Roteiros homiléticos

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – 20 de agosto

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Um grande sinal

  1. Introdução geral

A festa da Assunção de Maria é a festa da assunção da Igreja. Maria colabora com o mistério da redenção associando-se a seu Filho (LG 56). Sua assunção é figura do que acontecerá com todos os seguidores de Jesus, ou seja, com a Igreja, no fim dos tempos. Porque Maria não é apenas a imagem (o reflexo), mas também a imagem típica (o protótipo) da Igreja, esta deve ser o que Maria é. E enquanto peregrina neste mundo, a Igreja tem Maria como um sinal “até que chegue o Dia do Senhor” (LG 68). O que celebramos na festa de hoje é a vitória de Cristo sobre todos os poderes que tentam impedir o Reino de Deus de progredir no mundo. Tendo Maria como sinal, celebramos a vitória da Igreja inteira sobre a morte e o pecado.

      II – Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho (Lc 1,39-56): “Bendita és tu entre as mulheres” (Lc 1,42)

Esse trecho do evangelho está vinculado ao texto da anunciação, como seu desenvolvimento. Ao ouvir a mensagem do anjo Gabriel em relação à encarnação do Filho de Deus, tendo como sinal a gravidez de Isabel, Maria se dirige prontamente para a região montanhosa.

A conexão entre esses trechos nos aponta duas verdades sobre Maria: sua fé e seu compromisso com o Reino. A partir da fé que ela demonstra na Palavra de Deus, temos em Maria a verdadeira discípula, que ouve a Palavra e a põe em prática. A fé na Palavra de Deus gera compromisso, que leva o discípulo a realizar na vida o que ouviu. É o que Maria nos mostra com seu exemplo.

Maria é exemplo de discípula para quem acredita no cumprimento das promessas de Deus, porque ela mesma está à disposição de Deus para servi-lo como instrumento dócil. Foi isso o que aconteceu quando disse: “Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (1,38). E, imediatamente, saiu para visitar sua prima. Ao chegar, foi saudada por Isabel, e algo de revelador aconteceu. O teor da saudação diz respeito a duas realidades. A primeira refere-se à atitude crente de Maria. Ela é bendita porque acreditou. Aqui é exaltada sua fé. Foi sua total adesão à Palavra de Deus que operou um milagre em sua vida e na vida da humanidade: a encarnação do Filho de Deus. Daqui passamos para a outra realidade da saudação: “e bendito é o fruto do teu ventre!”. Maria, que carrega no útero o Filho de Deus, é identificada com a Arca da Aliança. No Antigo Testamento, a Arca da Aliança era símbolo do encontro entre Deus e a humanidade. No útero de Maria, dá-se o encontro entre Deus e a humanidade, pois Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Maria representa a Igreja que se compromete com o Reino, pela fé na Palavra de Deus e pela exigência de gerar o Cristo para o mundo através do anúncio, do testemunho e do serviço.

  1. I leitura (Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab): estava grávida, em dores de parto

A principal personagem que aparece no grande sinal do céu não tem sua identidade imediatamente revelada pelo livro do Apocalipse; ela é chamada apenas de “mulher”. Somente no desenrolar da narrativa é que sua identidade fica clara.

A mulher é adornada pelos astros que a envolvem; isso significa que ela é a coroação de todas as obras da criação. Essa representação alude ao sonho de José, filho de Jacó (Gn 37,9), interpretado pelos sábios judeus como referência à vinda do reino de Deus, onde tudo na natureza e na história estaria submetido ao poder do Senhor.

Em oposição à mulher está a figura tenebrosa do dragão descrito com características horripilantes, adornado pelos principais símbolos do poder humano: chifres e diademas. O significado dessa figura nos é dado pelo texto de Dn 7,24: trata-se dos governantes dos impérios, são os poderes do mundo.

O dragão intenta fazer mal à mulher, mas esta é levada para o deserto, lugar que Deus lhe tinha preparado, e ali ela é cuidada. Então a mulher representa o novo povo de Deus. A Igreja, comunidade dos seguidores de Cristo, enquanto aguarda a segunda vinda do Senhor, suporta as dificuldades do deserto, situação na qual o novo povo de Deus esperou para entrar na terra prometida.

Enquanto essa cena se desenrola na terra, especificamente no deserto, uma voz proclama que há uma nova realidade no céu: ali o reino de Deus já acontece plenamente (v. 10). Cristo, o ser humano plenificado e vitorioso, é a garantia de nosso acesso ao céu. Isso significa que a mulher que ainda permanece no deserto pode ter certeza da vitória em sua luta contra o dragão.

  1. II leitura (1Cor 15,20-27a): foi levado para junto de Deus

A Lei, em Dt 26,2, exigia que os primeiros frutos (as primícias) fossem oferecidos ao Senhor para expressar a gratidão do agricultor e o reconhecimento de que Deus era o responsável pela colheita. Quando o israelita oferecia os primeiros frutos a Deus, estava agradecendo pela colheita inteira. Os primeiros frutos saídos da terra eram parte da colheita; e tão certo quanto as primícias eram a colheita, a ressurreição de Cristo é a garantia de nossa ressurreição nele.

Cristo primícias dentre os mortos ascendeu ao céu e ofertou a si mesmo a Deus como o representante de seus seguidores, ou seja, da Igreja que ascenderia depois dele. Cristo não é somente o primeiro na ordem do tempo que ressuscitou dos mortos; é mais que isso, é o principal no que se refere à dignidade e importância, conectado com todos os demais que vão ressuscitar. Cristo é o homem ressuscitado, e nossa ressurreição é a partir dele. Portanto nossas esperanças não são vãs, nossa fé não é inútil, e nós não seremos desapontados.

III. Pistas para reflexão

Em 1974, o papa Paulo VI escreveu um documento sobre a devoção a Maria (Marialis Cultus) que continua a ser a norma para a devoção mariana entre os católicos. Depois de normatizar a devoção mariana em função de Cristo, o papa destaca em dois números (MC 26 e 27) a mesma devoção em relação ao Espírito Santo. Isso significa primeiramente que não pode haver culto a Maria em si.

O texto retirado do livro do Apocalipse é claramente cristológico, como se pode ver nos seguintes trechos: “Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi elevado para Deus até o seu trono” (v. 5); “Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo” (v. 10).

Portanto, a homilia não deve contribuir para um devocionismo exagerado (não fundamentado nem na Escritura nem na tradição genuína) a respeito da Mãe do Senhor e nossa Mãe, modelo daquilo que devemos ser e que seremos na plenitude dos tempos.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj, é graduada em Filosofia e em Teologia. Cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com