Roteiros homiléticos

TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR – 6 de agosto

Por Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Transfigurou-se diante deles (Mt 17,2)

  1. Introdução geral

As leituras deste domingo destacam a transfiguração de Jesus como prefiguração de sua ressurreição. Mas a experiência que os discípulos fizeram com Jesus, Moisés e Elias não está desvinculada do caminho para a cruz. A manifestação do Cristo transfigurado plenificando a missão de Israel (ali representado por Moisés e Elias) não tem sentido sem o desfecho da cruz e sem o chamado divino aos discípulos para escutarem Jesus. Crucifixão e transfiguração se complementam mutuamente, pois somente quando nos desvencilhamos de tudo que nos impede a caminhada e subimos o monte é que podemos entender a voz de Deus, que nos convida a levar a sério o que Jesus nos diz através da própria vida e a seguir o mesmo caminho que ele seguiu, a via crucis que leva à ressurreição.

      II – Comentário dos textos bíblicos

  1. Evangelho (Mt 17,1-9): “Suas roupas ficaram alvas como a luz” (Mt 17,2)

Os discípulos, Moisés e Elias estão presentes com Jesus no monte da transfiguração. Moisés e Elias são os principais representantes da fé israelita, quer dizer, a Lei (Pentateuco) e os profetas, assinalando que o caminho de Jesus – rejeitado pelos líderes religiosos de Israel como perigoso para a identidade e esperança do povo – cumpre tudo que a Escritura afirmava do Messias. Os discípulos representam a comunidade de Jesus em todas as épocas. Eles serão os mensageiros da experiência de ressurreição, aberta a todos os povos da terra, experiência prefigurada na transfiguração.

A revelação acontecida no monte da transfiguração mostra que Jesus não se identifica com Elias, como alguns supunham, nem com Moisés. Jesus é o Messias, o Filho de Deus que cumpre e plenifica as funções de Moisés e de Elias, os grandes vocacionados do povo da aliança.

Como a lei judaica exige sempre o testemunho de duas pessoas para que as palavras e as ações de alguém tenham crédito, temos aqui Moisés e Elias, personagens do passado de Israel, oferecendo seu testemunho sobre Jesus. Além deles, temos a voz divina que identifica Jesus como Filho de Deus, muito maior que os personagens do Antigo Testamento pelos quais Deus havia se revelado no passado. Na transfiguração, Jesus aparece como a revelação definitiva de Deus.

Mas o texto aponta também para o futuro, pois evoca uma experiência de ressurreição. A glória de Deus que brilha em Jesus não apenas plenifica o caminho de Israel, mas insere os discípulos, ou seja, a Igreja, no caminho de entrega da vida que Jesus fez na cruz. Nesse momento, a voz divina os chamou para participar da ressurreição; nesse evento, eles foram convocados a ser testemunhas do Ressuscitado, mas não sem a entrega da vida e o serviço ao próximo.

A transfiguração é apenas uma prefiguração, não uma experiência pascal completa, porque Jesus ainda não havia passado pela cruz. Para que a transfiguração fosse completa, os discípulos foram convidados a tomar o caminho da entrega da vida, que culminaria na autêntica Páscoa. Por isso não lhes foi permitido fazer as três tendas; eles necessitavam descer o monte e doar a vida. O desejo dos discípulos de ficar ali para sempre, numa glorificação antecipada, sem cruz, não pôde se cumprir enquanto tantas pessoas ainda sofriam na terra.

O desejo de glória, de um discipulado sem sofrimento, não passa de um sonho. A voz de Deus os desperta e convida a escutar Jesus, quer dizer, a seguir o caminho concreto da morte pelo reino de Deus.

A nuvem no monte representa o novo e definitivo Sinai, sinal da plenitude da vocação de Israel e do início da missão da Igreja, a qual doravante testemunhará, ao longo da história, que o caminho da entrega do Filho de Deus na cruz pela humanidade é um caminho de glória, que a morte não tem a última palavra e que, portanto, todo aquele que aceita o convite de Deus participa tanto da cruz quanto da ressurreição de Jesus.

