Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 59 - 62

21 de junho – 12° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

A perseguição

I. INTRODUÇÃO GERAL

O dia do Senhor é ocasião especial para a reunião da comunidade em torno da Palavra e da Eucaristia, em memória da ressurreição de Cristo. O domingo sempre será o dia privilegiado do cristão, tendo em vista que foi no primeiro dia da semana que o Senhor ressuscitou – esse é o evento fundador de nossa fé. Em linhas gerais, a liturgia do 12° Domingo do Tempo Comum tem como temática destacada a perseguição.

No Evangelho segundo São Mateus, no Sermão da montanha, a perseguição é considerada uma bem-aventurança: “Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem [...]” (Mt 5,11a). Em outra oportunidade, Jesus alerta seus discípulos de que, se ele mesmo foi perseguido, eles também o serão (Jo 15,20). É importante notar que perseguição é diferente de sofrimento. Este é inato à condição humana: sofremos porque provamos do mal e do pecado, de situações-limite, de nossa fragilidade e vulnerabilidade. A perseguição, por sua vez, possui uma nuance diferente: os justos é que são os perseguidos, precisamente por carregarem consigo a virtude da justiça. Jesus, o Justo do Pai, incorporará esse papel: perseguido, assumirá a imagem do Servo do Senhor e levará essa missão até as últimas consequências.

Tanto a primeira leitura quanto o Evangelho se enquadram nessa lógica. O texto de Jeremias mostra-nos a figura do profeta, que, de um lado, está seduzido por Deus e, de outro, está sendo perseguido pelos ímpios, injustos e maldosos de seu tempo. Já o trecho do Evangelho, estruturado pela tríplice repetição “não tenhais medo”, é constituído pelas recomendações de Jesus para a missão, conscientizando seus discípulos de que as perseguições integram esse caminho. É preciso, pois, confiarmos em Deus.

1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

2. I leitura (Jr 20,10-13)

A obra de Jeremias, no Antigo Testamento, expressa-se mormente pela sua densidade teológica e riqueza espiritual. O profeta está situado entre os séculos VII e VI a.C., um dos períodos mais críticos da história do povo: o colapso de Judá e a destruição da cidade santa, Jerusalém. Sua missão profética está, portanto, atrelada à decadência política, à infidelidade religiosa e à iminente catástrofe nacional. Sendo sinal vivo da aliança de Deus com o povo, o profeta é voz de esperança diante de tantas situações difíceis e desafiadoras.

O trecho proposto para esta liturgia (Jr 20,10-13) vem logo em seguida de uma dolorosa experiência do profeta. Ele foi preso e açoitado por Fassur, o superintendente do templo, em razão de suas profecias. Jeremias está humilhado, isolado, ridicularizado; está se sentindo traído e cercado – o profeta se reveste da imagem do justo perseguido. O comentário “talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo e desforrar-nos dele” (v. 10c) provém dos ímpios que o observam, tramam e arquitetam a maldade. “Denunciai-o, denunciemo-lo” (v. 10b) é expressão indicativa de que a bondade, a justiça e a prática do bem serão alvos de perseguições, maquinações e sofrimentos. Jeremias assume o paradoxo do profetismo: ser portador da Palavra de Deus é também carregar o peso da incompreensão e da rejeição da parte de muitos.

Contudo, o texto não termina por aqui. Há uma virada de perspectiva, ocasionada pela fé. Diz-nos o texto: “Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos” (v. 11a). Todo o cenário de crise, perseguição e desespero não é ocasião para que o profeta sucumba. Ele dá um salto na fé, pois confia plenamente em Deus. O Senhor combate em favor do justo, a justiça divina triunfará. Dessa forma, entendemos também que a fé não é a ausência de conflitos e dificuldades, mas a capacidade de esperar, confiar e acreditar, apesar deles.

2. II leitura (Rm 5,12-15)

O texto da carta aos Romanos proposto nesta liturgia se distancia um pouco da temática da perseguição, tratada especificamente pelo profeta Jeremias e pelo evangelista Mateus. Contudo, o trecho dessa segunda leitura traz uma reflexão importante que nos edifica na fé e nos fortalece na missão. O apóstolo deseja ratificar que Cristo é a imagem do homem novo, o primeiro e iniciador de uma nova humanidade.

