Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 4-13
FIDELIDADE E ESPERANÇA NO DEUS VIVO; Entendendo o livro de Daniel
Por Prof. Dr. Shigeyuki Nakanose, svd*
O livro de Daniel, em linguagem apocalíptica, alimenta a fidelidade, a resistência e a esperança na luta do povo fiel a Deus contra o império opressor de Antíoco IV Epífanes, rei selêucida, no século II a.C. (Dn 11,21-39). Aponta os sinais de esperança presentes na ação do Deus vivo e libertador, ao longo da história de Israel, para a restauração do Reino de Deus (Dn 6,26-29; 7,9-28), uma sociedade fundada na justiça, no amor e na fraternidade (Dn 4,24; 12,3).
Abrindo o livro de Daniel, encontramos imagens e narrativas fascinantes:
A grande estátua com a cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de cobre, pernas de ferro e pés de ferro e de barro (Dn 2,1-49);[1]
A estátua de ouro e os três jovens na fornalha (3,1-97);
O sonho da árvore gigantesca (3,98-4,34);
O banquete do rei Baltazar com o mistério da mão que escreve uma mensagem incompreensível (5,1-6,1);
O rei divinizado e Daniel na cova de leões (6,2-29);
As quatro feras com o ancião e a figura humana (7,1-28);
A visão sobre o carneiro e o bode (8,1-27);
A visão terrível dos perseguidores (10,1-11,45);
O anúncio de Miguel sobre a salvação e a ressurreição (12,1-4).
O livro de Daniel é construído com narrativas fictícias, novelas, alegorias com visões e sonhos, que são os principais recursos da literatura apocalíptica. Esse texto, escrito no século II a.C., é uma obra apocalíptica importante para defender as tradições de Israel, suscitando a fidelidade, a resistência e a esperança do povo fiel a Deus, contra o imperialismo selêucida (grego), cujas consequências são a injustiça, a concentração de poder, as perseguições e as opressões praticadas pelos generais selêucidas, sobretudo pelo rei Antíoco IV Epífanes.
1. Literatura apocalíptica
A literatura apocalíptica se encontra no Antigo Testamento desde o tempo do Império Persa, devido ao seu domínio opressor (cf. Is 65,17-25; Ap 21,1; 2Pd 3,13). Contudo, é no período entre 200 a.C. e 100 d.C. que esse tipo de literatura floresceu. O objetivo desses escritos é animar as comunidades ameaçadas em todos os sentidos, também em sua existência, pelos Impérios Grego e Romano (cf. numerosas obras apócrifas, como o Livro de Enoque, a Assunção de Moisés etc., que influenciaram as origens do cristianismo, por exemplo: Jd, 2Pd). O gênero literário apocalipse é marcado por várias características. Eis algumas:
Apocalíptica: o termo “apocalipse” é a transcrição de uma palavra grega que pode ser traduzida por “revelação” (Ap 1,1-2). Toda obra apocalíptica supõe uma revelação que Deus faz aos homens e às mulheres sobre a história, o cosmos, o fim dos tempos, o futuro e a intervenção divina, muitas vezes utilizando simbolismo, visão e linguagem enigmática.
A história: a apocalíptica apresenta-se como a revelação de um conhecimento secreto – que teria sido recebido no passado – sobre o presente e sobre o futuro, estando este muito próximo de acontecer (o fim dos tempos). É uma forma de contar a história mostrando que, apesar de toda a força e poder dos impérios e de todo o sofrimento que o povo está vivendo, Deus não perdeu o controle da história e logo irá intervir para punir os opressores e trazer paz e justiça ao seu povo fiel e justo. O fato de o povo perseguido e sofrido ter uma visão ampla da história, na ótica da vitória final dos justos (o juízo final de Deus), suscita nele a fidelidade, a resistência e a esperança. A história é instrução que ensina o povo a resistir para viver!
Dualismo (bem e mal): a história é vista como o campo de combate entre o bem e o mal. O mal, representado pelos poderosos e perversos, persegue o bem, os fiéis a Deus. No final desse combate, os fiéis serão libertos e salvos pela ação de Deus, e o reino do bem se estabelecerá no fim dos tempos, que já está sendo anunciado.
