Atualidades

MEMÓRIA DE 1964: LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER

02/04/2024

O professor Vinícius Lima evoca sua experiência pessoal acerca da atmosfera que pairava sobre o Brasil em 1964, que culminou com o golpe civil militar. “Aqueles dias mudaram para sempre a vida de minha geração. Amigas e amigos queridos, no auge de seu idealismo juvenil, pagaram um preço alto demais pelo que viria a acontecer nos 21 anos seguintes. Mortos, desaparecidos, torturados, viúvas e órfãos. Famílias com sequelas que ficaram para sempre”.

Venício A. de Lima 

Professor Emérito da Universidade de Brasília (UnB) e membro do Observatório da Comunicação Religiosa (OCR)

Eis o artigo:

Pergunta às gerações passadas e medita a experiência dos antepassados. Somos de ontem, não sabemos nada. Nossos dias são uma sombra sobre a terra. Eles, porém, te instruirão e falarão contigo, e seu pensamento dará as sentenças” (Jó 8, 8-10).

A relação entre história e memória é construída pelas ações humanas e por aqueles que escrevem sobre essas ações e conferem sentido a elas. Não sem razão, a necessidade da preservação da memória talvez seja uma das questões mais recorrentes no pensamento crítico. Exatamente porque ela é frágil, traiçoeira. Sempre problemática. Sempre em disputa. A identidade, individual ou coletiva, depende dela. Sem memória não sabemos quem somos. Perdemos a identidade.

O equivalente ao verbo “zakhor” – que aparece na Bíblia hebraica 169 vezes – é o nosso “lembrar”, associado à ideia de “não esquecer”. Isto é, não basta lembrar, é preciso não esquecer. Ademais, como ensina Yerushalmi, “a memória individual é estruturada através do corpo social e, mais ainda, a memória coletiva não é uma metáfora, mas uma realidade social transmitida e sustentada através de esforços conscientes e instituições do grupo”.

Permito-me evocar aqui um pouco de minha própria memória sobre 1964. Militante da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Ação Popular (AP), estava também vinculado a um grupo de engenheiros oriundos da Juventude Universitária Católica (JUC) e graduados na Escola de Minas de Ouro Preto [atual Universidade Federal de Ouro Preto] que fundara o GPM – Grupo de Política Mineral, e defendia a nacionalização das riquezas do subsolo brasileiro.

Aluno do terceiro ano do ensino médio, morava em “república” de estudantes em Belo Horizonte. Éramos todos apoiadores das “reformas de base” e ativos na política estudantil secundarista e/ou universitária, opção rotineira naquele início conturbado dos anos 1960, marcado por intenso debate público sobre os destinos do país e da América Latina.

Os primeiros meses de 1964 foram agitados em Belo Horizonte. Um dia, em especial, merece ser lembrado: o 25 de fevereiro. Nesta data deveria ter sido realizado um ato público da Frente de Mobilização Popular em defesa das reformas de base, com a presença de Leonel Brizola.  Planejado para acontecer na antiga Secretaria de Saúde, bem ao lado do velho Mercado Municipal, o local foi ocupado antecipadamente por grupos organizados de católicos conservadores contrários ao ato, incluindo padres e senhoras empunhando e rezando o Rosário contra o “comunismo ateu”. A pancadaria foi inevitável. Não existiam as condições mínimas de segurança para a realização do ato. Quando a cavalaria da PM entrou em ação, no início da noite, sobrou para todos nós que estávamos por perto. Cassetetes, espadas e bombas de gás lacrimogênio.

(Imagem: Arquivo Nacional)

A reação católica conservadora organizada a este ato público serviu de exemplo e inspiração para as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” que começaram a acontecer em diversas cidades, após o comício do presidente João Goulart na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no dia 13 de março. Os Diários Associados controlavam os principais meios de comunicação da cidade (jornais, emissoras de rádio e televisão) e a cobertura, após o 25 de fevereiro, era de “júbilo cívico pelo espírito cristão da gente mineira” e, sobretudo, das mulheres e mães que enfrentaram os “comunistas” em Belo Horizonte.

A memória mais viva que guardo dos primeiros dias de abril é a surpresa de deparar com tropas militares ocupando as ruas. O governo mineiro (Magalhães Pinto) estava inteiramente envolvido com o golpe civil-militar e soldados (PM e Exército) se postavam nas esquinas, nas praças e até na entrada do Edifício Pio XII, na Rua Espírito Santo, sede da Ação Católica.

Amedrontado, não sabia onde ou como buscar informações sobre o que estava acontecendo. Ser militante de Ação Católica seria motivo suficiente para que nos prendessem como subversivos? Desinformados e inseguros, decidimos não ficar na “república”. Cada um devia “desaparecer” por alguns dias até que a situação ficasse definida.

Meu primeiro refúgio foi a casa da família, em Sabará. Meu pai, com formação doutrinária integralista, apoiava o golpe em nome “de Deus, da Pátria e da Família”, além de estar convencido de que o comunismo ateu havia se infiltrado em setores da igreja católica. Para ele, seu filho era o melhor exemplo desta infiltração. Na ingenuidade de meus 18 anos, esperei a noite para buscar contato com um velho e conhecido “comunista” da cidade, líder de um inexistente “Grupo dos Onze” vinculado a Brizola. Ainda bem que ele já havia escapulido e que não havia vigilância ao redor de sua casa, onde ninguém respondeu à porta.  No dia seguinte, a esposa de um vizinho de meus pais, fez uma enorme fogueira com livros e revistas de seu marido – um simples advogado progressista – que eventualmente pudessem ser considerados subversivos pelos golpistas. Ainda mais assustado, voltei a Belo Horizonte e pedi abrigo na casa de um tio. Ele certamente faleceu sem entender o porquê de seu jovem sobrinho estar tão amedrontado e aparecer sem aviso prévio pedindo para ficar por alguns dias.

Aos poucos, a nova realidade de uma ditadura civil-militar, com todas suas implicações e consequências, foi se impondo. Apesar do medo e da insegurança, alguns de nós voltamos para a “república” e cada um foi fazendo suas opções e escolhendo o caminho a seguir.

Nos meses seguintes, uma campanha nacional liderada pelos Diários Associados e inspirada na Revolução Constitucionalista de 1932, com o mote “Dê ouro para o bem do Brasil”, provocou indignação e perplexidade. Pessoa querida de minha família, católica fervorosa, convencida de que o maior perigo que a humanidade enfrentava era o “comunismo ateu” – que a ditadura prometia combater – doou sua própria aliança de casamento. Como tanta gente podia fazer doações desse tipo, sem questionar qual seria o destino final que alianças, anéis, colares, brincos, broches etc. e etc. de fato teriam?

Aqueles dias mudaram para sempre a vida de minha geração. Amigas e amigos queridos, no auge de seu idealismo juvenil, pagaram um preço alto demais pelo que viria a acontecer nos 21 anos seguintes. Mortos, desaparecidos, torturados, viúvas e órfãos. Famílias com sequelas que ficaram para sempre.

É incontornável a necessidade de preservarmos a memória do golpe civil-militar de1964. Não só agora, mas sempre. Contar a história dos atores e dos interesses envolvidos. Das quase 500 vidas que foram perdidas. Da permanência explícita e/ou implícita, nos dias de hoje, das mesmas ideias que tornaram o golpe possível, seis décadas atrás. Para além do débito impagável que temos com todas e todos que resistiram, a memória de 1964 é parte inegociável de nosso compromisso com a defesa e a preservação da democracia.

É preciso lembrar para não esquecer. E para que nunca mais aconteça.