Para tanto, São Paulo estabelecerá um paralelo significativo entre o primeiro homem, Adão, e o novo homem, Cristo Jesus. Diz-nos o texto: “O pecado entrou no mundo por um só homem” (v. 12a). Ao trazer-nos a imagem do primeiro ser vivente, o apóstolo retoma a temática da desobediência, tratada nos primeiros capítulos do livro do Gênesis. Pela desobediência, a humanidade foi marcada, de uma vez por todas, pela realidade do pecado. E foi pelo pecado que a morte entrou no mundo. No entanto, com Jesus, o Filho unigênito do Pai, toda a humanidade pode contemplar a graça e a salvação divinas. Pelo seu sangue derramado na cruz, Jesus reconciliou-nos e justificou-nos com Deus e abriu-nos um novo tempo e uma nova esperança.

A comparação feita pelo apóstolo atinge seu ápice no v. 15b: “A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos”. Destaca-se Jesus como novo Adão, aquele que, de modo superior, fez que o dom de Deus, sua graça e sua bênção, fosse derramado sobre todos nós. Se em Adão nós pecamos, em Cristo somos justificados.

3. Evangelho (Mt 10,26-33)

O texto evangélico proclamado nesta liturgia leva à plenitude a temática do justo perseguido, lançada pela primeira leitura, de Jeremias.Na verdade, as palavras de Jesus dirigidas hoje aos seus discípulos são um convite para que continuem a testemunhar intrepidamente e sem medo o Evangelho que liberta e salva a todos, numa expressão de confiança total em Deus.

O trecho apresenta uma coerência fácil de ser percebida: depois de transmitir aos seus discípulos sua autoridade, Jesus lhes fala dos sofrimentos e das perseguições que deverão enfrentar. Podemos, a propósito, fazer um paralelo com outra passagem bíblica: “O servo não é maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também hão de perseguir-vos [...]” (Jo 15,20). Dessa forma, entendemos que o caminho discipular jamais será uma via de benesses, privilégios ou reconhecimentos; pelo contrário, será um caminho de incompreensões, angústias, sofrimentos e perseguições.

O texto é estruturado em torno da tríplice expressão “não tenhais medo” (v. 26a; 28a; 31a) – convite à perseverança na fé e à confiança filial. Primeiramente, os discípulos são convocados para a dimensão do anúncio: “o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!” (v. 27b). A missão apostólica não deve recuar por medo de anunciar a Palavra de Deus em realidades desafiadoras. Nada ficará encoberto; pelo contrário, tudo será revelado. Em seguida, Jesus os encoraja em relação às perseguições. Os ímpios, injustos, maldosos e pecadores podem matar o corpo, mas não a alma. O Mestre salienta que a perseverança deve fazer parte do caminho do discípulo, de modo que não deverão temer as realidades que causam “prejuízo” de ordem material ou corporal. Pelo contrário, deve-se temer as realidades que nos afastam da presença de Deus e nos desviam de sua eternidade. O alerta é um indicativo também de que as perseguições nos purificam e nos renovam, de modo que nos elevam até mais próximo de Deus. Por fim, o texto termina com uma promessa, permeada de esperança e confiança em Deus. Aqueles que testemunharem, com fé, solicitude e confiança, o Evangelho de Jesus entre as pessoas serão contados, diante de Deus, entre os justos que assumiram o compromisso e a responsabilidade da missão.

III. Pistas para reflexão

Levar a comunidade a refletir sobre a lógica proposta nesta liturgia: o justo não é aquele isento de desafios e dificuldades; pelo contrário, assumindo sua condição, mostra-se perseverante no caminho de fé, de anúncio e de testemunho da Boa-nova. Despertar as consciências sobre o fato de que a prática do bem é algo inegociável, ainda que, por causa dela, sejamos perseguidos, com sofrimentos e injustiças.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]