Roteiros homiléticos

6 de janeiro – EPIFANIA DO SENHOR

Por Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

O MESSIAS SEM FRONTEIRAS

I. INTRODUÇÃO GERAL

A festa de hoje celebra o episódio narrado no capítulo 2, versículos 1 a 12, do Evangelho segundo Mateus. Esse evangelho veio de uma comunidade de cristãos judeus. Quer mostrar antes de tudo que, enquanto o poder político e religioso judaico ficou alarmado com a chegada de Jesus, os de fora, os de longe, os descrentes vêm fazer-lhe a mais sincera homenagem. Ele não é propriedade de um povo; veio para todos. Ainda hoje, quantas vezes quem não frequenta nossas igrejas nos dá lições práticas de verdadeiro cristianismo! Na eucaristia, celebramos Jesus, que se entrega em favor de todos para que todos participem como irmãos.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 60,1-6)

Nesse poema do livro de Isaías, o poeta celebra a sonhada volta dos que, um dia, foram levados cativos e, agora, retornam à pátria.

Jerusalém fica no alto de um morro. Quando o dia amanhece, a cidade recebe os primeiros raios do sol, enquanto, em volta, nos vales que descem para as planícies, está tudo escuro. Em seguida, parece que a luz refletida pela cidade vai clareando pouco a pouco toda a região que estava em trevas.

O espetáculo da natureza transforma-se em símbolo. Jerusalém, iluminada pelo sol que é a glória de Deus, projeta a luz e se torna centro de atração para todas as nações. E, agora, os que tinham sido levados como cativos e posteriormente se espalharam pelo mundo estão chegando a Jerusalém, vindos das mais distantes nações, celebrando a festa da volta para casa.

Saíram de mãos e pés acorrentados, mas não voltam de mãos vazias: trazem para Jerusalém as riquezas das nações. Como, segundo a tradição, a rainha de Sabá foi a Jerusalém conhecer a famosa sabedoria de Salomão, eles vêm de Sabá trazendo ouro e incenso para anunciar a Boa-nova das proezas de Javé.

Tudo conflui para Jerusalém e de lá vem a luz que ilumina as nações. Ela é o centro de atração e, ao mesmo tempo, está voltada para fora: “as nações caminham à tua luz, os reis, ao brilho do teu esplendor”.

Está aberto o caminho para entender o significado mais profundo da festa de hoje.

2. II leitura (Ef 3,2-3a.5-6)

Nessa leitura, encontramos também o principal significado da festa de hoje: Deus chama todas as nações à salvação que vem por meio de Jesus Cristo. Isso é chamado de mistério.

Mistério aqui não significa algo secreto, escondido ou ininteligível; mistério é um plano de Deus só agora revelado. Se ficou oculto às gerações anteriores, especialmente ao judaísmo, que se concebia como o único povo chamado à salvação, sempre esteve presente no pensamento de Deus.

A festa de hoje vem exatamente fazer conhecido esse projeto de Deus de chamar todos à salvação. É o mistério do Cristo, o plano divino que se realiza no Ungido, Messias ou Cristo Jesus, não um “salvador da pátria”, mas “o Salvador do mundo”.

3. Evangelho (Mt 2,1-12)

O episódio que vamos ouvir no evangelho é o motivo da festa da epifania. Pensemos no seu significado: os de casa tinham as Escrituras para entender quem era Jesus, mas ficam apavorados. Os de longe vêm prestar-lhe a mais sincera homenagem, vêm adorá-lo.

Na história do povo hebreu narrada na Bíblia, os profetas têm muitas vezes a missão de dizer às autoridades que o pensamento de Deus é diferente do que estão planejando ou fazendo. No ambiente gentio, especialmente na época em que foi escrito este evangelho, os magos é que sempre questionam os reis, as autoridades. Na observação dos astros ou da natureza, eles descobrem mensagens que criticam e condenam os poderosos, que mostram a estes rumos diferentes que, evidentemente, não são de seu agrado.

Os magos vêm do Oriente, do mundo gentio, não são judeus, não têm a Bíblia nem conhecem os profetas. Uma estrela diferente que viram no céu lhes diz que nasceu o esperado rei dos judeus. A notícia não vai agradar a Herodes, que, mais de 30 anos atrás, havia obtido do imperador Augusto o direito de se chamar Rei dos Judeus e, desde então, vinha governando a Palestina toda (Judeia, Samaria e Galileia) com mão de ferro.

Herodes não tem profetas. Tem os sumos sacerdotes e os escribas de Jerusalém, os responsáveis pela religião judaica estabelecida e acomodada, que nada querem de novo. Com Herodes, Jerusalém em peso fica alarmada com a notícia do nascimento do esperado rei dos judeus. O poder civil e o religioso estavam bem casados, inteiramente comprometidos um com o outro e apenas não queriam ser incomodados.

E eles tinham a Lei e os Profetas, ou seja, a Bíblia. Ali souberam encontrar a passagem de Miqueias a respeito de um humilde pastor, nascido na pobre aldeia de Belém, que seria o governante de todo o seu povo. Miqueias pensava, sem dúvida, em Davi, mas aqui sua palavra fala do Messias, do esperado rei dos judeus. Herodes e seus comparsas tinham certeza de que o Messias deveria nascer em Belém e enviam os magos para lá. Mas a notícia desse nascimento os apavora. A chegada do esperado causa desespero nos que detêm o poder político (Herodes) e dominam a religião (sumos sacerdotes) e o conhecimento bíblico (escribas).

A estrela que os magos tinham visto na sua terra agora aparece novamente. Guiados pela estrela, eles seguem de Jerusalém até Belém, aldeia de origem do rei humilde. O menino está em casa, não num estábulo, onde é o nascimento de Jesus segundo Lucas. Aqui o interesse não é tanto mostrar a pobreza de Jesus, e sim que ele é um messias sem fronteiras, um salvador para a humanidade inteira.

No Evangelho segundo Mateus, a casa é frequentemente símbolo da comunidade dos discípulos. Na casa, junto à sua mãe, Maria, Jesus é encontrado pelos magos, figuras dos gentios, os estranhos à nação, à religião e à lei judaica. Eles prestam a sua homenagem a Jesus, adoram-no e oferecem presentes àquele cujo nascimento apavorou os dirigentes do povo que detinham as esperanças nas promessas de Deus.

Alguns estudiosos quiseram ver no ouro não o metal precioso, mas uma resina amarela, “resina áurea”. Outros já dizem que o ouro não era privilégio dos reis, pois não era tão caro e raro como é hoje. Para o evangelista, talvez valha mais o significado de aqui estarem se realizando as palavras da 1ª leitura: “vêm trazendo ouro e incenso”.

Mestres dos primeiros séculos da Igreja, os Santos Padres viram na mirra o significado de morte, mortalidade – portanto, da humanidade de Jesus. Para o evangelista, porém, a mirra quer lembrar o seu uso nos textos bíblicos. Ligada sempre a um contexto nupcial, é o perfume da esposa (Sl 45(44),9; Ct 3,6; 4,14; 5,1; 5,13; Eclo 24,15). Jesus vem renovar a aliança, o casamento de Deus com a humanidade.

Os magos não voltam a Herodes, não lhe devem qualquer satisfação. Orientados por Deus, retornam diretamente para a sua terra.

Esse episódio do evangelho nasceu e se desenvolveu na comunidade cristã de Jerusalém, que, por ocasião da revolta judaica e da tomada do poder pelos revoltosos, saiu da cidade. O bom senso aconselhava a não entrar na loucura do enfrentamento direto com o império romano. Por isso, esses cristãos judeus saíram da cidade e até mesmo da Palestina. Mais tarde, os fariseus também vão sair de Jerusalém. Agora eles pretendem que todo judeu se torne fariseu. Assim, tornam-se os principais adversários dessa comunidade de judeus cristãos. Jesus ameaça o poder civil e religioso de Jerusalém e, ameaçado por ele, é figura do cristianismo nascente que nos deu esse evangelho.

A comunidade do Evangelho segundo Mateus, além disso, vê que muitos não judeus aceitam bem a mensagem de Jesus e tornam-se discípulos com maior facilidade do que os chefes fariseus e os líderes da revolta que tomaram o poder em Jerusalém. Os magos são figura dos que, mesmo sem um conhecimento prévio da Escritura, vêm à procura de Jesus e nele creem. O evangelho vê em Jesus um pouco da vida e da história daquela comunidade.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

– Ver Jesus em nossa vida, em nossa história. O espelho que serviu para as primeiras comunidades deve servir para nós hoje. Ver em Jesus a nossa vida, a nossa história.

– Ser capaz de reconhecer no diferente suas qualidades. Conscientizar-se, na prática, de que não somos donos de Jesus nem da verdade. Ter mente e coração abertos para quem procura Jesus com maior sinceridade e honestidade do que nós, que pensamos já tê-lo encontrado. Saber aprender de quem, a nosso ver, nada sabe.

– Reconhecer que nossa fé deve ser uma ameaça (“comungar é tornar-se um perigo”) para os Herodes de hoje e deve saber-se também ameaçada pela lei do mais forte, que governa o nosso mundo. Reconhecer que o salvador Jesus não combina com a salvação que vem do poder, do dinheiro, do consumismo. “Que acordo pode haver entre Cristo e Herodes?”

– Ser uma luz, uma esperança para a humanidade. Que as nações todas possam encontrar em nós, na nossa maneira de viver em comunidades, uma luz, um caminho para sair de suas constantes crises.

Pe. José Luiz Gonzaga do Prado

* Mestre em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma e em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico. Autor dos livros A Bíblia e suas contradições: Como resolvê-las e A missa: Da última ceia até hoje, ambos publicados pela Paulus. E-mail: zedadonana@gmail.com.