Roteiros homiléticos

QUARTA-FEIRA DE CINZAS – 26 de fevereiro

Por Francisco Cornélio Freire Rodrigues

Voltai ao Senhor com todo o vosso coração!

I. Introdução geral

Esta celebração marca o início da Quaresma, tempo especial no qual somos chamados a percorrer um itinerário intenso de conversão, buscando a reconciliação com Deus, com o próximo e com nós mesmos, a fim de que possamos não apenas celebrar bem a Páscoa do Senhor, mas sobretudo gozar dos seus frutos, transformando-nos em novas criaturas pela graça do Ressuscitado (cf. 2Cor 5,17). Por sinal, conversão e reconciliação, palavras-chave da espiritualidade quaresmal, estão bem evidenciadas nesta liturgia.

A primeira leitura é um convite do Senhor, por meio do profeta Joel, a nos voltarmos para ele com todo o nosso ser, sobretudo com um coração sincero, pois – sendo grandes sua compaixão, bondade e misericórdia – ele perdoa sempre. Na mesma linha, a segunda leitura apresenta uma exortação de Paulo à reconciliação com Deus como oportunidade que não pode passar despercebida, pois é chegado o tempo favorável e, portanto, a conversão é inadiável, ou seja, esse tempo não deve ser desperdiçado. No evangelho, Jesus ensina como tornar eficazes e agradáveis a Deus as três práticas de piedade mais tradicionais do judaísmo – a esmola, a oração e o jejum –, estimulando seus seguidores a não praticá-las com a intenção de serem vistos pelos outros, como fazem as pessoas hipócritas.

Além de pela beleza das leituras, a presente liturgia é enriquecida pelo rito da imposição das cinzas, cuja simbologia recorda a vulnerabilidade da condição humana e a necessidade constante de conversão.

II. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Jl 2,12-18

A primeira leitura é retirada da profecia de Joel. Esse profeta viveu em Jerusalém, provavelmente no período do pós-exílio, em um ambiente sacerdotal. Na época, o país passou por grave crise, provocada por uma praga de gafanhotos (cf. Jl 1,1-2,10). Nas sociedades agrárias da antiguidade, como Israel, a praga de gafanhotos era, com efeito, uma das mais terríveis, pois devastava as plantações em pouco tempo, causando enormes prejuízos e fome.

Sendo Israel um povo teocêntrico, tudo o que acontecia era atribuído a Deus, sobretudo as catástrofes naturais: as coisas boas eram vistas como recompensa, e as coisas ruins eram consideradas castigo. Logo, a praga de gafanhotos fora interpretada como castigo de Deus. O profeta, de sua parte, sabia que aquilo não era castigo, mas, atento aos sinais dos tempos, percebendo as infidelidades do povo e as inúmeras injustiças cometidas, aproveitou a ocasião para fazer forte convite à conversão, expresso pelo imperativo “voltai para o Senhor” (vv. 12-13), pois, em hebraico, conversão significa retorno ou mudança de caminho.

O apelo do profeta à conversão visava a uma renovação interior, propondo uma penitência que fosse originada no coração: “rasgai o coração, e não as vestes” (v. 13). É importante ressaltar que ele não dispensa os sinais exteriores de penitência, como o jejum, os lamentos (cf. vv. 12.15) e as cerimônias cultuais em si (cf. vv. 15-16), mas deixa claro que tudo isso só tem sentido se brotar do coração. A busca pela conversão pressupõe o reconhecimento da necessidade de mudança interior e uma demonstração de confiança na misericórdia de Deus, na sua capacidade de perdoar (cf. vv. 13-14.18), não obstante as infidelidades e incoerências do povo. A conversão é uma necessidade vital do ser humano, e todos, sem exceção, devem buscá-la, tanto na esfera individual quanto na dimensão comunitária (cf. v. 16).

A intuição do profeta prepara, portanto, a segunda leitura e o evangelho: é necessário aproveitar os momentos propícios à reconciliação, mas somente com disposição interior, sem almejar o reconhecimento das pessoas.

2. II leitura: 2Cor 5,20-6,2

A segunda leitura propõe o tema da conversão, abordado por meio da exortação à reconciliação que Paulo dirige aos cristãos de Corinto. Além de enfrentar conflitos internos, aquela comunidade estava vivendo uma situação conflituosa na relação com Paulo, pois, depois da sua passagem por ela, apareceram novos pregadores que, de certo modo, estavam distorcendo o que ele lhe tinha ensinado. Dos conflitos internos, Paulo tratou na primeira carta; da sua relação com a comunidade, tratou na segunda, exortando à reconciliação, tema desta leitura.

