Roteiros homiléticos

Publicado em novembro-dezembro de 2021 - ano 62 - número 342 - pág.: 39-41

FINADOS – 2 de novembro

Por Izabel Patuzzo

Nascidos para a eternidade

I. INTRODUÇÃO GERAL

Depois de celebrar a glória de todos os santos, a Igreja, preservando uma tradição antiga, que se iniciou no século XI, dedica o dia 2 de novembro à memória dos fiéis defuntos. Esta liturgia nos convida a meditar sobre o horizonte final de nossa caminhada terrena, que não termina com o fracasso da morte, mas na comunhão com Deus.

A primeira leitura, do livro do profeta Isaías, recorda-nos que o Senhor do universo irá preparar e reunir, num banquete especial, todos os povos da terra. Por meio de imagens magníficas, o profeta relata essa profunda experiência do ser humano, que, no final de sua caminhada, vai sentar-se com Deus em um encontro alegre e festivo. Partilhar da vida de Deus, fazer parte de sua família, significa alcançar a verdadeira felicidade e a vida plena.

Na segunda leitura, Paulo apóstolo assegura aos cristãos da comunidade de Roma que todos aqueles que seguem a Jesus Cristo e compartilham do seu sofrimento também com Ele serão glorificados.

A leitura do Evangelho retrata o julgamento final na visão de Mateus. O Filho do Homem, um título atribuído a Jesus, é aquele que reúne todas as categorias de pessoas ao redor de si. Ele não vem para julgar; ele apenas separa. A condenação é uma questão de escolhas pessoais. Quem acolhe os pequeninos, os abandonados, os que sofrem por causa do Reino de Deus, esses serão acolhidos por Deus. Jesus é o pastor que sabe discernir quem esta apto para entrar no seu Reino.

II. Comentário dos textos bíblicos 1. I leitura (Is 25,6a.7-9)

 O texto do livro do profeta Isaías retrata uma situação de lágrimas e sofrimento que pesa sobre o povo. Embora seja difícil datar a época em que o texto foi escrito, é clara a referência à superação da morte, das lágrimas e do sofrimento por uma iniciativa do próprio Deus, que mudará a sorte de seu povo escolhido.

O profeta descreve o banquete como um momento de partilha e comunhão da comunidade que se reúne ao redor da mesa como grande família e, na alegria, celebra a presença de Deus numa refeição fraterna. O cenário do texto é o monte, que recorda o lugar de encontro, de proximidade com o Senhor. As grandes celebrações litúrgicas de Israel aconteciam em um contexto festivo de banquetes sagrados entre os fiéis e o Senhor. Aceitar o convite para esse banquete implicava iniciar nova caminhada de comunhão íntima com Deus, a qual culminaria numa transformação total da realidade de sofrimento. A imagem do banquete aponta para uma realidade em que as relações serão de convivência amorosa e fraterna, da qual ninguém será excluído.

Aceitar o convite de Deus para esse banquete requer a superação do egoísmo, das divisões, do orgulho e das discriminações. Significa acolher seu projeto de partilha, solidariedade, justiça, amor e comunhão.

2. II leitura (Rm 8,14-23)

 A carta de Paulo aos Romanos é dirigida à comunidade dos cristãos de Roma, capital do império. Os cristãos eram uma minoria que vivia em meio a grande maioria de pagãos. Havia muitas incertezas acerca do futuro da comunidade. A Igreja de Roma era composta de cristãos vindos de todas as partes do império,
convertidos do judaísmo e do paganismo.

Nessa carta, Paulo apóstolo assegura aos cristãos de Roma que todos aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus renunciam às obras da carne. Assim, o Espírito Santo é descrito como o protagonista da vida nova caracterizada pela filiação divina. Ele é a ponte de comunicação entre Deus e as pessoas. Portanto, nosso agir cristão consiste em sempre submeter-nos à decisão de nos deixar guiar pelo Espírito Santo, justamente porque, pelo batismo, o mesmo Espírito habita em nós.

A filiação divina era um privilégio de Israel, enquanto povo eleito para viver em comunhão com Deus. Segundo o ensinamento de Paulo, os cristãos, por meio do batismo, são libertos das potências escravizantes do pecado, da morte, da Lei antiga, para se tornarem filhos e filhas. A filiação divina significa, para eles, estarem unidos a Cristo, serem seus colaboradores e servos da comunidade, viver na justiça essa vida nova de herdeiros e coerdeiros de Cristo que chamam Deus de “Abá”, Pai.

3. Evangelho (Mt 25,31-46)

O texto do Evangelho de Mateus nos fala do fim dos tempos, ou seja, do juízo final. O evangelista apresenta Jesus como rei e juiz da história da humanidade. E os escolhidos de Jesus para entrar no seu Reino são os misericordiosos, os que têm compaixão dos irmãos e irmãs diante dos seus diversos sofrimentos. Ele explica quem são aqueles que serão abençoados e poderão sentar-se à sua direita: as ovelhas justas que assistiram os famintos, os sedentos, os doentes, os prisioneiros injustiçados. Já aqueles que não usaram de misericórdia, denominados cabritos, não entrarão no seu Reino, porque foram insensíveis aos necessitados. Não foram capazes de solidarizar-se diante do sofrimento alheio.

Mateus recorda à sua comunidade que, no futuro, haverá julgamento para aqueles que não tiverem sido fiéis aos ensinamentos de Jesus. As consequências serão permanentes, eternas. O critério para o julgamento será a maneira pela qual vivemos a fraternidade, o cuidado com o outro, sobretudo com os que mais necessitam de nosso cuidado; isto é, consistirá no modo como vivemos o mandamento do amor ao próximo.

Jesus deixa claro que a salvação não depende do status que temos neste mundo, nem daquilo que possuímos, e sim do acolhimento ao necessitado, ao empobrecido, ao estrangeiro, ao órfão, à viúva, aos doentes e àqueles de outras categorias necessitadas de seu tempo. A prática da solidariedade e da partilha era muito antiga em Israel.

Jesus não prega o pavor ao fim dos tempos, mas a preparação para o encontro definitivo com Deus, a qual deve fazer parte da vida cotidiana do cristão, por meio das obras de caridade, na relação fraterna com o pobre, com o excluído, com o doente e com todas as categorias de pessoas de nosso tempo que dependem de nossa misericórdia e solidariedade para ter uma vida digna.

III. Pistas para reflexão

A certeza da ressurreição nos garante que Deus tem um projeto de salvação e vida plena para nós. Ele nos convida à comunhão eterna, e esse projeto se realiza continuamente em nós até sua realização plena, quando nos encontraremos definitivamente com Ele.

A liturgia de Finados nos assegura que o caminho que percorremos neste mundo não termina com o fracasso da morte, mas no encontro com a vida verdadeira e eterna. Neste dia em que fazemos memória dos fiéis defuntos, que acreditamos estarem vivendo sua comunhão eterna com Deus, dedicamo-nos à oração e à reflexão sobre o mistério da morte e ressurreição.

 A vitória de Jesus sobre a morte nos dá a esperança de que também nós, como seus discípulos e discípulas, somos chamados a essa vida plena de comunhão com Deus. Enquanto caminhamos neste mundo, somos chamados a viver no amor, na caridade, como preparação ao encontro definitivo na glória divina, não guiados pelo medo, mas pela esperança de que Deus prepara um lugar a cada um de nós na sua presença.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo. E-mail: [email protected]