Roteiros homiléticos

6º domingo da Páscoa – 17 de maio

Por Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues

Virá o Espírito da Verdade

I. Introdução geral

A liturgia deste domingo já é uma preparação para a festa de Pentecostes, uma vez que os três textos fazem claras referências ao Espírito Santo, dom de Deus que é cumprimento e plenitude do mistério pascal na vida da Igreja e de cada cristão. No evangelho, Jesus promete aos discípulos o Espírito Santo como “Defensor” e “Espírito da Verdade”, e a condição para recebê-lo é a vivência do mandamento do amor. A primeira leitura mostra o cumprimento dessa promessa e as suas consequências práticas: os discípulos que receberam o Espírito Santo também o transmitem, gerando novas comunidades e fortalecendo-as na fé e na unidade. A segunda leitura exorta os cristãos a se manterem solícitos na esperança e perseverantes na prática do bem, mesmo quando são perseguidos, a exemplo de Cristo. É o Espírito Santo, portanto, quem sustenta a comunidade cristã na fidelidade ao Cristo ressuscitado.

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: At 8,5-8.14-17

A primeira leitura apresenta um momento novo na vida da Igreja. Até então, a sua presença estava reduzida à cidade de Jerusalém, onde a comunidade dos seguidores de Jesus crescia constantemente, graças à força do Espírito Santo e ao testemunho dos próprios cristãos (cf. At 2,41-47; 4,32-35; 6,7). O trecho lido mostra a primeira expansão para fora de Jerusalém: a missão na Samaria, chefiada por Filipe, um dos sete homens escolhidos para o serviço da assistência às viúvas de origem grega, como vimos no domingo passado. Essa missão foi motivada por uma perseguição desencadeada pelas autoridades judaicas contra a comunidade cristã, após o martírio de Estêvão (cf. At 8,1-4).

O primeiro destino da Igreja perseguida é uma região marcada por pouca ortodoxia e desprezada pelos judeus, a Samaria (cf. v. 5). Lá, o anúncio do evangelho é acolhido com entusiasmo e muitos prodígios são realizados, contagiando a comunidade de alegria (cf. vv. 6-8). Com essa primeira descrição da ação evangelizadora de Filipe, o autor do texto faz um paralelismo entre a missão da Igreja e a missão de Jesus, o qual também procurava regiões discriminadas e quase heréticas na medida em que era rejeitado pelos judeus mais observantes da Lei. Tal paralelismo é ainda mais acentuado na descrição dos prodígios realizados, praticamente os mesmos que Jesus fazia: a expulsão de espíritos maus e a cura de paralíticos e aleijados. Com isso, o autor ensina que a Igreja é a legítima continuadora da missão de Jesus no mundo.

A notícia do bom êxito da evangelização protagonizada por Filipe na Samaria chegou a Jerusalém, onde os apóstolos tinham permanecido (cf. v. 14), uma vez que os principais alvos da perseguição foram os cristãos de origem grega. O envio de Pedro e João significa a necessidade de manter a unidade e a comunhão com a comunidade-mãe de Jerusalém. A oração e a transmissão do Espírito Santo realizada por eles indicam que a evangelização se dá por etapas (cf. vv. 15-17), e não que os apóstolos tivessem o monopólio do Espírito Santo.

O primeiro passo da evangelização é o anúncio da Palavra, como fizera Filipe. O Espírito Santo, comunicado em seguida pelos apóstolos Pedro e João mediante o rito da imposição das mãos, significa a confirmação do batismo ministrado por Filipe e a pertença à Igreja universal.

2. II leitura: 1Pd 3,15-18

Concluímos neste dia a leitura da primeira carta de Pedro, iniciada no 2º domingo da Páscoa. Essa carta, conforme acenamos há alguns domingos, foi escrita a comunidades perseguidas da Ásia Menor, no final do século I. Nela, o autor exorta os cristãos a não desanimar diante das perseguições e do sofrimento, mantendo-se fiéis aos compromissos inerentes ao batismo.

No trecho lido nesta liturgia, o autor ensina como os cristãos devem responder às hostilidades do mundo quando questionados sobre as razões da fé e da esperança que possuem (cf. v. 15). Acima de tudo, devem reconhecer a santidade de Jesus Cristo, o Senhor, mediante a fidelidade ao seu evangelho, seguindo o seu próprio exemplo, sobretudo como ele reagiu em meio ao sofrimento. Os cristãos devem responder a todos com mansidão e respeito; não podem ter medo nem vergonha, mesmo se forem ultrajados (cf. v. 16). Por isso, é necessário ter convicções profundas e muita intimidade com o Cristo ressuscitado, razão da fé e da esperança. Além de insultados e cobrados a dar explicações, os cristãos eram vítimas de violência física devido à fé que professavam e, mesmo assim, deveriam responder com o bem, “pois é melhor sofrer praticando o bem do que praticando o mal” (v. 17). Isso significa que tanto a prática do mal quanto a conivência com ele e com qualquer tipo de violência são inconcebíveis para uma pessoa cristã, cujo único parâmetro é o próprio Cristo, que sofreu até a morte, por causa da justiça praticada, para conduzir a humanidade a Deus (cf. v. 18).

Como consequência de uma existência conduzida pelo bem, e não como prêmio, Jesus foi vivificado pelo Espírito Santo, e é isso que os cristãos também recebem, quando dão razões da esperança e da fé que professam com a própria maneira de viver.

3. Evangelho: Jo 14,15-21

O evangelho continua ambientado no cenáculo, durante a última ceia de Jesus com os discípulos, como no domingo passado. O evangelista João, ao contrário dos sinóticos, apresenta nesse momento um conjunto de discursos de despedida de Jesus, intercalados por alguns diálogos com os discípulos, nos quais apresenta as últimas recomendações à comunidade dos seus seguidores. Isso faz da ceia um momento importante de autorrevelação de Jesus, constituindo-se como uma das principais características do Quarto Evangelho.

Os discípulos tinham consciência de que aquele era um momento de despedida, pois Jesus estava prestes a morrer e a retornar ao Pai. Por isso, havia medo, angústia, decepção e tristeza entre eles, como Jesus mesmo percebeu e procurou tranquilizá-los, pedindo que mantivessem viva a fé e prometendo preparar moradas na casa do Pai para todos eles (evangelho do domingo passado). No trecho lido nesta liturgia, Jesus continua a tranquilizá-los, fazendo novas promessas e, ao mesmo tempo, pedindo-lhes ainda mais fidelidade.

A primeira promessa que Jesus faz aos discípulos é o envio do Espírito Santo, chamado inicialmente de “um outro Defensor” (v. 16), uma vez que o primeiro defensor é ele mesmo. Essa promessa está condicionada ao mandamento do amor (cf. v. 15): só quem ama está habilitado a ser protegido pelo Defensor enviado pelo Pai a pedido de Jesus. A palavra grega traduzida aqui por Defensor, Parákletos, tem um significado muito amplo e importante, sobretudo quando se considera o contexto de medo e angústia em que os discípulos se encontravam: além de Defensor, significa advogado, conselheiro, intercessor, consolador, tudo o que os discípulos estavam necessitando naquele momento, tendo em vista as hostilidades que haveriam de enfrentar após a partida de Jesus.

Além de Defensor, Jesus chama o Espírito Santo de “Espírito da Verdade” (v. 17). Com esse título, ele lhe atribui mais uma função: ajudar a Igreja a manter o ensinamento do evangelho intacto e coerente, sem adulterações, ao longo da história. Guiada pelo Espírito da Verdade, a comunidade cristã tem a missão de superar as mentiras e hipocrisias presentes no mundo. Por isso, Jesus prevê a hostilidade do mundo em relação Espírito da Verdade. Mundo, aqui, não significa cosmos ou universo, mas a negação dos valores do evangelho, a falta de amor e a tendência ao pecado que pode estar dentro de cada pessoa, bem como os sistemas injustos de poder e dominação que violam a dignidade das pessoas. Só é capaz de receber o Espírito da Verdade, portanto, quem vive uma relação de amor com Jesus e com o próximo.

Como efeito da presença do Espírito Santo na vida dos discípulos e da Igreja, Jesus garante que não os deixará órfãos (cf. v. 18). Na linguagem bíblica, os órfãos, juntamente com as viúvas, representam a categoria máxima de pessoas vulneráveis e desprotegidas, e era assim que os discípulos se sentiam naquele momento. Com essa promessa, Jesus deixa claro que, com a sua partida para o Pai, ficará ainda mais presente na vida dos discípulos (cf. vv. 19-20), pois já não estará condicionado aos limites da matéria, mas viverá em uma dimensão nova. A condição para experimentar a presença perene de Jesus e do Espírito Santo é a vivência do amor, o que garante a comunhão com o Pai (cf. v. 21).

III. Pistas para reflexão

Esta celebração é verdadeira preparação para a festa de Pentecostes. A promessa e a presença do Espírito Santo na vida da Igreja e dos cristãos são o tema que une as três leituras. É pelo Espírito Santo que a fé das comunidades no Ressuscitado é confirmada, em unidade e comunhão com a Igreja universal (I leitura), e é esse mesmo Espírito quem faz os cristãos perseverar na fé e na esperança, mesmo quando as adversidades são muitas (II leitura). E foi isso mesmo que Jesus prometeu no evangelho: o Espírito que defende, consola e mantém a comunidade na verdade.

Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues

Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues é presbítero da Diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife) e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN).