Publicado em novembro – dezembro de 2026 - ano 67 - número 372 - pp. 12- 19
Confissões – A vida como experiência da graça
Por Me. Heres Drian de O. Freitas*
As Confissões de Santo Agostinho são uma leitura teológica da própria vida, na qual cada vivência é considerada experiência de graça – às vezes até mesmo negativa –, tendo em vista a conversão e a santificação.
Introdução
As Confissões de Santo Agostinho são uma obra fundamental da espiritualidade, lidas com proveito por muitos desde que foram publicadas, por volta do ano 400 de nossa era. Não obstante, houve também os que se decepcionaram com o texto, talvez por sugestão do título, criando a expectativa da confissão de detalhes picantes da juventude pervertida do autor, como se costuma pensar que foi sua vida até converter-se; ou, então, por acharem enfadonha uma narração escrupulosa, que se detém em pecados aparentemente banais, como um roubo de peras (II, 4, 9ss).
A obra, com efeito, não é como as biografias a que estamos acostumados. Sua riqueza espiritual, entre outras coisas, deve-se ao fato de o hiponense reler teologicamente toda a sua história, dando-se conta de sua origem, de onde se encontra e de seu destino (I, 1, 1), clamando a Deus (II, 3, 5) para que Ele o liberte de situações em que se colocou com suas escolhas (III, 7, 16). Assim, sua obra é um roteiro para incutir esperança (X, 3, 4), para que o amor de Deus desperte no leitor (XI, 1, 1) e este o louve com a inteligência e o afeto (cf. Retratações II, 6, 1). Por isso a biografia do Doutor da Graça não consta só daquelas particularidades biográficas que caberiam unicamente a Agostinho, embora se trate de fato de sua biografia.
1. Biografia teológica
A obra verdadeiramente apresenta a vida do homem Agostinho: os dados – pessoas, fatos e até mesmo os sentimentos – são reais, ainda que o autor rearranje alguns deles (o Livro V, por exemplo, é organizado em torno de deslocamentos geográficos, enquanto o VI gira em torno de determinados personagens, sem relação com os deslocamentos precedentes; assim também, há eventos descritos no Livro IX com paralelos nos Diálogos de Cassicíaco, e as sequências cronológicas neles apresentadas não coincidem). Não importa! Nas Confissões não é fundamental a cronologia, mas os próprios fatos e os sentimentos que os precedem, os acompanham ou os sucedem, porque extrapolam para além de si mesmos: são ponto de partida para a reflexão a respeito das mais íntimas questões da humanidade – refiguradas na inquietude (afetiva, intelectual e espiritual) do coração indicada no início da obra (I, 1, 1). Ao autor, mais do que os quês da vida, interessam os porquês.
Uma vez que são ponto de partida para a reflexão, pessoas, acontecimentos e sentimentos devem ser, então, reais, biográficos, para que a reflexão a seu respeito ilumine e oriente a vida inquieta no percurso rumo à sua realização na quietude (I, 1, 1; IX, 4, 11; XII, 30, 40; XIII, 38, 53): a vida real – não sua cronologia – é o terreno de ação da graça. As Confissões, portanto, são biografia lida diante do dispensador da graça, são biografia teológica.
Não há, de fato, na obra, relato ou reflexão que não sejam feitos senão diante de um interlocutor constante, um “Tu” onipresente, que não é mero recurso literário: é um dialogante que se antecipa ao ser humano e age para regular a desordem deste último (I, 10, 16; 20, 31) e sua agitação (XIII, 9, 10), para reconduzi-lo de seu pecado como filho pródigo – parábola (Lc 15,11-31) que, com efeito, subjaz à construção do texto.
A biografia teológica é leitura atenta da própria vida na presença do Criador e da presença dele na vida, para identificar onde se encontra a biografia e, se exilada dele – pois sempre há algum distanciamento a superar (X, 4, 5) –, poder peregrinar de volta. Para que Agostinho retorne, o interlocutor onipresente, então, mediante personagens, fatos e sentimentos, interpela-o para que se deixe encontrar por Ele.
Esse encontro, portanto, resulta da ação da graça, e é a partir dele que a graça do interlocutor começa a trabalhar no biografado, para que, depois da deformação do pecado, receba forma, reconfigurando em si a imagem e semelhança do Criador, até que estas se restabeleçam, perfeita e definitivamente, na eternidade (XII-XIII).
2. De que graça falamos?
No entanto, se a graça prepara para a relação e dela decorre, trata-se de uma única e mesma graça ou são diferentes? A resposta não é imediatamente evidente, sobretudo porque nosso autor não emprega o termo “graça” de modo sistemático nem define ou explica o que ela é e/ou como age – ainda que, com base no contexto, não tenhamos dificuldade de entender a que se refere.
Dom para os humildes (IV, 3, 5; VII, 9, 13; X, 36, 59), a graça brilha nos servos de Deus, gera espiritualmente (VIII, 1, 1; 2, 3) e confere o perdão dos pecados (II, 7, 15), cuja libertação se dá pelo único mediador (VII, 21, 27). Narrar uma conversão é anunciar a grandeza da graça nela (VIII, 2, 3; X, 31, 45). Por isso, a própria confissão do autor quer levar o leitor a essa mesma graça (X, 3, 4), para que, na obediência à vontade de Deus, se dê a relação em que o leitor recebe a graça e o dom do amor que esta confere (XI, 22, 28), podendo fazer algo de bom (XIII, 38, 53), regenerado no seio da Igreja (VI, 3, 4), na graça do batismo (V, 8, 15; IX, 5,13; 6, 14; 9, 22).
Em tais circunstâncias, graça refere-se a alguma intervenção divina – já ocorrida ou em realização – orientada para um fim de salvação em favor daquele a quem ela é dispensada. Aqui, tratar-se-ia daquilo que hoje chamaríamos de graça santificante, enquanto dom pelo qual Deus santifica o convertido, ou da graça atuante, enquanto ação divina que conduz àquela.
No entanto, nem sempre o termo alude clara e diretamente a uma ou outra, e sua compreensão talvez não seja tão imediata. Um exemplo disso pode estar na passagem em que o bispo de Hipona fala da leitura e compreensão das Escrituras (VII, 21, 27).
3. Da graça do encontro ao encontro da graça
Agostinho diz aí que aquilo que encontrou de verdadeiro nos livros dos platônicos está nas Escrituras com a garantia da graça divina. Tal garantia, entretanto, não diz respeito exclusivamente à verdade da mensagem do texto. Essa verdade é, indubitavelmente, afiançada por Deus mesmo, mas o é em certo escondimento.
Na doutrina platônica, a verdade se desvela a quem a busca, sem, porém, a garantia da graça, de modo que há, paradoxalmente, o risco de dispersão. Com relação à Escritura, por outro lado, a verdade é assegurada àquele que a busca humildemente, reconhecendo o próprio estado de pecado e purificando-se.
Nesse caso, a graça garante o encontro com a verdade como dupla experiência de dom gratuito: o da verdade mesma, objeto do encontro, e o de sua percepção, o ato de encontrá-la. Aí a graça garante a verdade, sua recepção e a preservação de seu recebedor contra toda soberba, e isso sem qualquer dispersão, pelo contrário.
Diversamente do encontro com a verdade na filosofia, que se dispersa na soberba, pois, como ato próprio, não admite dons nem, por conseguinte, relações, o processo específico de busca da verdade e seu encontro nas Escrituras unifica, integra e concentra.
De fato, no contexto do Livro VII, a identificação do próprio estado de pecado, a purificação e a humildade não decorrem do buscador da verdade, mas sim do acolhimento à oferta da verdade que culmina numa relação estabelecida com a Verdade, o Verbo, princípio e forma do ser humano (XI-XIII), em quem toda a vida deste último se unifica, integra e concentra. Voltar-se para Ele, porém, resulta de percebê-lo, e acolher Sua aproximação é iniciar o movimento de reaproximar-se dele (V, 2, 2; IV, 4, 7).
A garantia da graça, então, diz respeito a uma relação que só pode ser real, vital, porque só na vida, na biografia, é possível perceber aquele “Tu” onipresente cuja graça se manifesta pelo mundo a partir da criação (XIII, 18, 22), oferecendo a possibilidade da relação com ele, que se mostra, tanto na vida como na Escritura, em certo escondimento. E isso não porque queira ocultar-se, mas porque o ser humano se exila dele – fazendo-o se antecipar na busca de seu filho pródigo. Os livros de I a VII mostram o empenho na identificação da presença insinuante de Deus no cotidiano da vida do autor.
Eis por que dedicar atenção à biografia toda; não só àquele momento de percepção e acolhida da presença do Outro – ou seja, da conversão, quando o ser humano, na aceitação dos dons da verdade encontrada e da capacidade de encontrá-la, reconhece humildemente onde está –, mas também aos momentos que o prepararam. Nas Confissões há, portanto, o momento da graça do encontro e a graça dos momentos que prepararam esse encontro.
4. Tudo é graça
Poder-se-ia dizer que tais momentos são graça, acompanhando Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, para a qual “tudo é graça” (Caderno amarelo, 5 de junho, 4). Independentemente do contexto – a ser considerado, por certo – em que Santa Teresa fez essa afirmação, o hiponense com ela concordaria, mas não indistintamente.
Santo Agostinho não conhece as distinções terminológicas, legadas pelo posterior Tratado sobre a graça, entre, por exemplo, graça atuante e graça santificante, ainda que tenha cooperado para fundamentar tais distinções, particularmente em contexto antidonatista. Vimos, não obstante, que concebe a graça como ajuda divina para a santificação e sugere que seja momento de graça cada episódio de sua vida que tenha cooperado para que chegasse à graça do encontro com Deus.
Ele já distinguiria, então, a graça santificante da atuante, mas por enquanto não se ocupa disso. Só mais tarde, e noutra direção, desenvolverá melhor a doutrina. Nas Confissões, faltam ainda complementos terminológicos e especificações, bem como a fundamentação bíblica – embora já iniciada com a intensa leitura dos escritos paulinos no ano de 395. Mesmo assim, Agostinho não tem a menor dúvida de que Deus busque sua vida: não há como ler a biografia humana sem a presença do “Tu” onipresente que dispõe até mesmo de recursos biográficos para seus desígnios salvíficos, os quais ocupam a mente do hiponense quando se converte (IX, 6, 14).
Não há, certamente, comparação possível entre qualquer recurso biográfico humano e a redenção do Verbo. Todavia, em decorrência da graça da redenção, também o recurso biográfico é graça, um dispositivo para a realização dos desígnios salvíficos divinos no cuidado de cada um como se fosse único e de todos como se fossem um (III, 11, 19).
Tudo é graça, então, se “tudo” se refere àquela operação divina pela qual somos “movidos a conhecer e amar a Deus” (Burns, 2019, p. 463), ainda, como diríamos hoje, sem aumento ou estado de graça. Esse “tudo”, portanto, é graça atuante.
5. Os dispositivos da graça antes da graça
Agostinho relê sua vida na perspectiva de que Deus não só o busca, como também o faz providencialmente, proporcionando-lhe dons e permitindo-lhe/negando-lhe viver situações a fim de contribuir para que se converta. Na biografia teológica, os dispositivos da graça, aqueles elementos específicos que realizam os desígnios da Providência, são externos e internos.
Entre os externos, o autor cita, logo no início, o fato de ser Deus mesmo quem o nutre por sua mãe e suas amas, não só lhes dando o leite, mas também lhes infundindo o desejo ordenado de dá-lo à criança que era ele (I, 6, 7). No final desse mesmo livro, apresenta-nos alguns dos dispositivos internos, descrevendo-nos suas qualidades interiores – como o desejo de verdade, o desgosto do engano, a boa memória, a sensibilidade para a amizade –, e afirma: “tudo isso são dons de meu Deus; não os recebi de mim mesmo; são coisas boas e o conjunto deles constitui o meu eu” (I, 19, 31).
Em ambos os casos, temos exemplos positivos de dons fundamentais para a vida, física e espiritual, que tornam Agostinho quem ele é. Externamente positivos serão também os encontros com o Hortensius de Cícero, que lhe reorientará os desejos para a sabedoria (III, 4, 7), assim como com Ambrósio (VI, 1, 1), com os neoplatônicos (VII, 9, 13) e com Simpliciano (VIII, 1, 1), que lhe permitem novas perspectivas.
Por estranho que pareça, também pode haver casos de exemplos negativos que sejam significativos para a conversão. Estes podem ser igualmente externos como internos.
Uma dessas experiências negativas internas aparece no início do Livro II. Ao falar das paixões da puberdade, o hiponense conta que se abandonava a elas e se afastava de Deus, sempre “presente em sua severa misericórdia, entremeando de amargos desgostos os meus prazeres ilícitos, a fim de que eu aprendesse a procurar alegria sem ofender-te” (II, 2, 4).
Já externamente negativo é o encontro com o maniqueu Fausto, cujas respostas aos interrogativos de Agostinho o frustram, fazendo-o, ainda assim, dizer que Deus aí agiu com ele de modo admirável (V, 7, 12-13). Também negativa é a experiência com seus alunos, motivo pelo qual decide partir para Roma, entendendo, depois, que Deus, com isso, agia nele
(V, 8, 14-15).
Ele não diz que o mal ou as experiências negativas sejam bons ou desejados por Deus; só entende não ser possível que eles, particularmente o mal, tendo ocorrido contra a vontade de Deus, permaneçam fora da ordem divina (I, 10, 16; 12, 19). Sob esse aspecto, tais experiências poderiam ser interpretadas como uma modalidade de graça negativa, porque Deus não abandona o pecador ao prazer de seu pecado, mas, pedagogicamente, permite-lhe o dissabor, a insatisfação e a desilusão como se fossem um dom.
Por fim, verifica-se que as experiências externas repercutem internamente, e o inverso também é verdadeiro: experiências internas manifestam-se externamente. Nada escapa à releitura teológica.
Conclusão: louvores pela vida
Como os exemplos da seção anterior, há outros. Momentos de graça que preparam o encontro com a graça, a conversão e a consequente amizade com Deus, mas não se anunciam como tais. A presença, a interpelação e a operação divinas na vida humana não alardeiam, mas se insinuam no cotidiano pelas mais distintas formas: pessoas, sentimentos, situações… nem sempre positivas.
Nas Confissões não há chamados milagrosos ou apelos grandiosos para o descobrimento de Deus, mas a normalidade da vida, para a qual Agostinho, ao ser chamado, olha a fim de ver os dons com os quais ou pelos quais é instado a perceber Deus e voltar-se a ele. Tendo-o, então, encontrado, suas Confissões são seus louvores a Deus pelos bens e males próprios (Retratações II, 6), não porque Deus tenha querido estes últimos, mas porque também eles serviram de aprendizado para que brilhasse a graça. Sob a luz da graça, Agostinho descobre seu lugar, o caminho pelo qual rumar para repousar, vivendo em relação com ela. A confissão é descrição do pecado, mas também profissão de fé na presença constante daquele que, para resgatar o pecador do pecado, antepõe-se a este.
Só a leitura atenta da própria vida, na presença do Outro, permite perceber as intervenções da graça. Trata-se sempre da mesma graça, mas não sempre da mesma modalidade e, por isso, não sempre da mesma intensidade, pois acolher o Outro que interpela não é o mesmo que desfrutar da sua amizade.
Referências bibliográficas
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FREITAS, H. D. de O. A graça em Santo Agostinho: preparação para uma introdução. Apresentação do volume. Revista de Estudos Agostinianos, Curitiba, n. 4, p. 5-12, 2025.
VAN FLETEREN, Frederick. Confessiones. In: FITZGERALD, A. (org.). Agostinho através dos tempos: uma enciclopédia. São Paulo: Paulus, 2019. p. 259-264.
Me. Heres Drian de O. Freitas*
*Heres Drian de O. Freitas, mestre em Teologia e Ciências Patrísticas (Augustinianum – Roma) e membro-fundador da Associação Brasileira de Estudos Patrísticos (ABEPatri), coordena o grupo de pesquisas em Ciências Patrísticas da Faculdade São Bento (São Paulo-SP) e a Coleção Patrísticada Editora Paulus. E-mail: [email protected].

