Roteiros homiléticos

Publicado em novembro-dezembro de 2020 - ano 61 - número 336 - pág.: 58-60

NATAL DO SENHOR – MISSA DA NOITE – 24 de dezembro

Por Ir. Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

O povo que andava nas trevas viu grande luz

I. INTRODUÇÃO GERAL

As profecias descreveram o Messias prometido com várias linguagens e títulos. Essa promessa alimentou a fé de Israel durante vários séculos. Hoje, nesta festa da luz, a esperança que animou o povo da Aliança torna-se realidade. A luz das nações, o Filho de Deus, manifestou-se na humildade; não veio como um guerreiro poderoso, mas na fragilidade de um recém–nascido. Nesta noite a fé cristã celebra sua primeira vinda, enquanto esperamos sua manifestação gloriosa, quando o dia eterno chegar.

II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. Evangelho (Lc 2,1-14)

A promessa feita ao povo de Israel agora se realiza. E é em Belém, cidade de Davi, que se desencadeia a história da salvação. A imagem do Salvador deitado numa manjedoura tem um sentido profundamente teológico. Na manjedoura, como na cruz, o enfoque é o despojamento de Jesus, o fato de estar à mercê da acolhida ou da rejeição por parte das pessoas.

Outro fato importante é o lugar de seu nascimento. É estranho que não houvesse lugar para José e Maria (v. 7), já que, no Oriente, a hospitalidade era sagrada, principalmente para uma mulher que dava sinais da proximidade do parto. Por isso, a frase “não havia lugar para eles” deve ter um valor teológico, a saber: a sombra da cruz se projeta sobre os primeiros dias da vida de Jesus, pois também não tinha onde ser sepultado. Se, por um lado, ele não tem lugar para nascer, por outro, é acolhido pelos pastores, acontecimento que é o cume teológico desta seção (v. 11). A promessa divina tinha sido feita a pastores como Abraão, Jacó, Moisés, Davi etc. Agora, Deus estava cumprindo sua promessa e, por isso, o anúncio aos pastores tem caráter de evangelho, que quer dizer “boa notícia”. O sinal (v. 12) dado pelos anjos aos destinatários da boa-nova não é o fato de o Menino estar envolto em faixas, pois isso acontecia com todo recém-nascido (cf. Ez 16,4), para que ficasse aquecido e protegido de doenças; o sinal é que o menino está em uma manjedoura – ou seja, há aqui uma alusão à Eucaristia (pão do céu). Esse sentido pode ser reforçado pelo nome da cidade, Belém, em hebraico Baith-lehem, casa do pão. Dessa forma, o “sinal” não é para que encontrem o Menino, mas uma garantia da comunicação sobrenatural a respeito dele (cf. Ex 3,12). A narrativa termina com um hino de glória (v. 14). Esse cântico significa que o anúncio da boa notícia encontra eco no céu. A liturgia celeste se une à comunidade cristã para celebrar o mistério. A paz a que se refere o hino é uma das expressões mais usadas para falar da salvação esperada no tempo do Messias (cf. Is 9,5-6). O cântico manifesta que a humanidade é amada por Deus e por isso o Salvador nos foi dado; Jesus é o dom do Pai.

2. I leitura (Is 9,1-6)

Zabulon e Neftali foram as primeiras cidades do Reino de Israel a serem atingidas pela invasão do grande império estrangeiro que deportou parte de sua população. Por isso, as profecias afirmavam que Deus devolveria a essas cidades sua antiga glória. As trevas que pairavam sobre aquela região seriam dissipadas quando um rei futuro inaugurasse uma etapa definitiva de justiça e paz. A esse rei ideal foram atribuídas a sabedoria de Salomão, a honra de Davi e a religiosidade dos patriarcas e de Moisés. Ele seria a condensação das virtudes de seu povo. Um grande acento foi posto na sua sabedoria, critério exigido dos governantes de Israel, garantia de bem-estar para a comunidade. As expectativas messiânicas apontavam para um rei davídico ideal e, por isso, a Igreja primitiva viu no início do ministério de Jesus na Galileia – região onde ficavam aquelas cidades – a realização das antigas profecias.

3. II leitura (Tt 2,11-14)

Esse texto é o coração da carta a Tito e corresponde à tática de fundamentar a práxis cristã nos alicerces sólidos da fé. Em primeiro lugar, está o amor de Deus, que comunicou a graça da salvação a todos os seres humanos. Em seguida, sublinha a esperança da manifestação gloriosa de Cristo. Finalmente, recorda a redenção dos pecados por meio da oferta de Cristo. Por todos esses fatores, estamos capacitados para toda a boa obra que nos configura a Cristo e nos põe a caminho da vida eterna. O autor da carta vê a salvação como fruto de uma manifestação da graça de Deus (v. 11). Essa manifestação é a vitória de Cristo, a ressurreição, e nos ensina a viver de acordo com o dom da vida plena, renunciando a todos os “valores” da morte. Ensina também a esperar a manifestação gloriosa do “grande Deus e nosso Salvador Jesus Cristo” (v. 13). As expressões “grande Deus” e “nosso Salvador” eram próprias dos cultos aos deuses e aos imperadores romanos. Aqui elas são direcionadas a Cristo, mostrando a fé da comunidade cristã como contestação ao império romano. O v. 14 dá um conteúdo prático, mais que pedagógico, à redenção trazida por Cristo. Ele se entregou por nós e, assim, nos salvou da iniquidade, purificando para si um povo escolhido e zeloso nas boas obras.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O nascimento de Jesus nos ensina, primeiramente, a grande benevolência de Deus, que envia seu Filho ao mundo como dom. É importante resgatar esse aspecto nos tempos atuais, pois as pessoas quase já não experimentam o valor da gratuidade. Vive-se numa corrida desenfreada pelo bem-estar pessoal, em que as relações são baseadas na troca, e não na gratuidade da entrega de si. Outro ensinamento importante que nos trazem as leituras desta liturgia é o desapego, a renúncia. Nosso Salvador nasceu numa manjedoura e morreu numa cruz. Isso expressa o modo integral como viveu sua vida. Não procurou honrarias nem benefícios próprios. Não se apegou à sua condição de Filho de Deus, mas viveu a total entrega de si, de sua vida, sem esperar das pessoas reconhecimento algum. Viveu à mercê da acolhida ou da rejeição delas. Viveu livremente sua entrega de vida, sua doação ao outro. A encarnação de Jesus Cristo vem nos ensinar que a vida humana é puro dom de Deus e, como tal, deve ser recebida e vivida como entrega de si. Somente dessa forma podemos curar o mundo do egoísmo, grande mal que desfigura o ser humano.

Ir. Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

graduada em Filosofia e em Teologia, cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. E-mail: [email protected]