Roteiros homiléticos

Publicado em maio-junho de 2026 - ano 67 - número 369 - pp. 54 - 56

7 de junho – 10° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

Ele veio para os pecadores

I. INTRODUÇÃO GERAL

No 10º Domingo do Tempo Comum do Ano A, destaca-se a temática do encontro e da misericórdia, do perdão e do acolhimento à pessoa pecadora. Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai (cf. Misericordiae Vultus, 2015, papa Francisco): encarnado, evidencia quanto Deus não nos trata como exigem nossas faltas, mas nos guia com compaixão, segurança e ternura. Hoje, Jesus contrapõe uma prática de fé baseada estritamente na justiça a outra, ampliada pela misericórdia de Deus.

Embora sejamos pecadores e marcados pela realidade do mal, Jesus se aproxima de nós de modo insistente: ele nos olha e nos ama, nos perdoa e nos chama (Evangelho). A razão do convite para estarmos próximos do Senhor é que ele mesmo é o “remédio” que nos salva. Somente próximos de Jesus conseguiremos purificar nossa vida, iluminar nossos caminhos e pôr em prática seus bons ensinamentos.

Para nos tornarmos perseverantes na proposta de vida que o Senhor Deus nos apresenta, somos convidados a renovar nossa fé, pois é com essa chama acesa que conseguiremos permanecer no caminho do Senhor. Dessa forma, é preciso, pois, revigorar-nos na fé e dar glória a Deus, como nos diz o apóstolo. Que esta liturgia dominical, oportunidade privilegiada de encontro com Deus na pessoa do seu Filho, Jesus Cristo, nos renove e nos restaure em nossas mais diversas realidades, de vida e de fé.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Os 6,3-6)

Nos escritos veterotestamentários, deparamo-nos com a figura do profeta. Ele é mediador, receptor e articulador da palavra do Senhor, sentinela e guardião. Não mantém posto fixo, pois está presente na praça, no palácio e no átrio do templo – ressoam seus gritos em todas as camadas da sociedade. Os profetas estão à disposição de Deus, sobretudo pelo uso da linguagem. São homens da palavra e, por isso, estão a seu serviço. É assim que se manifesta o sentido da vocação profética: conduzir Israel no caminho da fé e da obediência a Deus. Nesse sentido, na prática do amor e da justiça, o povo se reencontra no caminho que o leva a Deus e à salvação.

Na primeira leitura, escutamos o profeta Oseias. De modo geral, ele também assume, em si mesmo e em sua missão, essas características apresentadas acima. A data de sua atuação aproxima-se do reinado de Jeroboão II, entre 782 e 753 a.C. Contudo, alguns trechos chegam perto da queda da Samaria, em 722 a.C. Nesta época, o povo vivencia, de um lado, certa decadência religiosa e, de outro, prosperidade material e paz política. O trecho proposto para esta liturgia integra um conjunto maior que nos fala da infidelidade do povo na história: os erros de ordem social e religiosa que tocam a vida de Israel, bem como suas consequências.

O profeta, ao mencionar os percalços que integraram a história de Israel, deseja despertar no povo a consciência de que é necessário voltar-se a Deus: “É preciso saber segui-lo”. O povo não possui perseverança na aliança com o Senhor: “O vosso amor é como orvalho que cedo se desfaz”. O imperativo do profeta, porta-voz de Deus, deve ser acolhido com generosidade de coração: “quero amor, e não sacrifícios”. O Senhor espera do povo eleito fidelidade à aliança, para que não se desvie do caminho proposto, caindo na tentação de outros deuses. Deus espera que seu povo seja conduzido no caminho da fé e da obediência.

2. II leitura (Rm 4,18-25)

Este trecho da carta aos Romanos tem inequívoca importância no conjunto da construção lógico-argumentativa do apóstolo sobre a relação que se estabelece entre fé e salvação. Paulo está respondendo, em certa medida, a dificuldades que surgem na comunidade de Roma. Alguns cristãos vindos do judaísmo acreditam que a condição para a salvação é a observância estrita da Lei mosaica. Para o apóstolo, não é assim. Se, anteriormente, Paulo já havia afirmado que a pessoa humana é justificada pela fé, agora ele retoma um personagem bíblico, Abraão, para dar significado à sua argumentação.

Abraão é modelo de pessoa temente e fiel ao Senhor. Deus prometeu-lhe terra farta e descendência numerosa, e ele não duvidou, mas revigorou-se na fé e deu glória a Deus, diz-nos o texto. Com fé em Deus, Abraão estava convencido de que o Senhor tinha poder para cumprir o que havia prometido. Dessa forma, o v. 22 tem relevância: “Esta sua atitude de fé lhe foi creditada como justiça”. Abraão foi justificado não pela observância da Lei – até porque viveu em um tempo anterior à Lei –, mas por sua fé. A fé vivenciada por esse homem – verdadeira, sincera e autêntica – foi ocasião para sua salvação. Do mesmo modo acontecerá conosco: se crermos naquele que ressuscitou Jesus dos mortos, seremos herdeiros de sua graça, vida e salvação.

3. Evangelho (Mt 9,9-13)

A perícope evangélica pode ser dividida em duas partes, que se conectam entre si: a vocação de Mateus, o publicano, e o banquete com os pecadores. O texto é repleto de simbolismos e significados, que não se encerram em si mesmos nem naquele que é chamado; pelo contrário, acentuam a ação de Jesus e apontam-nos as características fundamentais de sua missão.

A primeira parte do texto já nos causa certa surpresa. Jesus chama um coletor de impostos, um publicano, para segui-lo; ou seja, um pecador. Ele contribuía para a injustiça social e econômica praticada pelo Império Romano. Era uma posição social malvista pelos judeus, pois, muitas vezes, era o lugar da corrupção, da ganância e da opressão. A surpresa que um judeu sentiu ao presenciar aquela cena não deve ter passado despercebida: Jesus rompe com os critérios humanos, sociais e religiosos da época. Mateus já era um condenado do seu tempo. O Senhor chama alguém marginalizado e pecador para segui-lo, não um justo segundo a Lei.

O primeiro versículo já carrega consigo grande densidade de sentido: “Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse: ‘Segue-me!’. Ele se levantou e seguiu a Jesus”. O sujeito do verbo “ver” é Jesus. É o Senhor quem percebe Mateus, e nota-o em sua profissão e atividade: coletor de impostos. Na verdade, o texto quer-nos dizer que Jesus enxerga Mateus em sua realidade, particularmente naquela que era ocasião de pecado para ele. O Senhor não é ingênuo, mas sabe dos limites e das possibilidades daquele homem. Mateus está sentado, uma posição passiva e inerte – parece quase morto em sua atual condição de vida. Jesus faz-lhe um convite – “Segue-me” –, e ele se levanta e vai. O fato de Mateus levantar-se de sua posição e seguir o Senhor também deve ser sublinhado: estar levantado, ereto, erguido, de pé, será a posição do Ressuscitado, que venceu as cadeias da morte. É de pé que o Ressuscitado aparece no meio da comunidade reunida. Com esse chamado, Mateus renovou e ressignificou toda sua história; agora, de pé, “ressuscitado” para uma vida nova, seguirá a Jesus, seu Mestre e Senhor.

A segunda parte do texto é, na verdade, consequência da primeira: o chamado se prolonga em dom de comunhão, proximidade e amizade. Estão à mesa, em casa de Mateus, para uma refeição: foi preparado um banquete! Ajuntam-se ali, além dos discípulos de Jesus, muitos cobradores de impostos e pecadores. A cena é notada por alguns fariseus, conhecedores da Lei, que se outorgavam o título de justos. Cheios de maldade no coração, questionam os discípulos com base naquilo que veem. A resposta de Jesus torna-se o ápice desta liturgia; mais uma vez, o Senhor utiliza de uma mesa de refeição para transmitir um ensinamento importante. Sua missão de chamar os pecadores, e não os justos, para participarem do Reino dos Céus se justifica pelo fato de que os primeiros, sim, carecem desse chamado – são os doentes que precisam de médico, não os sadios. Quem for realmente justo já participa, antecipadamente, do Reino.

Jesus é aquele que nos vê, nos chama e nos restaura em meio aos nossos dilemas humanos, permeados de maldade, pecados e angústias. Esse seu movimento gera em nós dom de comunhão e participação, de modo que o Senhor continua próximo a nós, amparando-nos, protegendo e socorrendo. Ele usa de misericórdia, bondade e paciência com cada um de nós.

III. Pistas para reflexão

Conscientizar a assembleia presente na liturgia da importância de perseverar no caminho de fé e de obediência a Deus: em tempos de liquidez, é preciso (re)encontrar a prática do amor e da justiça, que nos conduzem ao próprio Senhor. A fé, dessa maneira, torna-se o elã vital que nos sustenta e nos revigora. Cabe-nos crer no Senhor Jesus com profundidade e sinceridade de coração, para que avistemos a salvação. É preciso dizer não a uma religião de pura externalidade, e sim a uma prática religiosa que nos converta e converta nossas estruturas, tocando nossa interioridade. Jesus é aquele que nos vê pessoalmente, nos chama e nos devolve a dignidade de sermos chamados filhos e filhas de Deus.

Pe. Gustavo César dos Santos* / Pe. Dr. Junior Vasconcelos do Amaral**

*é presbítero da diocese de Divinópolis-MG e vigário paroquial da paróquia Nossa Senhora
do Carmo, na cidade de Carmo do Cajuru-MG. Graduado em Filosofia e Teologia pela Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais (PUC-Minas), atualmente é o assessor eclesiástico da Comissão Vida e Família e Pastoral Familiar da
diocese. E-mail: [email protected]
**é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região
Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia
(Faje – Belo Horizonte), realizou parte de seus estudos de doutorado na modalidade “sanduíche”, estudando
Narratologia Bíblica na Universidade Católica de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor de
Antigo e Novo Testamentos na PUC-Minas e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: [email protected]