Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 52 - 54

4 de junho – SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

Deus permanece conosco no sinal da sua Páscoa

INTRODUÇÃO GERAL

Nesta quinta-feira, celebramos a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor. É uma das festas mais aguardadas do calendário católico romano, pois com ela proclamamos publicamente nossa fé na presença real de Jesus, nosso Senhor, na Eucaristia. É um convite a todos os fiéis para que possam reconhecer, adorar e contemplar o mistério eucarístico instituído por Jesus na véspera de sua paixão. Além de ser memorial perene de sua Páscoa, a Eucaristia torna-se presença permanente e transformadora do Senhor no meio de seus discípulos e seguidores, a Igreja.

Por isso, a Eucaristia possui um acento tanto de ordem comunitária quanto escatológica. Ela é sinal de comunhão e participação do povo de Deus no mistério de Jesus, de modo que a Igreja é revelada como Corpo de Cristo. Ao mesmo tempo, a Eucaristia nos antecipa o banquete escatológico, do fim dos tempos – o banquete das núpcias do Cordeiro (Ap 19,9). A primeira leitura ressalta, entre outros aspectos, o maná: alimento dado por Deus ao povo no deserto, sinal da sua proximidade, atenção, amor e misericórdia. O maná torna-se, no Antigo Testamento, antecipação da Eucaristia, quando Deus se dará a si mesmo como verdadeiro alimento àqueles que nele crerem. Na segunda leitura, o apóstolo destaca os aspectos de comunhão e unidade expressos no banquete eucarístico. Por fim, no Evangelho, lemos o ápice do discurso do pão da vida de São João, quando o texto adquire o aspecto mais sacramental.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Dt 8,2-3.14b-16a)

Toda a primeira leitura está orientada pela expressão “lembra-te” (v. 2a). Dita por Moisés ao povo de Israel, que está a caminho da Terra da Promessa, ela torna-se a moldura narrativa de todo o trecho. O discurso do grande líder veterotestamentário é a reminiscência de tudo aquilo que Deus já operou em favor do povo. É preciso não perder a consciência das ações libertadoras e salvíficas do Senhor para entender o deserto como um tempo de purificação e iluminação: a pessoa humana não é autossuficiente nem autorreferencial. “O Senhor teu Deus te conduziu” (v. 2b), diz-nos o texto: fez o povo sair do Egito, da casa da escravidão, livrou-o das ciladas do mal e o saciou com água e alimento onde as terras eram inóspitas. Essa expressão, também, preenche o leitor de esperança: se o Senhor já operou tantos sinais na história em favor do povo, ainda mais o fará no hoje de nossa vida.

Entretanto, o texto acentua também o alimento concedido a Deus ao povo de Israel no deserto: “Foi ele que fez jorrar água para ti da pedra duríssima e te alimentou no deserto com maná, que teus pais não conheciam” (v. 15c-16a). O maná é, pois, o sinal da fidelidade divina diante das más escolhas humanas. O Senhor não deixa o povo à mingua diante das dificuldades que se apresentam no deserto, como a fome e a sede. Pelo contrário, não deixa faltar o essencial na vida do povo, sustentando-o na caminhada. O texto evangélico, por sua vez, retomará a menção ao maná para fazer um paralelo com “um outro” alimento concedido por Deus, na plenitude do texto. Vamos refletir sobre isso mais à frente.

2. II leitura (1Cor 10,16-17)

Na segunda leitura, lemos dois versículos do capítulo 10 da primeira carta de São Paulo aos Coríntios. A intenção do apóstolo, nesse pequeno trecho, é ratificar que comer carnes dedicadas aos ídolos é compactuar com o pecado da idolatria. Por isso, os cristãos não devem participar dos banquetes sacrificais oferecidos pelos pagãos. O argumento de Paulo vem assentado numa reflexão sobre a própria Eucaristia. Tanto o pão que partimos quanto o cálice que abençoamos são sinal de unidade e comunhão dos cristãos entre si e dos cristãos com Jesus Cristo. Romper a unidade com os irmãos significa, nesse sentido, romper a unidade com o próprio Cristo.

Esse trecho é interessante por nos fazer entender que a Eucaristia nos torna participantes do mistério de Cristo e de seu corpo, a Igreja. Dessa forma, desponta o aspecto eclesial e comunitário do texto, de modo específico, e da festa que neste dia celebramos, de modo geral. Quem comunga do corpo do Senhor assume um compromisso de ordem ética: viver unido a Cristo e aos irmãos na prática do bem, esforçando-se para repetir as palavras e exemplos deixados por nosso Senhor.

3. Evangelho (Jo 6,51-58)

O Evangelho é um trecho do capítulo 6 de São João, que se inicia com o sinal da multiplicação dos pães (Jo 6,1-15) e prolonga-se no belo discurso de Jesus sobre o pão da vida (Jo 6,22-71). O texto proclamado nesta solenidade é a parte mais sacramental de todo o conjunto. Procuremos explorar ainda mais esse aspecto, estabelecendo um paralelo entre o maná veterotestamentário e o pão vivo descido do céu, dito por Jesus.

Jesus se declara “o pão vivo descido do céu” e acrescenta: “Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne, dada para a vida do mundo” (v. 51). Seguido pelas multidões – as pessoas estão impressionadas com os sinais realizados pelo Senhor –, Jesus as conduz para o alimento que permanece para a vida eterna. Jesus desceu do céu, ou seja, encarnou-se, fazendo-se igual a nós. Além disso, ele é a perfeita e total oferta do Pai: é-nos oferecido até a morte. Além disso, nesse trecho existe uma promessa: aqueles que se alimentarem desse pão alcançarão a eternidade. O pão é a própria carne de Jesus, que nos conduz à eternidade – verdadeiro alimento, dom espiritual, condição de encontro com Deus, vida plena na glória. Essa argumentação é justificada por outro versículo, quando Jesus diz: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (v. 54). Ressalta-se o aspecto sacramental desse alimento: é sua carne, é seu sangue – memória de sua Páscoa e condição de nossa páscoa.

O trecho se encerra com um paralelo entre o maná e o pão vivo descido do céu: “Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre” (v. 58). Se o maná foi dom de Deus para o povo no deserto, o pão da vida é o dom do Pai no Filho encarnado; o primeiro é de ordem material, já o segundo é de ordem espiritual; um sustenta para a vida física, o outro sustenta a vida espiritual; o maná é passageiro, o pão da vida permanece para sempre. Que a Eucaristia seja a fonte, o ápice e o verdadeiro alimento da vida cristã.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Indicar a unidade e a relação entre as três leituras, de modo que a Eucaristia possa ser evidenciada como o centro e o ápice da vida cristã. Demonstrar como o maná é sinal prefigurativo da Eucaristia, dom do Pai para o mundo. Destacar a unidade e a comunhão como aspectos importantes e necessários da vivência da Eucaristia. Apontar modos, realidades e vivências para que esta festa possa ser transformada em práticas cotidianas, que aproximam a vida da fé.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]