Roteiros homiléticos

Publicado em janeiro – fevereiro de 2020 - ano 61 - número 331 - pág.: 59-62

6º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 16 de fevereiro

Por Francisco Cornélio Freire Rodrigues

Jesus é a sabedoria de Deus e a plenitude da Lei

I. Introdução geral

A Lei de Deus foi dada como instrução para que, por meio dela, o ser humano encontre o caminho da felicidade, guiando sua existência com dignidade, liberdade e harmonia com o Criador e com o próximo. Passível de interpretações variadas, nem sempre essa Lei foi aplicada em benefício da liberdade e da vida. Por causa disso, Jesus tomou para si a responsabilidade de levá-la à plenitude (cf. Mt 5,17), corrigindo erros de interpretação transmitidos ao longo do tempo pelas lideranças religiosas de Israel.

A primeira leitura recorda que o ser humano é livre para escolher entre o bem e o mal, assim como para observar ou não os mandamentos. Deus não impõe, porém garante que, escolhendo observar seus mandamentos, o ser humano será feliz, o que é referendado pelo salmista (cf. Sl 118,1). Da forma como era aplicada na época de Jesus, a Lei era um entrave para a instauração do Reino que ele veio inaugurar neste mundo, por isso a advertência aos discípulos que o evangelho traz: “Se vossa justiça não for maior do que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos céus” (Mt 5,20). Por justiça, aqui, entende-se a reta observação dos mandamentos, ou seja, da Lei.

Está claro, portanto, que Jesus propõe um jeito novo de interpretar a Lei de Deus e, consequentemente, de observá-la, dando-lhe sentido e cumprimento. Paulo recomenda, na segunda leitura, o que realmente importa na vida cristã: a busca pela sabedoria de Deus. Essa sabedoria é o próprio Jesus, único intérprete autêntico da Lei divina.

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Eclo 15,16-21

Retirada do livro do Eclesiástico, a primeira leitura recorda que o ser humano é livre para fazer escolhas, pois foi Deus mesmo quem lhe deu essa liberdade. Para demonstrar melhor seu ensinamento, o autor se serve de algumas imagens antagônicas, como água e fogo (cf. v. 17) vida e morte, bem e mal (cf. v. 18), como é típico da literatura sapiencial. Com isso, ele adverte que a liberdade humana comporta responsabilidades e as escolhas geram consequências: quem estender a mão na água se molhará, e quem a estender ao fogo se queimará (cf. v. 18); o mesmo vale para a escolha entre o bem e o mal. Pelas consequências do pecado, o ser humano está desautorizado a pecar, embora tenha liberdade para fazê-lo (cf. v. 21).

Entre as escolhas que o ser humano tem de fazer, está a observação ou não dos mandamentos de Deus. É importante recordar que o Senhor não os impõe, mas os apresenta como uma opção: “Se quiseres observar…” (v. 16). Os mandamentos comportam, portanto, uma proposta de vida, um caminho que conduz à felicidade, pois são expressão da própria vontade de Deus. Observá-los ou não, contudo, é uma decisão pessoal, e isso vale para toda a Lei.

Junto com os mandamentos, o autor evoca a sabedoria e o poder de Deus, que tudo vê (cf. v. 19). Quem observar os mandamentos, portanto, atrairá sobre si o olhar de Deus, o que significa proteção e cuidado. Ao fazer confluir sabedoria e Lei, a primeira leitura nos prepara para a segunda e para o evangelho. As palavras de Jesus a respeito da Lei demonstram quanto esta é boa e não pode ser descartada nem reduzida.

2. II leitura: 1Cor 2,6-10

A segunda leitura mostra que Paulo continua defendendo a autenticidade e a coerência do seu ministério apostólico na comunidade de Corinto. Como a sabedoria humana, objeto da busca dos filósofos, era muito apreciada naquela cidade grega, alguns evangelizadores, depois de Paulo, tentaram adequar o anúncio cristão à linguagem filosófica, ou seja, à sabedoria deste mundo, ofuscando o poder e a glória da cruz. O trecho de hoje é uma contestação de Paulo a essa prática, com base no seu próprio exemplo, e um convite à busca da sabedoria de Deus, a única que vale a pena.

Antes de tudo, Paulo confessa que também falou de sabedoria em seu ministério, mas não da sabedoria deste mundo (cf. v. 6). Aliás, entre os “perfeitos”, é impossível não falar da sabedoria, pois ela é componente básica do anúncio. O termo “perfeitos”, aqui, não designa as pessoas melhores ou mais capacitadas, mas os cristãos maduros na fé, pessoas que reconhecem a sabedoria e o poder de Deus na fragilidade de um crucificado.