Paulo se apresenta como embaixador de Cristo (cf. 5,20), imagem de fácil compreensão no contexto do império romano. O embaixador era aquele que falava e agia em nome do imperador. Ao se apresentar como embaixador de Cristo, Paulo quer dizer que foi designado por Cristo para anunciar seu evangelho. A mensagem é de Cristo, não sua; por isso, a comunidade deve acolhê-la. Ao reconciliar-se com o apóstolo, é com Deus mesmo que a comunidade está se reconciliando. A reconciliação é proposta a partir de Cristo: por meio dele, Deus reconciliou a humanidade consigo. A afirmação do v. 21 significa isto: o Filho de Deus assumiu a condição humana para justificar o gênero humano e o fez com sua morte e ressurreição. Se Deus não poupou o próprio Filho para reconciliar consigo a humanidade, também seus filhos e filhas não devem medir esforços para viver reconciliados entre si e com Deus. Como embaixador de Cristo, Paulo insiste em anunciar e viver essa graça de Deus (cf. 6,1).

O tempo favorável, “o dia da salvação” (6,2), portanto, é todo o tempo da ressurreição de Jesus em diante e deve ser vivido todos os dias, como um “hoje” contínuo. Especificamente, a Igreja propõe a Quaresma como expressão desse tempo, como oportunidade privilegiada para cada pessoa viver a reconciliação, acolhendo o perdão de Deus e construindo relações fraternas e solidárias com o próximo, segundo o amor com o qual Cristo mesmo nos amou.

3. Evangelho: Mt 6,1-6.16-18

O evangelho é um trecho do “discurso da montanha” (Mt 5-7), o primeiro e mais importante dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus. Os destinatários desse discurso são os discípulos, desde os de outrora até nós, no presente. No trecho em questão, Jesus faz algumas considerações a respeito das três práticas fundamentais da piedade judaica: a esmola (cf. vv. 2-4), a oração (cf. vv. 5-6) e o jejum (cf. vv. 16-18). É interessante perceber que Jesus não pretende cancelar o valor de tais práticas; ao contrário, seu objetivo é torná-las eficazes, ou seja, agradáveis ao Pai.

Antes de tratar de cada uma delas em particular, ele faz uma advertência geral que introduz e, ao mesmo tempo, sintetiza tudo o que dirá em seguida: “Ficai atentos para não praticar vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (v. 1). O que Jesus diz em seguida é apenas o desenvolvimento dessa frase, com exemplos concretos sobre a esmola, a oração e o jejum. A recompensa dos homens é o aplauso, a visibilidade, os elogios (cf. vv. 2.5.16). A recompensa do Pai não é a prosperidade nesta vida ou o paraíso após a morte, como se imaginava na época e também nos dias atuais, mas é o dom de amar cada vez mais, conformando-se a ele. É a graça de participar do Reino de Deus desde agora. Antes do trecho de hoje, Jesus já tinha feito outra advertência semelhante: “Se vossa justiça não superar a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos céus” (5,20).

É muito significativo que essas três práticas sejam tratadas juntas. Para Jesus, esmola, oração e jejum estão no mesmo nível e só têm sentido se estiverem unidas, pois são inseparáveis. A oração deve prolongar-se na vida concreta, mediante a caridade em favor do próximo, e o jejum deve transformar-se em oferta aos mais necessitados. Quando as necessidades do próximo são ignoradas, a oração e o jejum se tornam totalmente ineficazes e insignificantes. Jesus insiste para que seus discípulos não façam da religião um teatro, ou seja, que não façam como os hipócritas, que, por meio da esmola, da oração e do jejum, visavam ao reconhecimento dos outros (cf. vv. 2.5.16).

Enfim, o que Jesus pede é gratuidade e sinceridade nas relações com Deus e com o próximo, acompanhadas de empenho na construção do Reino. Assim, a prática adequada da esmola, da oração e do jejum se torna sinal e meio eficaz de conversão. Na vida dos cristãos, tudo deve ser originado no coração, tendo em vista somente a intimidade com o Pai e o bem do próximo.

III. Pistas para reflexão

Mostrar a relação entre as leituras, incluindo o salmo, e enfatizar a centralidade que os temas da conversão e da reconciliação ocupam nelas. A Quaresma é o tempo favorável para a conversão, e sua primeira exigência é a reconciliação com Deus e com o próximo, o que pressupõe o cultivo de relações sinceras e fraternas. A intimidade com Deus depende substancialmente da maneira de lidar com o próximo. Incentivar a participação intensa nos sacramentos, para que todos aproveitem “o tempo favorável”. Recomendar a prática da esmola, da oração e do jejum em sintonia com as necessidades concretas da comunidade e com o tema da Campanha da Fraternidade.

Francisco Cornélio Freire Rodrigues

Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues é presbítero da Diocese de Mossoró-RN. Possui mestrado em Teologia Bíblica pela Pontificia Università San Tommaso D’Aquino – Angelicum (Roma). É licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia – Insaf (Recife) e bacharel em Teologia pelo Ateneo Pontificio Regina Apostolorum (Roma). É professor de Antigo e Novo Testamentos na Faculdade Católica do Rio Grande do Norte (Mossoró-RN).