Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2023 - ano 64 - número 351 - pp.: 36-38

7 de maio – 5º domingo da Páscoa

Por Marcus Mareano*

Ver a Deus na existência humana de Jesus

I. INTRODUÇÃO GERAL

O tempo pascal recorda a alegria da ressurreição de Jesus e nosso compromisso de anunciar e testemunhar essa experiência de fé. Com o passar dos domingos, a liturgia deixa os relatos de encontro com o Ressuscitado para proclamar a missão da Igreja nascente por força dessa experiência.

A comunidade cristã crescia na pregação do Evangelho e em número de fiéis. Assim, a primeira leitura (At 6,1-7) apresenta esse crescimento entre os helenistas e a escolha dos sete servidores para auxiliar os discípulos no cuidado com os mais necessitados. A passagem da primeira carta de Pedro (1Pd 2,4-9) caracteriza a Igreja como um templo formado por pedras vivas em torno da pedra angular, que é Cristo. Uma imagem rica de significado que expressa a relação entre os cristãos e Cristo.

No Evangelho, proclama-se um trecho do discurso de Jesus por ocasião da sua despedida dos discípulos (Jo 14,1-12). Primeiramente, Jesus os consola por sua ausência, mas em seguida comunica que ele é o acesso ao Pai (caminho, verdade e vida), de tal forma que quem o vê, vê o Pai (Jo 14,9). Deus invisível se torna visível na existência humana de Jesus. Por conseguinte, quem vive hoje segundo o Espírito de Deus reflete esse Deus revelado em Jesus, de modo a manifestar, por meio de ações, sua presença.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (At 6,1-7)

Os Atos dos Apóstolos narram o início da comunidade de fé. Desde Pentecostes até o martírio de Paulo em Roma, o autor expõe o percurso da pregação do Evangelho, levada adiante pelos discípulos, e as maravilhas realizadas aonde a mensagem de Jesus chega. Os capítulos 6-7 representam uma passagem das restrições do anúncio em Jerusalém (At 1- 5) para uma “diáspora” cristã a partir da Samaria (At 8). Nessa transição, lemos a escolha do grupo de diáconos (v. 1-6), entre os quais está Estêvão (v. 5), que foi preso (6,8-15), condenado (7,1-53) e martirizado por causa da sua fé (7,54-60).

Em At 6,1-6, lemos como o número dos fiéis crescia, também entre os de língua grega, que se queixavam que o atendimento às viúvas estava insuficiente (v. 1). Então, os apóstolos se reuniram e convocaram a multidão para que escolhesse alguns para auxiliá-los e servir (diakonéin) às mesas. Os apóstolos se dedicariam mais à pregação da Palavra de Deus, pois eram as testemunhas de Jesus, e os novos escolhidos colaborariam para que ninguém ficasse desassistido.

Foram escolhidos “homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” (v. 3). A lista dos eleitos era composta de pessoas de origem grega. Entre elas se encontrava Estêvão, caracterizado como “cheio de fé e do Espírito Santo” (v. 5), sobre o qual se falará mais por conta da sua fé em Cristo.

Enfim, os apóstolos oraram e impuseram as mãos sobre os novos servidores. O gesto, presente em diferentes passagens bíblicas (Nm 8,10-11; Dt 34,9), representa a atribuição de missão e a conferência de capacidade para contribuir com o anúncio do Evangelho (At 13,3; 14,23; 1Tm 4,14; 2Tm 1,6).

Com oração e discernimento, a comunidade nascente consegue enfrentar os desafios que surgem e permanecer fiel à missão evangelizadora. O conflito não pode ser visto apenas como prejuízo, mas como oportunidade de crescimento, amadurecimento e expansão. Lidando assim com as adversidades, os primeiros seguidores de Jesus nos ensinam a encarar os desafios do presente.

2. II leitura (1Pd 2,4-9)

Se, na primeira leitura, vimos a caracterização da Igreja como orante e servidora, na segunda leitura, a comunidade de fé é comparada com pedras vivas, edifício espiritual, sacerdócio santo e nação santa. A atenção da primeira leitura está no que se faz, e a da segunda no que a comunidade se torna pela fé em Cristo.

O autor utiliza uma terminologia e alguns trechos do Antigo Testamento para comunicar às comunidades cristãs sua identidade. Primeiramente (v. 4), ele convida a aproximar-se de Cristo, pedra viva, rejeitada pelos homens (que o crucificaram), mas eleita, honrosa aos olhos de Deus(que o glorificou e fez Senhor).

O que se disse a respeito de Jesus Cristo vale também para os cristãos (v. 5). Eles são pedras vivas, rejeitadas (pelos pagãos ao seu redor), mas eleitas (1,1; 5,13) e valorizadas por Deus. Como tais, formam uma “casa espiritual” e um “sacerdócio santo” (Ex 19,4.5), para que, como Cristo ofereceu sua vida para a salvação do mundo, eles também ofereçam a sua, junto com Cristo, a Deus.

Em seguida (v. 6-8), a passagem faz diferentes referências ao Antigo Testamento (Is 28,16; Sl 118,22; Is 8,14) a fim de justificar o que se afirmou a respeito de Cristo e da Igreja. Assim, compreendemos seu sentido: “casa espiritual” – sublinhando a ação do Espírito na edificação da Igreja; “sacerdócio santo” – sublinhando a participação de cada cristão no único sacerdócio de Cristo para a salvação do mundo; “povo de Deus” – sublinhando a ação divina na formação do povo da Antiga Aliança, Israel, e da Nova Aliança, a Igreja.

