Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2021 - ano 62 - número 339 - pág.: 46-49

PENTECOSTES – 23 de maio

Por Izabel Patuzzo

A força do Espírito

I. INTRODUÇÃO GERAL

A solenidade de Pentecostes é a celebração da plenitude do mistério pascal; a comunhão com Jesus ressuscitado se completa com o dom do Espírito Santo. Em sua origem, a festa de Pentecostes, em Israel, marcava a colheita das primícias. Mais tarde, passou a ser relacionada com o evento salvífico da Aliança, selada no caminho para a Terra Prometida, quando Deus entregou a Lei ao povo no Sinai. No tempo de Jesus, a festa já tinha adquirido este sentido: a entrega da Lei que norteou e orientou o povo escolhido. Na celebração, tornou-se tradição organizar romarias ao templo de Jerusalém para fazer memória desse grande evento. Foi nessa festa que os discípulos receberam o dom do Espírito Santo. Com sua força, os apóstolos tomaram a palavra, proclamaram Jesus Cristo como a Nova Aliança, selada com todos os povos. Assim, Pentecostes passou a ser já não uma festa restrita ao povo judaico, mas a festa da manifestação de Jesus para o mundo. O anúncio querigmático da obra redentora de Jesus passa a ser proclamado em todas as línguas, ressaltando o caráter universal da salvação por ele realizada.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

2. I leitura (At 2,1-11)

No relato da primeira leitura, Lucas narra a manifestação do Espírito Santo no dia em que, na tradição judaica, se celebrava a o dom da Lei no monte Sinai, 50 dias depois da Páscoa. A descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, em forma de línguas de fogo, é descrita como o grande evento que lhes deu força e coragem para proclamar o Evangelho a todos os povos, representados em Jerusalém pelos romeiros da festa, que ouvem a proclamação cada qual em sua própria língua. Assim o Espírito vem continuar a obra de Jesus. Ele guia e impulsiona os discípulos a pregar o Evangelho do Mestre. A primeira comunidade cristã tinha sido reunida por Jesus durante sua vida. Mas o que foi tão decisivo no evento de Pentecostes, depois de sua morte e ressurreição? É que começou a proclamação ao mundo inteiro da salvação em Jesus Cristo, morto na cruz e ressuscitado. Para os antigos judeus, Pentecostes marcava a data da entrega da Lei ao povo escolhido, na teofania do Sinai. De modo semelhante, quando os apóstolos proclamam em Pentecostes a salvação em Jesus Cristo, é constituído o novo povo de Deus. Não só Israel, mas todos os povos agora são alcançados, cada um em sua própria língua, em sua própria realidade e cultura.

A língua é não somente expressão da identidade cultural de um grupo humano, mas também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas e criar comunidade. Falar em outras línguas é criar relações novas, é possibilitar a superação de círculos fechados entre si, do egoísmo, da divisão, do racismo, da marginalização, dos preconceitos e polarização de opiniões. O dom do Espírito Santo faz o inverso do que aconteceu em Babel, onde, por ambição desmedida, por orgulho e egoísmo, foram estabelecidas profundas divisões entre as pessoas. O dom do Espírito Santo reconstrói a unidade, as relações fraternas de caráter universal, dando nova identidade ao povo de Deus, capaz do diálogo, do entendimento e da comunicação. A vinda do Espírito marca o surgimento da nova humanidade, unida não pela força, mas pela partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, comunhão e amor.

 2. II leitura (1Cor 12,3b-7.12-13)

Entre os primeiros cristãos de Corinto havia o costume de exercer o dom das línguas, no sentido de proclamar frases em línguas estranhas. Paulo, porém, adverte-os de que os dons não devem ser fonte de desunião. Os fiéis, com sua diversidade de dons, devem complementar-se, como os membros de um mesmo corpo. Esse é o grande milagre de Pentecostes, é a perfeita harmonia, fruto do Espírito, que insere todos no espírito de partilha e entendimento, falando a linguagem do amor e tendo os mesmos sentimentos.

A leitura mostra que os ministérios, dentro da comunidade cristã, são obra do Espírito Santo. É o mesmo Espírito que move as pessoas a colaborar na missão evangelizadora, segundo o carisma de cada um. Paulo, ao olhar para o interno da comunidade, chama as diversas funções de carismas, dons da graça de Deus para o bem e a vida da comunidade. A diversidade de dons é fruto da ação do Espírito Santo, que inspira a todos, formando a unidade. Os diversos carismas não provêm de nossa ambição pessoal; por isso, quando postos a serviço da comunidade, promovem o enriquecimento de todos e não causam divisão.

