Roteiros homiléticos

Sexta-feira da Paixão do Senhor – 10 de abril

Por Luiz Alexandre Solano Rossi

Uma morte humana, demasiado humana

I. Introdução geral

            Jesus não agia e decidia como se tudo estivesse programado; ou seja, não seguia um script que determinava tanto o que falava quanto o que fazia. Não podemos pensar que Jesus fosse uma marionete nas mãos de Deus. As ações dele e suas palavras/mensagens eram marcadas pela solidariedade diante das tragédias da vida. É mais razoável assentir que o cotidiano de Jesus se configurava em função das dores e das crises de seu povo. Em meio à contradição da vida de homens e mulheres é que ele se inseria e decidia seus discursos e comportamentos. Jesus fez da solidariedade seu grande programa de vida. E nós?

II. Comentários aos textos bíblicos

I leitura: Is 52,13-53,12

Na primeira leitura, encontramo-nos com o quarto cântico do servo. Nesse cântico, o sofrimento e a morte são consequência da missão. Posteriormente, os redatores do Novo Testamento farão a releitura desse texto como se tratasse da morte de Jesus. Não há sacrifício expiatório, e sim prática de solidariedade. Deus não precisa de uma vítima expiatória para salvar o povo. Precisa, sim, de ações de misericórdia e de solidariedade em relação às pessoas. A prática da solidariedade é muito mais útil do que o sacrifício. Na verdade, podemos dizer que a antropologia é muito mais importante do que a teologia; ou seja, a maneira como tratamos uns aos outros interessa mais a Deus do que a maneira como o tratamos. O texto de Isaías insiste na substituição do sacrifício pela prática da solidariedade: “No entanto, Javé queria esmagá-lo com o sofrimento: se ele entrega sua vida em reparação pelos pecados, então conhecerá seus descendentes, prolongará sua existência, e o projeto de Javé triunfará por meio dele” (v. 10). Com isso, desautoriza a teologia oficial do pós-exílio, que se fundamentava na prática do sacrifício.

II leitura: Hb 4,14-16; 5,7-9

Jesus somente está junto a Deus por ter exercido a solidariedade para com as pessoas. Nele podemos manter a fé, porque seus passos sempre se direcionaram àqueles que precisavam urgentemente de gestos de solidariedade e de fraternidade. Nele não há insensibilidade à fraqueza, pois foi justamente a partir da fraqueza que ele se fez forte. O auxílio oportuno somente se manifesta quando temos condições de nos juntarmos aos pobres e fracos deste mundo. A obediência encontrou em Jesus a plenitude (cf. Hb 5,7-9). Tornou-se ele mesmo exemplo que deve ser seguido e imitado. Sua obediência produz frutos não para ele mesmo, mas para todos quantos lhe obedecem. Para estes, ele se torna “fonte de salvação” (v. 9). Por ter se solidarizado com a humanidade ao enfrentar a morte, Jesus pode ser chamado, ao mesmo tempo, de Filho de Deus e sacerdote de Melquisedeque. Desde que Cristo se assentou no trono de Deus, já não há perigo para os crentes se aproximarem dele (cf. Is 6,1-6; Ex 19,21), visto que se converteu em “trono da graça” (Hb 4,16), pois Cristo se apresenta como nosso irmão, conhece por experiência (cf. Hb 4,15) nossa situação de debilidade e, por isso, está presente solidariamente para nos socorrer.

Deve-se salientar que o autor de Hebreus, ao falar do sumo sacerdote, abre mão do aspecto de autoridade (cf. Hb 3,1-6) para insistir unicamente no aspecto da solidariedade. Cristo se mostrou solidário à humanidade ao haver adotado uma atitude de humildade. Hebreus 5 descreve de forma bastante precisa o caminho de humildade e de solidariedade que conduziu Cristo ao sacerdócio. Trata-se de evocação impressionante da paixão de Cristo, que nos faz pensar particularmente em sua oração no Getsêmani (cf. Mt 26,36-44). Vemos como Cristo compartilhou até o fim nossa condição humana, com tudo o que isto supõe de miséria e de sofrimento. Em meio à angústia de uma morte iminente, ele reza, grita e chora (cf. 5,7). Mostrando-se compassivo para com os fracos (cf. Hb 5,2), sua situação corresponde àquela que todo sumo sacerdote precisa aceitar para ser capaz de verdadeira compaixão.

Evangelho: Jo 18,1-19,42

            A cena transcorre num jardim. Deliberadamente, Jesus nele entra para enfrentar, nesse momento, as forças do mal que se apresentam na forma do poder imperial em aliança com as lideranças religiosas. É impressionante a força do diálogo entre Jesus e os soldados e como Jesus demonstra ter real clareza sobre sua identidade: “‘Quem vocês estão procurando?’ Responderam-lhe: ‘Jesus Nazareno’. Jesus lhes disse: ‘Sou eu’” (18,4-5). Não há espaço para dúvidas. As palavras de Jesus são diretas, certeiras. Gaguejar, jamais. Tão certeiras são as palavras, e, mesmo que sejam apenas duas – EU SOU –, os soldados caem no chão. São palavras densas de significado e, portanto, não voltam vazias. O jardim ainda continuaria a produzir flores. As forças do mal até mesmo poderiam pensar que a vitória estava com elas. Os soldados cumpriam exemplarmente uma ordem militar. No entanto, desconheciam por completo que a entrega amorosa da vida de Jesus representava o retorno ao Pai e, consequentemente, o “reverdejamento” do jardim. O império do mal jamais poderia impedir a chegada da primavera. Uma morte humana, demasiado humana. Em seu relato da paixão, João insiste na soberana liberdade que Jesus manifestou ao se aproximar de sua própria morte. Ao enfrentar a tragédia que se avizinhava, ele teve a competência de converter essa prova inevitável em um ato de amor e de solidariedade. Nem por isso, porém, João e os demais evangelistas deixam de mostrar a angústia e, provavelmente, a dúvida que se apoderaram de Jesus condenado à cruz. O próprio Jesus compartilhou a sorte comum a toda a humanidade. Com sua morte e ressurreição, a morte mudou de sentido. Certamente ela continua a ser o final aparentemente absurdo da existência humana. No entanto, de uma vez por todas, deixou de ser o sinal veemente da ruptura desesperada que nos leva para longe do Amor definitivo. A morte designa a caducidade biológica e a total finitude do ser humano. Ensina-nos que somos provisórios, não definitivos, e insiste em lembrar que possuímos um horizonte limitado. A ressurreição de Jesus nos recorda que há um retorno ao amor de Deus. Se, na primeira leitura, observávamos que o sofrimento e a morte do servo eram consequências de sua missão, podemos também afirmar que o sofrimento e a morte de Jesus refletem sua missão junto ao povo.

III. Pistas para reflexão

1) A solidariedade é marca essencial do discípulo de Jesus. É ela, fundamentalmente, que nos faz romper com nosso próprio mundo e passar a caminhar em direção a outros mundos de possibilidades. Solidários, temos condições de nos abrirmos para a partilha. Rompemos com a prática do egoísmo e com a cultura própria do consumo. Paramos de recitar o “compro, logo existo” para exercitarmos a prática de obras de misericórdia para com todos aqueles que nos rodeiam.

2) Jesus é o EU SOU que confronta os poderes da morte. Apenas a presença dele é suficiente para desestruturar toda e qualquer manifestação de antivida. Como testemunhas que somos do EU SOU, também devemos compreender que nossa prática, valores e ações são suficientes para desestruturar as manifestações de morte, violência, pobreza e discriminação espalhadas por toda a sociedade.

Luiz Alexandre Solano Rossi

Luiz Alexandre Solano Rossi é doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp) e pós-doutor em História Antiga pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary (Califórnia, EUA). É professor no programa de Mestrado e Doutorado em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Publicou diversos livros, a maioria pela PAULUS, entre os quais: A falsa religião e a amizade enganadora: o livro de Jó; Como ler o livro de Jeremias; Como ler o livro de Abdias; Como ler o livro de Joel; Como ler o livro de Zacarias; Como ler o livro das Lamentações; A arte de viver e ser feliz; Deus se revela em gestos de solidariedade; A origem do sofrimento do pobre.