Roteiros homiléticos

7º Domingo do Tempo Comum – 24 de fevereiro

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

I. Introdução geral

As três leituras de hoje podem ser consideradas desafiadoras, pois exigem uma decisão. Diante delas, não podemos permanecer indiferentes nem, muito menos, tranquilos em nossa zona de conforto. São desafios seriíssimos porque dizem respeito ao que somos e fazemos em nossas relações. As três leituras nos mostram que não vivemos isolados, numa redoma de vidro. Dia após dia, uma grande rede de relacionamentos é construída por cada um de nós. Consequentemente, a cada dia é preciso responder aos desafios propostos pelos encontros e desencontros: fazer o bem ou o mal? Refletir o caráter de Jesus ou tornar a luz de Jesus opaca? Amar nossos inimigos ou apenas aqueles que nos fazem o bem?

O grande desafio lançado pelas leituras é nos transformarmos no que Cristo é. O padrão de construção do ser de cada um deve ser aquele encontrado em Jesus. Permanecer na condição do primeiro Adão é deixar de experimentar a nova vida em Jesus; se Adão representa o passado, a vida de Cristo se apresenta como o resgate do presente e a abertura para o futuro de esperança.

II. Comentários aos textos bíblicos

  1. I leitura: 1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23

Davi, tendo a possibilidade de fazer o mal, fez o bem. Os profetas, posteriormente, escreverão: deixem de fazer o mal e aprendam a fazer o bem. Saul e Davi vivem uma situação emblemática. A morte e a vida se encontram nas mãos deles, e cabe exatamente a eles decidir se um ou outro devem viver.

Davi sabe muito bem que não se deve levantar a mão contra o ungido do Senhor, compreensão que o texto bíblico faz questão de apresentar de forma duplicada (cf. v. 9.23).

A lança, um instrumento de guerra, que aparece no texto como a arma mediante a qual Saul poderia ser assassinado, é a mesma lança que o rei queria utilizar para assassinar Davi e Jônatas (cf. 1Sm 18,11; 19,10). A lança pode ser considerada símbolo do poder real. A pergunta de fundo é, justamente, esta: O que pode ser feito quando se tem o poder nas mãos? Qual a finalidade do poder? Seria ele um instrumento de dominação e de conquista de bens pessoais ou deveria ser compreendido como uma relação de poder-serviço?

Também precisamos levar em consideração que o texto da primeira leitura é uma construção textual pró-Davi; ou seja, o autor procura construir um relato que contraponha dois sujeitos e suas qualidades no exercício da realeza. Na contraposição e comparação, o texto deseja informar que Davi é muito superior a Saul e, por isso, o cetro real deverá pertencer a ele.

  1. II leitura: 1Cor 15,45-49

O apóstolo Paulo é de uma sensibilidade teológica impressionante, que se manifesta, por exemplo, ao procurar demonstrar quanto Jesus é superior a qualquer possível comparação. O apóstolo, em suas cartas, muitas vezes faz uso das duas narrações da criação que se encontram no livro do Gênesis, isto é, Gn 1 e 2, com o objetivo de compreender a própria história. Nesta segunda leitura, Paulo estabelece um paralelo entre Adão e Cristo a fim de salientar e explicar a grandiosidade de Cristo.

Se o primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente, o último Adão se tornou espírito que dá vida (cf. v. 45). A contraposição está estabelecida e não deixa lugar a nenhuma dúvida. No Gênesis, o primeiro Adão, ou seja, aquele que nascera do pó da terra, recebeu de Deus um princípio de vida. Cristo, porém, de forma diferente e potencialmente maior, recebeu o pneuma imperecível, isto é, que nunca morre. Assim, se o primeiro Adão está destinado à morte, o último Adão se tornou o verdadeiro princípio capaz de conferir essa vida a toda a criação.

Para Paulo, é justamente em Cristo e por causa de Cristo que se inicia a nova criação. Inicia-se a nova humanidade, que traz a marca da ressurreição de Cristo. É precisamente a ressurreição que, de fato, reumaniza o ser humano e o faz viver para Deus em Cristo. A nova humanidade significa que todas as coisas se fazem novas; dessa forma, a novidade de vida do novo humano se exprime, principalmente, em sua forma de se relacionar. No dia a dia dos relacionamentos, é possível encontrar os frutos desse novo estilo de vida.