3. Evangelho (Jo 20,19-23)

O Evangelho segundo João apresenta, em relação a Mateus, Marcos e Lucas, uma visão muito distinta sobre a exaltação de Jesus. A concepção joanina da exaltação de Jesus está intimamente relacionada com sua morte na cruz, ressurreição e dom do Espírito, pois sua morte é a obra em que Deus é glorificado. O lado aberto de Cristo, quando entrega a vida na cruz por amor, é fonte do Espírito para seus discípulos. Por isso, no relato joanino da ressurreição, Jesus aparece aos seus para lhes comunicar a paz e soprar sobre eles o Espírito Santo, a fim de retirar o pecado do mundo e continuar sua obra redentora.

O texto se inicia destacando a situação da comunidade dos discípulos após a morte de Jesus: o anoitecer, as portas fechadas e o medo compõem uma descrição que reproduz a situação de uma comunidade desamparada em meio a um ambiente hostil. Entretanto, Jesus ressuscitado aparece no meio deles; João relata dessa forma a experiência desse encontro, que muda radicalmente o espírito da comunidade. Assim, os discípulos redescobrem o centro de sua fé, sua referência, e tomam consciência da sua identidade cristã. Eles se dão conta de que a comunidade cristã só pode existir se Jesus está no centro. Jesus começa por saudá-los com a paz, o dom messiânico que esperavam. Nesse contexto, a paz significa, sobretudo, a transmissão da serenidade, da tranquilidade, da confiança que permitirão aos discípulos superar o medo e a insegurança. Agora, com a presença do Ressuscitado na comunidade, nem o sofrimento, nem a morte, nem a hostilidade no mundo poderão derrotar os discípulos, porque têm a certeza de que Jesus está com eles.

Jesus lhes mostra os sinais de sua entrega total: o lado aberto e as mãos. As marcas de sua entrega permanecerão para sempre na memória dos discípulos. Depois vem a comunicação do Espírito pelo sopro, que recorda o sopro de Deus na criação. A comunidade se torna então plena de vida, à semelhança do ser humano, que se torna um ser vivente no relato da criação. Agora os discípulos possuem a vida em plenitude e estão capacitados, como Jesus, para ofertar a vida pelo bem da humanidade. Animados pelo Espírito, formam a comunidade da Nova Aliança e são chamados a testemunhar, com gestos e palavras, o amor de Jesus.

Por fim, Jesus explica a missão dos discípulos, que consiste em eliminar o pecado. Eles são chamados a testemunhar no mundo que Deus oferece o perdão àqueles que se convertem. E todos os que aceitam essa proposta são integrados na comunidade. Assim, a comunidade se torna mediadora da graça de Deus, de seu plano salvífico para toda a humanidade.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A experiência de Pentecostes nos lembra que, para se tornar cristão, ninguém precisa abandonar sua cultura, os valores de suas tradições. Todos os povos são convidados, nas suas diferenças, a acolher o projeto libertador proposto por Deus. A comunidade da qual fazemos parte é esse espaço acolhedor da fraternidade universal? Nela todos encontram lugar e são acolhidos no amor e no respeito, mesmo aqueles a quem não apreciamos ou que não fazem parte de nosso círculo de amigos?

É preciso ter consciência da presença do Espírito; é ele que nos alimenta, dá vida, anima, distribui os dons, conforme as necessidades. É ele que conduz a comunidade na sua caminhada na história. Ele foi distribuído a todos os batizados e reside na comunidade. Temos consciência da presença do Espírito, procuramos ouvir sua voz e perceber suas indicações? Temos consciência de que, a despeito de termos responsabilidade nos ministérios que exercemos, não somos os únicos autorizados a falar em nome do Espírito?

O sopro de vida que recebemos do Espírito transforma o egoísmo em amor partilhado, o orgulho em serviço simples e humilde. É ele que nos faz vencer os medos, superar derrotas e fracassos, descrenças e desilusões, e reencontrar orientação, readquirir a audácia profética, testemunhar o amor e sonhar um mundo novo. É preciso ter consciência da presença contínua do Espírito em nós e nas nossas comunidades, e estarmos atentos aos seus apelos, indicações e questionamentos.

Izabel Patuzzo

pertence à Congregação Missionárias da Imaculada – PIME. É assessora nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB. Mestre em Aconselhamento Social pela South Australian University e em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é licenciada em Filosofia e Teologia pela Faculdade Nossa Senhora da Assunção,
em São Paulo. E-mail: [email protected]