Para Paulo, a sabedoria de Deus não é apenas diferente, mas totalmente incompatível com a sabedoria deste mundo, pois não se manifesta em ações de aparência gloriosa, nem em discursos especulativos eloquentes, mas na cruz de Cristo. Essa sabedoria é misteriosa e oculta (cf. v. 7), é pouco atraente. Por isso, os “poderosos deste mundo” e qualquer pessoa que julga pelas aparências não chegam a conhecê-la (cf. v. 8).

Enfim, essa sabedoria de Deus, tão estimada por Paulo, é o próprio Jesus Cristo crucificado, a quem se dá adesão e se conhece por meio do Espírito Santo (cf. v. 10), que tudo sabe e revela aos que lhe são sensíveis. Como cristãos, não devemos buscar outra sabedoria senão essa.

3. Evangelho: Mt 5,17-37

Continuando a leitura do discurso da montanha, o evangelho apresenta o posicionamento de Jesus diante da Lei, com base em algumas questões específicas. Antes de tudo, ele esclarece: “Não vim para abolir (a Lei), mas para dar-lhe pleno cumprimento” (v. 17). Essa declaração é de fundamental importância, pois não só desmente qualquer tentativa de classificá-lo como um opositor ou inimigo da Lei, como imaginavam os fariseus e escribas, mas também denuncia que a Lei não estava sendo interpretada nem cumprida corretamente.

A interpretação que Jesus aplica à Lei no evangelho deste dia não é uma relativização; ao contrário, é uma exigência de seu cumprimento radical. Para os mestres da Lei e os fariseus daquele tempo, o cumprimento da Lei se resumia à observação minuciosa do que estava escrito; Jesus vai além e a torna ainda mais exigente. No entanto, propõe que seja interiorizada, que a adesão à Lei parta do coração, de modo que ela deixe de ser um peso na vida das pessoas. Viver a Lei, nessa nova perspectiva, é uma exigência básica para entrar no Reino que Jesus oferece.

Segundo Jesus, não é necessário cometer homicídio para descumprir o mandamento que ordena: “Não matarás!” Deve-se evitar qualquer tipo de dano ao próximo, incluindo sentimentos e palavras, pois, na dinâmica do Reino, todos são irmãos, e a vivência dessa fraternidade tem prioridade até mesmo sobre o culto (cf. vv. 21-26). Sobre o mandamento que proíbe o adultério, Jesus adverte que o pecado não consiste somente na consumação do ato, mas os pensamentos e desejos, mesmo que não levem a nenhuma ação concreta, já constituem transgressão do mandamento (cf. vv. 27-30). A Lei permitia o divórcio em alguns casos (cf. Dt 24,1), mas era sempre favorável ao homem, deixando a mulher em desvantagem. Para manter a sacralidade do matrimônio como projeto de Deus, Jesus não reduz a culpabilidade da mulher, mas declara o homem igualmente culpável. Assim, ele promove e eleva a dignidade da mulher, tirando-a de uma condição de inferioridade em relação ao homem (cf. vv. 31-32).

O último aspecto tratado por Jesus diz respeito à legislação sobre os juramentos (cf. vv. 33-37). Nas sociedades onde prevalecia a cultura oral, como a de Israel, os juramentos tinham grande importância, tanto nas relações interpessoais quanto nas relações políticas e econômicas. Jesus descarta completamente a necessidade de juramentos, pois essa prática dá margem à existência de relações mais sinceras do que outras. Na comunidade do Reino, todas as relações devem ser sinceras e transparentes, e a verdade deve ser dita em qualquer situação. Por isso, não há necessidade de juramentos: todos devem confiar em todos reciprocamente, pois a base das relações é o amor fraterno.

Ao propor uma maneira nova de interpretar e cumprir a Lei de Deus, Jesus tem em vista a edificação do Reino. Para entrar no Reino, de fato, é necessário praticar uma justiça superior àquela dos mestres da Lei e dos fariseus (cf. v. 20). Para tanto, é necessário esquecer a Lei como um conjunto de normas e aceitá-la como um caminho de amor e liberdade, assimilando-a no coração. Somente assim ela alcança sua plenitude, que é o próprio Jesus, enquanto manifestação visível da sabedoria e do amor de Deus.

III. Pistas para reflexão

É importante recordar, em primeiro lugar, que Deus nos criou para sermos felizes e que alcançamos a felicidade quando realizamos sua vontade em nossa vida. Os mandamentos de Deus são sinais da sua vontade. Criados para a liberdade, no entanto, não podemos nos deixar aprisionar por um conjunto de normas, pois isso contradiz o dinamismo e a imprevisibilidade da vida. Por conseguinte, é importante estarmos atentos às palavras de Jesus e às situações concretas do dia a dia; recordar os sinais da sabedoria de Deus nas comunidades, grupos e movimentos. Como participantes e edificadores do Reino, cabe-nos receber os mandamentos na ótica de Jesus, pois ele é a plenitude da Lei e a sabedoria de Deus.

Francisco Cornélio Freire Rodrigues

é presbítero da Diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife) e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN).