Roteiros homiléticos

Publicado em setembro-outubro de 2020 - ano 61 - número 335 - pág.: este roteiro encontra-se à parte da revista física Vida Pastoral

Nossa Senhora Aparecida – 12 de outubro

Por Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues

Mulher que resiste e intercede pelo seu povo

I. Introdução geral

Na solenidade de Nossa Senhora Aparecida, a liturgia rende homenagens a Maria, recordando o protagonismo feminino na história do povo de Deus. Considerando a marginalização da mulher nos tempos bíblicos, esse dado é muito relevante, pois revela a predileção de Deus pelas pessoas humildes e marginalizadas, escolhidas para fazer grandes coisas em favor do seu povo e de toda a humanidade. Nas três leituras desta festa, a mulher exerce um papel determinante para o desfecho de cada episódio narrado. Na primeira leitura, temos o exemplo de Ester, que, atenta às necessidades do seu povo ameaçado de extermínio, intercede ao rei, pedindo vida para si e para seu povo. A segunda leitura apresenta o sinal da mulher que dá à luz um filho para governar o mundo; ela é perseguida pelas forças do mal e resiste. No Evangelho, vemos a presença ativa da mãe de Jesus no início de seu ministério; sensível e solidária às necessidades do próximo e confiante na palavra de Jesus, ela participa da realização do seu primeiro sinal messiânico.

Portanto, a figura feminina presente nesta liturgia, de quem Maria é a síntese, é sinônimo de força e resistência ao mal, de solidariedade às pessoas necessitadas e de confiança no Deus da vida. Tudo isso ainda é ilustrado pelo simbolismo da pequena imagem de cor negra encontrada por humildes pescadores no ano de 1717, quando a maioria da população brasileira era escrava e negra.

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Est 5,1b-2; 7,2b-3

O livro de Ester, do qual é tirada a primeira leitura, provavelmente foi composto entre os anos 300 e 100 a.C., durante a dominação grega, embora a história narrada remonte ao período da dominação persa, quando o trono era ocupado pelo rei Assuero, cujo reinado se deu por volta dos anos 486 a 465 a.C. A autoria e o lugar de composição do livro são completamente desconhecidos. A história contada no livro não tem correspondência com os fatos históricos. O importante, no entanto, é sua mensagem de libertação e de resistência protagonizada por Ester, uma mulher judia que usa seus privilégios de rainha para interceder ao rei pela vida dos seus compatriotas judeus, que estavam para ser exterminados. A real ameaça ao povo judeu, porém, não era à sua existência física, mas sim à sua identidade cultural e religiosa, incluindo a fé no Deus criador e libertador, devido à imposição da cultura grega.

O trecho selecionado pela liturgia é bastante curto, e, para ser compreendido, é necessário recordar brevemente alguns fatos que o antecedem. Ester, uma jovem judia de esplêndida beleza que vivia entre os deportados, foi escolhida pelo rei Assuero para ser rainha (Est 2,1-18). Na corte, atua como primeiro-ministro um homem chamado Amã, o qual trama o extermínio de todo o povo judeu, incluindo a própria Ester (Est 3,1-13). Informada da situação, ela é chamada a intervir (Est 4,1-8). É nesse contexto que se insere a leitura, cujo conteúdo é exatamente a intervenção de Ester junto ao rei. Vestida como rainha, Ester se apresenta diante do rei (Est 5,1-2) para convidá-lo a um banquete preparado por ela mesma (Est 5,3-6). Fascinado pela sua beleza, o rei atende ao convite e comparece ao banquete, demonstrando todo o seu apreço por ela. Surge, então, a oportunidade de Ester interceder por si e pelos seus compatriotas judeus, já que o rei lhe dá a oportunidade de pedir qualquer coisa, até mesmo a metade do reino (Est 7,2), garantindo que a rainha terá seu pedido atendido. O que ela pede é sua vida e a vida do seu povo (Est 7,3).

Como mulher que resiste e intercede, Ester é prefiguração de Maria, a mulher do sim a Deus e da fidelidade ao seu filho, Jesus, que também intercede pelo seu povo necessitado de vinho bom, símbolo da felicidade e da vida em abundância.

2. II leitura: Ap 12,1.5.13a.15-16a

A segunda leitura é tirada do Apocalipse de São João, o último livro do Novo Testamento, escrito – nos últimos anos do primeiro século, quando Domiciano era o imperador romano – por um profeta, discípulo do apóstolo João, que também usa o nome João como pseudônimo (Ap 1,2). A palavra “apocalipse” quer dizer revelação; significa tirar o véu que encobre uma realidade para torná-la conhecida, empregando a linguagem simbólica, característica do gênero literário apocalíptico. O Apocalipse é um livro de resistência que faz intenso uso de imagens para criticar o poder opressor e transmitir esperança e coragem aos cristãos perseguidos, ensinando que é Deus quem tem a palavra final sobre a história. Seus primeiros destinatários foram os cristãos da Ásia Menor (Ap 1,4), vítimas da perseguição de Domiciano.

O texto lido nesta solenidade narra a luta entre a mulher e o dragão, representando as forças do bem e do mal (vv. 1.13). É luta desigual entre uma criatura frágil e um monstro terrível. A mulher é imagem da Igreja, a comunidade cristã, aparentemente indefesa e frágil; o dragão, que tem a serpente como aliada (v. 15), é a imagem do poder opressor – na época, o Império Romano, com todo o seu aparato militar e ideológico, e, ao longo da história, toda força que se opõe à instauração do Reino de Deus na terra. Apesar da aparência frágil, a mulher é revestida de Deus; os elementos mais esplendorosos da criação – sol, estrelas, lua e terra – estão à sua disposição, dando-lhe beleza e proteção (vv. 1.16). Dela nasce um filho para governar o mundo (v. 5); trata-se, obviamente, de Jesus, mas ressuscitado, que está, ao mesmo tempo, nos céus junto de Deus e presente no cotidiano das comunidades cristãs.

A resistência da mulher ao dragão mostra que Deus fortalece os pequeninos e marginalizados da história. Maria, a mãe de Jesus, é personificação e prova das escolhas de Deus pelos que, sendo simples e humildes, são capazes de confundir e vencer os grandes. Por isso, muito cedo os cristãos associaram essa mulher a Maria, geradora de Jesus, o Filho de Deus.

3. Evangelho: Jo 2,1-11

O Evangelho segundo João descreve sete sinais realizados por Jesus ao longo do seu ministério. Nesse Evangelho, os atos prodigiosos de Jesus não são chamados de milagres, mas de sinais. O autor reconhece que Jesus realizou muitos outros, mas escolhe somente sete – na tradição bíblica, número que evoca perfeição e completude – para constar em seu livro, julgando-os suficientes para revelar a identidade de Jesus como o Cristo, o Filho de Deus, despertar a fé da comunidade nele e gerar vida em seu nome (Jo 20,30-31). O texto lido nesta liturgia, o relato das bodas de Caná, traz a descrição do primeiro dos sete sinais: a mudança da água em vinho.

O texto fala de uma festa de casamento realizada em Caná da Galileia, na qual estavam a mãe de Jesus e o próprio Jesus com seus discípulos (vv. 1-2). As festas de casamento eram muito apreciadas no mundo semita; ser convidado para uma era motivo de honra e gerava muita alegria. Como, no Antigo Testamento, o matrimônio havia se tornado metáfora da relação entre Deus, o esposo, e Israel, a esposa (Os 2,16-25; Is 1,21-23; 49,14-16; 62,1-5), em toda festa de casamento fazia-se memória da Aliança entre Deus e Israel. O cenário é perfeito para a manifestação de Jesus, que veio ao mundo estabelecer nova relação entre Deus e a humanidade, com a participação direta da sua mãe.

Mais do que um gesto de solidariedade aos noivos, a intervenção da mãe de Jesus revela a necessidade de um jeito novo de se relacionar com Deus (vv. 3-5). O vinho é símbolo do amor e da alegria, sinais da presença de Deus na vida das pessoas e das comunidades. A mãe de Jesus age como porta-voz da humanidade carente de amor e vida plena. A recomendação para fazer tudo o que Jesus disser é sinal de confiança na sua palavra e certeza do seu agir (v. 5). As seis talhas de pedra vazias representam a Lei e todo o aparato religioso de Israel, marcado por um complexo de normas e ritos, mas carente de amor (v. 6). Sensível à situação indicada pela sua mãe, Jesus age de modo surpreendente e oferece o vinho em abundância (vv. 7-10). A qualidade e a quantidade do vinho dado por Jesus significam que nada mais separa Deus da humanidade; todo o seu amor é oferecido em abundância, cujo sinal maior será a entrega de Jesus na cruz, onde também estará presente a sua mãe (Jo 19,25-27).

A presença da mãe de Jesus em Caná e na cruz significa que ela participou de todo o ministério de seu Filho e deve participar também da vida de todas as comunidades cristãs, ensinando sempre a fazer tudo o que Jesus disser. Ela não é chamada pelo nome no Evangelho de João porque é personificação de toda a humanidade, especialmente das mulheres. Nela, estão presentes todas as mulheres da terra, com seus sonhos e esperanças.

III. Pistas para reflexão

Comentar as leituras, mostrando a relação entre as três. Lembrar que a verdadeira devoção a Maria consiste em fazer o que Jesus disser, ou seja, viver conforme o Evangelho. Rezar pelos destinos do Brasil, recordando a responsabilidade de todos na construção de um país justo, tolerante, inclusivo e feliz.

Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues

é presbítero da diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife) e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN).