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LEÃO XIV: CIDADÃO DO MUNDO, MISSIONÁRIO DO SÉCULO XXI

07/05/2026

Eliseu Wisniewski**

** Presbítero da Congregação da Missão Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Eis o Artigo:

A eleição de Robert Prevost ao pontificado, tornando-se Leão XIV, colocou no centro da cena eclesial mundial uma figura até então relativamente pouco conhecida fora de círculos especializados. No momento de sua escolha, poucos elementos estavam disponíveis publicamente sobre suas declarações, discursos, homilias ou posições eclesiais/teológicas. Seu rosto era familiar sobretudo aos fiéis do norte do Peru, que o viram atuar como formador agostiniano em Trujillo e, mais tarde, como bispo de Chiclayo. Contudo, poucos registros subsistiam acerca de sua palavra pública ao longo desses anos, além de manifestações recentes, especialmente em redes sociais, nas quais reagiu a determinadas tomadas de posição do vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance. Essa escassez de fontes diretas conferia à eleição de Prevost uma aura de surpresa e, ao mesmo tempo, despertava legítima curiosidade sobre sua trajetória, seu pensamento e seu estilo pastoral.

É precisamente essa lacuna que a obra Leão XIV: cidadão do Mundo, missionário do século XXI (Paulus, 2026, 304 p.), de autoria da jornalista Elise Ann Allen, se propõe a preencher. O livro oferece um perfil biográfico do novo pontífice, construído ao longo de 304 páginas com rigor jornalístico, sensibilidade pastoral e inteligência interpretativa. A autora recompõe a vida de Prevost desde suas raízes familiares em Chicago até sua longa experiência missionária no Peru, seguindo seu caminho como religioso, formador, superior-geral, bispo, cardeal e, enfim, papa. O resultado é um retrato humano e espiritual que oferece ao leitor não apenas informação, mas também compreensão, elemento essencial quando se trata de figuras cuja missão é de natureza profundamente pastoral e de forte valor simbólico.

A narrativa de Allen se apoia em um mosaico de testemunhos colhidos nos Estados Unidos, no Peru e em Roma. Familiares, amigos de infância, confrades agostinianos, seminaristas que o tiveram como formador, leigos que conviveram com ele em comunidades missionárias, colaboradores da Cúria Romana e bispos contribuem para compor uma visão plural e integrada. Essa metodologia biográfica que combina entrevistas e escuta permite compreender como o jovem agostiniano de Chicago foi sendo moldado por contextos culturais diversos e por desafios muito concretos, desde a vida em paróquias rurais peruanas até a complexidade administrativa e diplomática da Cúria. O que emerge é a figura de um homem descrito repetidamente como prudente, discreto, capaz de escutar e profundamente atento às condições reais das pessoas. Sua relativa ausência das manchetes e sua postura reservada, longe de indicarem inexpressividade, revelam antes um estilo ministerial moldado na vida cotidiana, mais atento aos processos do que às declarações. Por isso, o livro de Allen desempenha um papel relevante para o mundo eclesial: ilumina a coerência entre o silêncio público de Prevost e a densidade humana, espiritual e pastoral construída ao longo de décadas.

Um dos aspectos mais relevantes do livro são as duas entrevistas exclusivas que Leão XIV concedeu à autora. Elas funcionam como um fio condutor e, ao mesmo tempo, como chave hermenêutica da narrativa. A primeira entrevista, realizada em 10 de julho de 2025 na residência papal de Castel Gandolfo, tem caráter marcadamente autobiográfico. Nela, o pontífice revisita sua infância, suas primeiras experiências de fé, o despertar vocacional e as etapas que o conduziram da vida religiosa à missão episcopal. A autora utiliza amplamente essas reflexões ao longo dos capítulos, permitindo que a voz do próprio Prevost se misture às memórias daqueles que conviveram com ele. O resultado é um relato biográfico mais orgânico, no qual o leitor encontra não apenas fatos, mas significados, aquilo que o próprio papa identifica como decisivo em seu caminho. A segunda entrevista, conduzida em 30 de julho de 2025 no Palácio do Santo Ofício, já apresenta o olhar do pontífice sobre o presente e o futuro. Em formato de perguntas e respostas, ela aborda temas eclesiais, culturais e geopolíticos relevantes no início de seu pontificado. Allen observa que, sobre alguns assuntos, Leão XIV demonstra clareza e firmeza; sobre outros, reconhece que ainda está discernindo os melhores caminhos. Essa honestidade confere à obra um tom pastoralmente significativo: revela um pontífice que não se coloca como detentor de respostas prontas, mas como alguém atento aos sinais dos tempos e disposto ao discernimento eclesial.

A dimensão missionária ocupa lugar central na obra. Ao narrar a chegada de Prevost ao Peru em meados da década de 1980, Allen descreve o contexto social e eclesial então marcado por desigualdades, tensões políticas e grandes desafios pastorais. Nesse ambiente, o jovem presbítero aprendeu, segundo os testemunhos, a valorizar a proximidade, a humildade e a perseverança, elementos que se tornariam constitutivos de sua identidade pastoral. O período em Trujillo como responsável pela formação agostiniana demonstra sua capacidade de liderar processos formativos com profundidade humana e doutrinal, integrando a vida comunitária, o estudo e o serviço pastoral. Já como bispo de Chiclayo, Prevost é lembrado por sua postura dialogal, por sua atenção às comunidades mais vulneráveis e por sua habilidade em construir consensos, competência que mais tarde seria essencial em sua atuação na Cúria Romana como responsável pelos bispos. A autora mostra como essas etapas, somadas ao serviço como Superior-Geral dos Agostinianos, configuraram uma espiritualidade marcada pela escuta, pela sinodalidade e pela firme convicção de que a missão nasce do encontro com as realidades concretas das pessoas.

A relevância da obra está em apresentar Leão XIV não apenas como líder institucional, mas como pessoa pastoralmente situada. Os relatos colhidos por Allen mostram um homem acessível, afável, capaz de estabelecer vínculos humanos profundos e de valorizar as divergências como oportunidades de crescimento. Surge daí uma sensibilidade pastoral que combina fidelidade à tradição, atenção aos pobres e capacidade de discernimento prudencial. Essa abordagem biográfica pastoral é particularmente importante num momento em que a Igreja busca integrar renovação missionária, diálogo cultural e fidelidade ao Evangelho. Ao apresentar o novo pontífice como alguém formado na diversidade e atento aos processos formativos e sinodais, Allen sugere, sem afirmar, que tais elementos poderão marcar seu estilo de governo e sua visão de Igreja.

O livro se encerra convidando o leitor a percorrer a mesma jornada realizada pela autora: descobrir quem é Leão XIV a partir de sua história, de suas relações, de suas experiências e de suas próprias palavras. Longe de propor um perfil definitivo, a obra oferece um quadro interpretativo rico que, ao articular biografia, testemunho e reflexão, permite compreender de modo mais profundo o novo pontífice. Para leitores, estudiosos, agentes de pastoral e todos os que buscam entender os rumos da Igreja no século XXI, a obra de Elise Ann Allen se torna uma referência indispensável. Seu valor reside em articular perspicácia pastoral com uma escrita acessível, capaz de evidenciar a humanidade e a missão de quem hoje ocupa a cátedra de Pedro. Assim, o livro não apenas preenche lacunas informativas: ele oferece chaves para interpretar um pontificado nascente e para acompanhar, com lucidez e esperança, os caminhos que Leão XIV poderá imprimir à Igreja em tempos de complexos desafios e renovadas possibilidades.