Os v. 47-49 fazem a contraposição entre o primeiro homem, que é terrestre, e o segundo homem, que é celestial. Trata-se de contraposição essencial: se a humanidade que vinha de Adão era terrena, a humanidade redimida em Cristo é celestial; se todos os seres humanos são o que Adão era, todos poderão se transformar no que Cristo é.

A conclusão do apóstolo é formidável: “Assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim também traremos a imagem do homem celeste”; ou seja, os que se transformarem no que Cristo é terão o mesmo tipo de corpo. Porque Cristo é a imagem originária de Deus, no seu modelo seremos renovados (cf. Ef 4,23). Assim, talvez pudéssemos testemunhar ousadamente como o apóstolo Paulo: “E já não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

  1. Evangelho: Lc 6,27-38

As palavras de Jesus, em seu discurso, abalam razoavelmente a maneira de compreendermos o evangelho. Ele está falando do Reino de Deus e, para espanto de todos, as palavras que utiliza não se relacionam com as coisas ditas “celestiais”. Ao contrário, são palavras que remetem às relações interpessoais. É justamente aquilo que fazemos para os outros que nos define diante de Deus.

O seguimento de Jesus, no Evangelho de Lucas, está relacionado às atitudes dos discípulos. Não se trata, porém, apenas de fazer diferente. Trata-se, antes, de não reproduzir no cotidiano as relações baseadas na violência. Diante de uma sociedade que produzia uma espiral de violência, Jesus propõe relações humanizadas e que humanizem até mesmo aqueles considerados inimigos. A solução para os conflitos não é a utilização de mais violência, e sim ações permeadas de misericórdia. Se Deus é bom para com todos, por que nossa bondade seria seletiva?

Jesus indica uma série de ações que envolvem a construção de relações ótimas para a vida em sociedade. Por exemplo, o amor aos inimigos não é uma regra geral de conduta, mas, sim, uma atitude que caracteriza os discípulos de Jesus. Devemos, portanto, pensar que Jesus, ao se dirigir aos discípulos e discípulas tanto de ontem quanto de hoje, propõe uma “ética do relacionamento” baseada no cuidado pelo outro: “Tratem as pessoas como vocês gostariam que elas tratassem vocês” (v. 31).

O modelo de cuidado nas relações proposto por Jesus se encontra em Deus e, mais especificamente, na misericórdia divina (cf. v. 36). Diante da crescente e avassaladora espiral da violência, faz-se necessário olhar para Deus e imitá-lo. Ao olhar para o Deus misericordioso, aplacamos a intolerância e a beligerância e produzimos misericórdia por meio de nosso agir e falar. Assim, quando amamos nossos inimigos, eles deixam de sê-lo para nós. E exatamente nessa “amorização das relações” geramos a esperança de que também deixemos de ser considerados inimigos por eles.

III. Pistas para reflexão

– “Sejam misericordiosos, como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36). Jesus provoca tremenda reviravolta na maneira de as pessoas se relacionarem. A perspectiva utilizada por ele é sempre a da misericórdia. Por isso, podemos dizer que ele via primeiramente o sofrimento das pessoas, não o seu pecado. Nesse sentido, Jesus era um construtor de pontes, que o levavam ao encontro das pessoas não para condená-las, e sim para amá-las e salvá-las.

– A vida é feita de decisões. E para nós, discípulos e discípulas de Jesus, as decisões são mais exigentes. Afinal, devemos nos deixar moldar segundo o projeto dele. Não há como ser discípulo e discípula seguindo um projeto pessoal. Devemos compreender que o projeto de vida que somos chamados a viver é o de Jesus. Por conta disso, ao assumirmos seu projeto, tornamo-nos mais humanos, pois, ao refletirmos sua vida, humanizamos nossas relações construídas diariamente.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Luiz Alexandre Solano Rossi é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br