  1. I leitura (Dn 7,9-10.13-14): “Sua veste era branca como a neve”
(Dn 7,9)

O trecho da primeira leitura está inserido num contexto literário no qual o autor se mostra decepcionado com a forma como o poder é exercido na terra: há muita opressão e violência promovidas, principalmente, pelos governantes. Então Daniel tem uma visão consoladora: os poderes políticos da terra não têm a última palavra; a opressão e a violência cederão espaço ao reino de Deus.

Daniel mostra que os reinos terrenos se contrapõem ao reino de Deus, mas todos deverão prestar contas ao justo juiz. Os violentos não permanecerão para sempre fazendo a violência, seu poder passa, somente o reino de Deus jamais terá fim. Os poderes opressores perderão a hegemonia, seu fim já está assinalado, as forças que se contrapõem a Deus e fazem deste mundo um ambiente feio e hostil ao bem serão submetidas ao poder do Filho do Homem, que age em nome de Deus.

O Filho do Homem é verdadeiramente humano, mas sua origem é divina, pois ele vem sobre as nuvens do céu. E vem para inaugurar um reino diferente que conduz a história da humanidade à sua plenitude, fazendo com que o bem, a justiça e o amor sejam as cores que pintam o novo mundo belo e agradável a Deus, um mundo transfigurado.

  1. II leitura (2Pd 1,16-19): “Como lâmpada que brilha no escuro” (2Pd 1,19)

Nessa leitura, a segunda carta de Pedro faz uma alusão ao relato evangélico da transfiguração do Senhor. Ao retomar a narrativa da transfiguração, o texto petrino deseja incutir a fé na volta de Jesus, sua segunda vinda em glória. A transfiguração seria uma prefiguração da glória com a qual o Senhor está revestido e será manifestado no fim dos tempos. Cristo virá não mais como um servo, um humilde carpinteiro de Nazaré, mas aparecerá com a mesma glória com a qual foi visto pelos apóstolos no monte da transfiguração.

Os apóstolos dão testemunho de que viram o Cristo transfigurado e se reconhecem portadores de uma graça muito maior que a dos profetas, porque ouviram a voz celeste que revelava Jesus como Filho de Deus. Portanto, o testemunho dos apóstolos sobre a transfiguração deve sustentar a fé e a esperança de que Cristo voltará uma segunda vez.

Na transfiguração, Jesus já mostrou aos apóstolos os aspectos essenciais que se manifestarão em plenitude na sua segunda vinda: majestade, honra e glória recebidas do Pai. Isso deve manter acesa a chama da esperança num mundo melhor. As dores, sofrimentos e problemas pelos quais passamos agora não existirão para sempre. O Cristo transfigurado é a prova de que a glória de Deus supera tudo isso.

III. Pistas para reflexão

A homilia deve destacar que a transfiguração significa que na vida humana de Jesus já se pode ver a glória de Deus. Jesus transfigurado não é um anjo distante da terra; é o nazareno, que iniciou um caminho de doação da vida a serviço de todos e, principalmente, dos mais sofridos – doação que terá seu ápice na cruz. O episódio das vestes resplandecentes no monte não é uma negação da cruz. Ao contrário, a transfiguração é a expressão do sentido salvífico da cruz. A transfiguração somente pode ser compreendida no horizonte da entrega, da renúncia feita por Jesus ao longo da vida. Não existe um Cristo glorioso sem que haja um Jesus crucificado. A transfiguração serve de apoio para a espera da volta de Jesus. Serve para manter acesa a chama da esperança quando passamos pelas cruzes dolorosas. Como na recitação do rosário, os mistérios gloriosos vêm depois dos mistérios dolorosos.

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj

Aíla L. Pinheiro de Andrade, nj, é graduada em Filosofia e em Teologia. Cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE (MG). Atualmente, leciona na pós-graduação em Teologia na Universidade Católica de Pernambuco, UNICAP. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas). E-mail: aylanj@gmail.com