Por fim (v. 9), o trecho bíblico se dirige à comunidade cristã como novo Israel, aplicando textos do povo eleito de Deus aos seguidores de Jesus. A carta acentua o lugar peculiar que, em continuidade com o povo de Israel, os cristãos ocupam na história da salvação. Eles pertencem ao povo santo de Deus, escolhido entre todas as nações “para proclamar as obras admiráveis de Deus” (Is 43,21). Deus chama as pessoas das trevas (de uma vida entregue ao domínio dos ídolos) à sua luz admirável, à graça da salvação (1,3-5). A pertença ao povo de Deus significa uma tarefa missionária, a ser cumprida por meio do “bom procedimento” no meio dos pagãos (2,12; 3,1.2.15).

3. Evangelho (Jo 14,1-12)

Na passagem do Evangelho, lemos um trecho de João, situado entre os discursos de despedida de Jesus, que continua a explicar o sentido de sua partida, agora em palavras confortadoras. Como o povo de Israel teve fé no Senhor e também em Moisés (Ex 14,31), assim Jesus convida seus discípulos a crer nele (v. 1). Esse início da passagem (v. 1-3) assemelha-se à despedida de Moisés, que manda o povo ter coragem para entrar na Terra Prometida (Dt 1,29; 31,6.7.23; Js 1,6.7.9).

A iminente morte de Jesus é, em certo sentido, preparação para entrar em uma nova Terra Prometida. Naquele tempo, Deus andava à frente para preparar um lugar para o povo (Dt 1,33). Doravante, na narrativa joanina, Jesus assume a tarefa de conduzir os discípulos para a casa de seu Pai, onde há muitas moradas. Quando o lugar estiver preparado para os discípulos, Jesus voltará e os levará consigo. Assim, eles estarão no mesmo lugar onde Jesus estará.

É comum, no Evangelho de João, os interlocutores de Jesus não compreenderem o que ele quer comunicar (4,10; 6,33; 7,34; 8,21). Acontece também com Tomé (v. 4-5). Jesus fala de um caminho, e Tomé não entende. O caminho, assim como a verdade e a vida, era o próprio Jesus (v. 6).

Os que acompanhavam Jesus poderiam ter confiança para o caminho que os aguardava. Caminho, para as Escrituras, significa prática de vida. No Deuteronômio (8,6; 9,2), o caminho geográfico para a Terra Prometida é símbolo do itinerário da vida. Em João, o caminho é Jesus. O que ele mostra é a prática que nos conduz à vida – o dom de Deus por excelência, que é Jesus mesmo. E ele é também a verdade, Deus que se manifesta e é fiel.

Em seguida, Jesus fala do conhecimento (ter experiência) dele e do Pai (v. 7). Quem o conhece, conhece o Pai. Anteriormente (8,19), aos incrédulos, Jesus disse que, se o conhecessem, conheceriam o Pai (mas não conheceram nem Jesus, nem o Pai). Agora, para os que Jesus chama de filhinhos e depois amigos (15,15), o caso é diferente. Eles conhecem Jesus e, por isso, também o Pai.

No entanto, Felipe não compreendeu bem o ensinamento de Jesus (v. 8). Ele pede para ver o Pai, como, por exemplo, queriam Moisés (Ex 33,18-23) e o salmista (Sl 42,3). Jesus ensina a respeito da sua identidade com o Pai (v. 9): quem o vê, vê o Pai que o enviou. Para saber como Deus é, basta olhar a humanidade de Jesus, especialmente na prova do seu amor até o fim (13,1), pois Deus é amor e se dá a conhecer em Jesus, que oferta sua vida por nós (1Jo 4,8-10.16). Por isso, os verbos estão no tempo narrativo, porque não se trata da visão beatífica atemporal, mas da vista histórica do Encarnado e Glorificado na cruz.

Jesus continua a ensinar os discípulos, pois pareciam não entender suficientemente (v. 10-11). Jesus fala da sua origem divina e confirma, com suas obras, que o que ele faz é o agir de Deus mesmo por seu intermédio (10,38). Quem acredita que a prática de Jesus é a atuação de Deus participará desse mesmo agir e fará até obras que excedem, quantitativamente, aquilo que Jesus, na sua limitação histórica, realizou. Agora ele volta ao Pai.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Neste 5º domingo da Páscoa, as leituras nos situam diante da identidade da Igreja (primeira e segunda leituras) e de Jesus (Evangelho) para pensarmos nosso modo de ser e agir no mundo atual.

Os discípulos, perturbados com a proximidade da morte de Jesus, são consolados pela promessa de uma morada na casa do Pai. Para tanto, devem seguir o caminho, a verdade e a vida reveladora do Pai em sua existência humana. O que aprenderam de Jesus deve se tornarprática cotidiana.

Assim, a comunidade de fé constitui um grupo formado de seguidores que veem a Deus na humanidade de Jesus e buscam viver à sua maneira no mundo contemporâneo.

Marcus Mareano*

*Pe. Marcus Mareano é bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece); bacharel e mestre
em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); doutor em Teologia Bíblica com dupla
diplomação: pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven); professor adjunto de
Teologia na PUC-MG e de disciplinas isoladas em diferentes seminários. Desde 2018, é administrador
paroquial da paróquia São João Bosco, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]