O imperialismo: o movimento apocalíptico é marcado pela opressão violenta e sistemática dos impérios tiranos – guerras, tributos, fome, miséria, escravidão, comércio abusivo, perseguição cultural e religiosa e idolatria (imperialismo). No pós-exílio, a partir de 538 a.C., quando os grandes impérios (Persa, Grego e Romano) dominaram o mundo, o movimento profético, em sua forma clássica, foi desaparecendo (Sl 74,9) e surgiu o movimento apocalíptico como meio de protesto e de resistência do povo, que esperava o fim do império.
Fidelidade, resistência e esperança: os autores apocalípticos produzem, sob a opressão e a perseguição dos impérios, os livros em linguagem simbólica (visões, números, sonhos, novelas), compreensível para seu povo, a fim de fortalecer a fidelidade, estimular a resistência e apontar sinais de esperança presentes na ação de Deus ao longo da história.
2. O contexto do livro de Daniel
O conjunto do livro de Daniel apresenta uma história ampla (Babilônia, Média, Pérsia, Grécia). Mesmo que o autor do livro remonte seus escritos a um passado distante – o exílio da Babilônia e o início do Império Persa –, com as personagens Nabucodonosor (3,1) e Dario (6,1), uma leitura mais atenta nos leva a concluir que o livro reproduz a realidade do período dos generais selêucidas, sobretudo do rei Antíoco IV, entre os anos 175-164 a.C.: as menções da perseguição de Antíoco IV (7,24-25; 8,9-12; 11,21-39), da profanação do templo, da construção de um altar a Zeus Olímpico (“o ídolo abominável”: 8,13; 9,27; 11,31; 12,11; cf. a “abominação da desolação” em 1Mc 1,54), do martírio de “homens esclarecidos” (11,33-35; cf. 1Mc 1,56-64) etc.
Os generais de Alexandre Magno, imperador que venceu os persas e consolidou o Império Grego (333 a.C.), continuaram, nos territórios dominados, o processo de expansão da helenização (ou seja, do espírito do imperialismo, com a busca desenfreada de bens, poder, prazer e honra mediante a implantação da cultura grega: cf. Sb 2). Antíoco III (223-187 a.C.), general dos Selêucidas com sede na Síria, intensificou a helenização na Palestina. Seu filho Antíoco IV Epífanes (175-164 a.C.), que carregava a dívida de guerra de seu pai com o Império Romano, por ter perdido a batalha em Magnésia (189 a.C.: cf. Dn 11,18), incrementou desesperadamente a helenização, usando o exército, o comércio e a religião, em busca de riqueza e de poder (1Mc 3,41). Ele fez campanha no Egito e saqueou o templo de Jerusalém (169 a.C.;cf. 1Mc 1,16-28; 2Mc 5,15-23).
Na implantação da helenização, da cultura e religião grega na Judeia, Antíoco IV Epífanes emitiu um decreto (167 a.C.), extinguindo as práticas da religião judaica (interdições alimentares da Lei: 1,5-8; 2Mc 6,18-31 etc.), consideradas como expressão da identidade judaica: “o rei mandou a Jerusalém e às cidades de Judá um documento com várias ordens: tinham de adotar a legislação estrangeira; proibia oferecer holocaustos, sacrifícios e libações no santuário e também guardar os sábados e festas. Quem não obedecesse à ordem do rei, morreria” (1Mc 1,44-45.50; cf. Dn 11,31).
A longa dominação imperialista (Babilônia, Pérsia, Grécia) chegou ao auge com Antíoco IV.
Não bastavam a exploração econômica e a opressão política: o espírito da helenização do império estava ameaçando exterminar a cultura e a religião judaica, apagar a mais profunda identidade do povo judeu. Nesse contexto, alguns judeus, motivados por interesses econômicos e políticos (empregos, acordos comerciais, benefícios e cargos políticos, como intermediários da opressão), seguiram o decreto de Antíoco IV, assumindo padrões e costumes da cultura grega (1Mc 1,43.52).
No entanto, muitos judeus resistiram aos opressores gregos e até partiram para a luta armada, como a insurreição de Matatias com seus filhos, que receberam o apelido de Macabeus (1Mc 2,1-48). Ao grupo dos Macabeus se agregaram alguns piedosos, hassidim ou assideus (1Mc 2,42), que eram um grupo religioso, fiel e devoto à Torá e às próprias tradições. Outros eram contra a resistência militar, pregando a resistência religiosa e a não violência (11,32-35). Posteriormente, a partir deles surgiram o movimento dos fariseus e o dos essênios.
3. Autor, redação e estrutura
O título “Daniel” é um pseudônimo, nome adotado pelo autor ou responsável pela obra. É possível que seja um nome inspirado no lendário Daniel, citado por Ez 14,14.20, ao lado de Noé e Jó. Daniel significa “Deus é meu juiz” ou “Deus faz justiça”. O autor apocalíptico usa esse nome para apresentar o julgamento e a justiça de Deus contra a perseguição e a opressão do imperialismo grego.
O livro de Daniel foi escrito em três línguas diferentes: hebraico (1,1-2,4a; 8,1-12,12), aramaico (2,4b-7,28, com acréscimo em grego de Dn 3,24-90) e grego (13,1-14,42). O livro, portanto, passou por um longo período de formação, com a junção de várias histórias de diferentes momentos, que foram reunidas por um editor final. Muito provavelmente, o grupo piedoso dos “homens esclarecidos” (11,35; 12,3) é o redator do livro de Daniel, dado que o livro salienta a fidelidade à Torá e às próprias tradições judaicas, admitindo a possibilidade do martírio (3,19-21; 6,17-18).
Na redação final, o livro de Daniel tem duas partes com mais duas pequenas unidades anexadas no fim. A primeira (1,1-6,29) conta a história de Daniel e seus companheiros na corte dos imperadores Nabucodonosor e Dario, resistindo aos poderosos do império, permanecendo fiéis à Lei e às suas tradições e enfrentando fornalhas e covas de leões nas execuções de morte; assim são salvos pelo único Deus vivo, libertador e protetor da vida. A segunda (7,1-12,13) contém a visão mais ampla da história, apresentada como uma sequência de surgimentos e declínios dos impérios (as quatro feras: Babilônia, Média, Pérsia, Grécia), que serão derrubados pela ação de Deus, o único absoluto; assim se aproxima o Reino de Deus, a ressurreição e a salvação definitiva, animando a fidelidade, a resistência e a esperança dos fiéis a Deus.
O primeiro anexo narra a história de Susana (13,1-64), na qual Daniel é apresentado como sábio, com o dom do discernimento, salvando da morte uma mulher inocente, fiel a Deus. O segundo narra a história de Bel e o Dragão (14,1-42), na qual Daniel desmascara o culto a Bel e ao Dragão, a idolatria e a superstição dos babilônios, representantes dos infiéis ao Deus verdadeiro. O Deus único de Israel protege e salva os que o amam (14,38). Os anexos são um suplemento do livro para fortalecer a fé no poder de Deus e agir com sabedoria e fidelidade à Torá e à religião de Israel, mesmo em meio às perseguições.
4. Principais mensagens
O autor desconhecido, talvez pertencente ao grupo dos piedosos, oferece a seu povo, cruelmente perseguido por Antíoco IV Epífanes, as seguintes mensagens de orientação, encorajamento e esperança:
A crítica ao poder opressor do império, aos seus ídolos e à sua idolatria (a estátua de ouro, a árvore gigantesca, o rei divinizado etc.): o autor tenta incutir a fé no Deus vivo e a fidelidade à religião e cultura judaicas, ameaçadas pelo poder opressor do império tirano com sua idolatria (Antíoco IV chega a colocar-se no lugar de Deus, motivo pelo qual adotou o sobrenome Epífanes – “deus manifesto”: o culto ao rei divinizado em Dn 6,6-10), que tenta impor aos judeus, com violência, sua política junto com a religião e os costumes, a serviço de seu lucro e poder.
O governante com justiça e misericórdia (Nabucodonosor e Dario convertidos – 4,16-34; 6,26-29): o imperador absolutista deve converter-se e aprender que o poder pertence apenas ao Deus altíssimo; o governante deve praticar a justiça e a misericórdia para com os pobres e construir a alternativa do Reino de Deus (4,24).
Deus vivo (6,21.27): o autor descreve o Deus de Israel como o Deus vivo, criador, libertador e protetor da vida, que triunfa sobre os poderosos imperialistas, obrigando-os a reconhecê-lo como o único todo-poderoso no céu e na terra. No sofrimento e na perseguição, Deus criador altíssimo liberta e salva aquele que é justo e fiel à cultura e à tradição de Israel e que está disposto a sofrer o martírio para não desobedecer aos preceitos de sua fé (3,1-6,29; 11,33-35).
A total fidelidade a Deus (os três jovens na fornalha, Daniel na cova dos leões, os homens esclarecidos etc.): a fidelidade à Lei e à tradição, expressa nas práticas religiosas, é salientada como um dos caminhos para enfrentar o poder opressor. Essa fidelidade a Deus deve ser total: fidelidade às tradições de Israel não só interiormente, mas também exteriormente, a ponto de correr o risco do martírio (3,19-21; 6,17-18).
O senhorio de Deus atuante na história (as quatro feras destruídas, o carneiro e o bode etc.: 7,1-12,13): o livro de Daniel apresenta uma teologia da história, ou seja, uma leitura profunda da história com a fé no Deus atuante da vida. O livro aponta os sinais de esperança presentes na ação divina ao longo da história, provando a soberania de Deus sobre todos os povos, entre os quais o povo oprimido por Antíoco IV; a libertação do povo de Deus; o juízo definitivo no final dos tempos; a instalação do Reino eterno e universal de Deus (7,14.27; 2,44; 6,27). Tudo isso ajuda o povo de Deus a enfrentar os momentos de crise e tribulação, na espera do fim do império.
O Reino de Deus com o “povo dos santos do Altíssimo”, representado pelo filho de homem (7,1-28): o povo fiel ao projeto do Deus de amor e de justiça (4,24; 9,4) constrói o Reino de Deus, Reino que desmascara e destrói as pretensões dos impérios, fundados na injustiça e na contínua exploração, na produção de miséria e exclusão (2,24-49; 4,11-14). Instaura uma sociedade fundada na justiça e no amor, que produzem liberdade, partilha, solidariedade e fraternidade (4,23-24).
A não violência: o autor do livro de Daniel, que pertence a uma parte do grupo dos piedosos justos (“homens esclarecidos”: 11,33; 12,3), propõe a resistência religiosa e não violenta, confiando na ação de Deus e esperando a salvação final.
A ressurreição na vida eterna e gloriosa de Deus: a fé na ressurreição dos justos e piedosos mártires na dimensão transcendente exprime a luta, a resistência e a esperança da utopia do Reino definitivo de Deus, no contexto da luta dos oprimidos e perseguidos contra os opressores imperialistas. Os mártires justos e piedosos, que ressuscitam historicamente na memória do povo (Sl 112,6), já animam e iluminam a caminhada da luta pela vida (11,33-35).
A esperança ativa: o fim escatológico é a libertação do povo de Deus (12,1). No entanto, o fim apocalíptico não poderá ser conhecido antes de seu momento (12,9). Bem-aventurado é aquele que se mantém firme, espera e alcança o tempo determinado (12,2). Essa espera não deve ser passiva, mas, sim, ativa, na caminhada da construção do Reino de Deus (12,13).
Uma palavra final
No contexto histórico-social de Antíoco IV, o livro de Daniel apresenta, em linguagem cifrada (símbolos, visões, sonhos, novelas), a crítica e a condenação do imperialismo armamentista, que se movimentou por meio da concentração de riqueza e de poder, provocando a violência física e espiritual contra o povo fiel à tradição de Israel. O livro propõe a fidelidade, a resistência e a esperança na luta contra o império violento e opressor, apontando os sinais de esperança presentes na ação do Deus vivo e libertador ao longo da história de Israel, para a restauração do Reino de Deus, uma sociedade fundada na justiça, no amor e na fraternidade.
Quase dois mil anos se passaram, mas o imperialismo armamentista, com a manipulação ideológica e religiosa, continua devorando pessoas fracas e inocentes por meio de guerras, invasões, ditaduras brutais, trabalho escravo, economia selvagem, fome, violência espiritual, alienação…; até as igrejas que promovem a leitura fundamentalista da Bíblia tornam-se espaços férteis para conservar e justificar o espírito do imperialismo, fazendo, por exemplo, o livro de Daniel transformar-se em fantasias religiosas, arrancando-lhe a chance de animar a resistência contra o imperialismo à vista das transformações históricas.
Referências bibliográficas
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Prof. Dr. Shigeyuki Nakanose, svd*
*Shigeyuki Nakanose, svd, é assessor do Centro Bíblico Verbo e professor no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp). E-mail: [email protected]

