastor, mas, sobretudo, sobre a identidade das ovelhas ou, simplesmente, do rebanho – embora a dinâmica de todas as leituras e também do salmo nos faça perceber algo sobre a identidade de ambos: pastor e rebanho.

II. Comentários dos textos bíblicos

1. Evangelho (Jo 10,27-30): O pastor conhece suas ovelhas

No evangelho deste dia, a primeira coisa que o texto nos traz serve de critério para a identificação das ovelhas desse rebanho particular: elas escutam a voz do pastor e o seguem. O texto diz algo também do pastor: ele conhece as ovelhas e lhes dá a vida – não qualquer uma, mas a vida eterna. Isso não é tudo. Do conhecimento do pastor em relação às ovelhas e do reconhecimento da voz do pastor por parte delas, decorre a compreensão de que elas nunca se perderão, não se extraviarão, nem ninguém poderá roubá-las, tomá-las de seu pastor.

O evangelho ainda assegura a posse das ovelhas por parte de alguém maior. Elas foram dadas pelo Pai e ninguém pode arrancá-las da mão dele. De algum modo, as ovelhas pertencem ainda ao Pai, são do Pai e do Filho, porque eles são UM. Não existe possessão de bens de um e de outro, mas uma única posse do Pai e do Filho, como bem lembrou Lucas na parábola do pai misericordioso, quando este se dirige ao filho mais velho e diz: “Tu estás sempre comigo e tudo que é meu é teu” (Lc 15,31). A unidade da qual fala o texto é a garantia de que as ovelhas que permanecem com o pastor, que é o Filho, permanecem na posse do Pai.

2. I leitura (At 13,14.43-52): O testemunho na sinagoga

Na primeira leitura, temos o testemunho de Paulo e Barnabé na sinagoga de Antioquia da Pisídia. Como bem indica o texto, era um dia de sábado, sagrado para os judeus. Num primeiro momento, a atuação deles parece bem discreta, mas na sequência se percebe uma mudança radical, apontada no texto pela indicação: “No sábado seguinte, toda a cidade se reuniu para ouvir a Palavra de Deus” (v. 44).

No entanto, os judeus, a quem primeiro se dirigiram os apóstolos, não acolheram o ensinamento, porque ficaram tomados de inveja quando viram a multidão que os ouvia anunciar. Diante da rejeição, os apóstolos se dirigem aos pagãos, que acolhem sua mensagem com muita alegria. Do anúncio de salvação em Cristo, testemunhado por Paulo e Barnabé, decorrem duas posturas: rejeição por parte dos judeus e alegre acolhida por parte dos gentios. Os que acolhem são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, reconhecem a “voz” do pastor na palavra pregada.

3. II leitura (Ap 7,9.14b-17): O rebanho reunido junto ao seu pastor

Na segunda leitura, encontramos novamente a questão do rebanho e do pastor. No entanto, a afirmação primeira se refere ao rebanho, às ovelhas que “lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro” (v. 14b), ou seja, àqueles que se ligaram existencialmente ao Cristo-cordeiro, o Crucificado. Por outro lado, a leitura fala da identidade do “pastor” como o Cordeiro. A imagem diz muito. O pastor das ovelhas, ou seja, do rebanho, é como um deles, é o Cordeiro. O pastor participa, de algum modo, da mesma condição de vida das ovelhas, o que permite não só o reconhecimento mútuo, mas também a confiança decorrente desse conhecimento.

III. Pistas para reflexão

Esta celebração, nas suas três leituras, fala ao mesmo tempo da identidade do pastor e da identidade das ovelhas ou do rebanho, bem como da ligação entre pastor e rebanho. O fio que os une é a escuta ou o ouvir, para ser mais fiel ao texto. Ouvir é o mandamento por excelência do povo de Israel e, no evangelho, aparece como o critério de reconhecimento: as ovelhas escutam a voz do pastor e, porque escutam, ele as conhece.

Na primeira leitura, novamente a escuta aparece como critério identificador, à diferença de que, ali, aqueles que têm por mandamento o “ouve, Israel” se recusam a ouvir a Palavra de Deus anunciada, enquanto os gentios, de quem não se exige tal conduta, a ouvem. Essa dinâmica de escuta e reconhecimento se completa na segunda leitura, que traz a imagem da recompensa dada àqueles que ouviram a voz do pastor e o seguiram. O Pastor-Cordeiro é o Cristo, divino-humano e, por isso, salvador desse rebanho.

A imagem do Cordeiro-Pastor nos diz muito sobre Jesus Cristo e sobre nós mesmos. É a perfeita imagem da relação única de Cristo com a humanidade. O nosso pastor não é alguém distinto de nós, mas alguém como nós. Ele participa da nossa condição e sabe para quais pastagens nos conduzir, a fim de chegarmos em segurança ao redil de Deus.

Rita Gomes

Ir. Rita Maria Gomes, nj, é natural do Ceará, onde fez seus estudos em Filosofia no Instituto Teológico e Pastoral do Ceará (Itep), atual Faculdade Católica de Fortaleza. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde lecionou Sagrada Escritura. Atualmente é professora na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, que tem como carisma o estudo e o ensino da Sagrada Escritura. E-mail: ritamarianj@gmail.com