Eliseu Wisniewski*
* Formado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
Ganhar e perder são experiências inseparáveis da existência humana. Ao longo da vida, construímos relações, assumimos responsabilidades, conquistamos espaços, realizamos projetos e desenvolvemos vínculos que passam a integrar nossa identidade. Entretanto, a vida também nos confronta com separações, fracassos, mudanças inesperadas e situações que exigem o abandono de expectativas, posições e projetos. Essas experiências revelam que viver não consiste apenas em acumular conquistas, mas também em aprender a lidar com aquilo que termina, se transforma ou deixa de estar ao nosso alcance.
A dificuldade de perder está frequentemente relacionada ao significado que atribuímos àquilo que perdemos. Não perdemos apenas pessoas, funções, bens ou oportunidades; podemos perder também referências, segurança, reconhecimento, autonomia e a imagem que construímos de nós mesmos. Por isso, determinadas mudanças, aparentemente simples para quem as observa de fora, podem representar rupturas profundas para quem as experimenta. A perda atinge não somente as circunstâncias exteriores da vida, mas também as expectativas e os sentidos que organizavam nossa maneira de compreender a realidade.
Diante disso, as reflexões da psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, desenvolvidas a partir de seus estudos sobre a morte e o morrer, oferecem uma contribuição significativa para compreender as reações humanas diante da perda. Em sua obra Sobre a morte e o morrer**, a autora descreveu cinco categorias frequentemente associadas ao enfrentamento da proximidade da morte: 1) negação e isolamento, 2) raiva, 3) barganha, 4) depressão e 5) aceitação. Embora formuladas originalmente nesse contexto, essas categorias podem ajudar a interpretar, com as devidas ressalvas, as reações que emergem diante de outras experiências de perda, como o encerramento de um relacionamento, a frustração de um projeto, a mudança de função, a saída de uma comunidade ou a necessidade de abandonar uma situação à qual estávamos profundamente vinculados.
A primeira reação possível é a negação e o isolamento. Diante de uma perda inesperada, podemos resistir ao reconhecimento da realidade, minimizar suas consequências ou alimentar a expectativa de que tudo voltará a ser como antes. Essa atitude pode funcionar como uma proteção temporária contra o sofrimento. Contudo, quando a negação impede o reconhecimento dos fatos, dificulta a elaboração da experiência e prolonga o apego a uma realidade que já não existe. O enfrentamento começa quando conseguimos reconhecer o que aconteceu, mesmo sem compreender inteiramente suas razões ou estar preparados para aceitar todas as suas consequências.
A raiva pode surgir quando percebemos que a realidade não corresponde aos nossos desejos e expectativas. Sentimo-nos injustiçados, frustrados ou impotentes diante de circunstâncias que não conseguimos controlar. Em determinadas situações, procuramos responsáveis, questionamos decisões e manifestamos indignação com aquilo que consideramos uma perda injusta. Essa reação revela, muitas vezes, a importância que atribuímos ao que foi perdido. O desafio consiste em reconhecer a raiva sem permitir que ela se transforme em ressentimento permanente, agressividade ou incapacidade de dialogar. A maturidade não exige a ausência de indignação, mas a capacidade de compreender o que sentimos e responder de maneira responsável.
A barganha, por sua vez, expressa a tentativa de recuperar o controle sobre uma realidade que parece escapar às nossas possibilidades. Passamos a imaginar o que poderia ter sido feito de outra maneira, quais decisões poderiam ter evitado o desfecho ou que condições precisariam mudar para recuperarmos aquilo que perdemos. Embora a revisão das próprias atitudes possa favorecer o aprendizado, a permanência nesse movimento pode alimentar a culpa e a dificuldade de reconhecer os limites da ação humana. Nem todas as perdas decorrem de erros pessoais, assim como nem todas as situações podem ser revertidas pela força de nossa vontade. É necessário aprender com o passado sem permanecer prisioneiro dele.
A depressão, conforme a terminologia utilizada por Kübler-Ross para descrever uma das reações diante da morte e do morrer, remete à experiência de tristeza profunda que pode acompanhar o reconhecimento da perda. Quando percebemos que determinada realidade não será recuperada, podemos experimentar desânimo, vazio, insegurança e dificuldade para projetar o futuro. Aquilo que antes conferia sentido à nossa rotina pode deixar de exercer a mesma função. Esse momento exige respeito, acolhimento e tempo para a elaboração da experiência. É importante, contudo, não confundir automaticamente a tristeza decorrente de uma perda com um transtorno depressivo, cuja identificação e acompanhamento requerem avaliação profissional. Do ponto de vista humano e pastoral, o mais importante é não desqualificar o sofrimento nem impor à pessoa uma recuperação imediata.
A aceitação representa a possibilidade de reconhecer a realidade sem permanecer indefinidamente em luta contra aquilo que já não pode ser modificado. Aceitar não significa considerar a perda desejável, concordar com todas as circunstâncias em que ela ocorreu ou deixar de sentir saudade. Significa reconhecer que a vida mudou e que é necessário encontrar maneiras de continuar vivendo a partir dessa nova realidade. A aceitação permite integrar a experiência à própria história, rever prioridades, reconstruir projetos e descobrir outras possibilidades de realização. Não se trata de apagar o passado, mas de impedir que ele se torne o único horizonte possível do presente.
Essas categorias, entretanto, não devem ser compreendidas como etapas obrigatórias, sucessivas e universais. As reações diante de uma perda variam conforme a história pessoal, a intensidade dos vínculos, as circunstâncias do acontecimento e os recursos disponíveis para enfrentá-lo. Uma pessoa pode experimentar raiva e tristeza simultaneamente, aceitar determinados aspectos da situação e continuar sofrendo com outros. Pode, ainda, retomar sentimentos que julgava superados.
Ganhar e perder não se configuram apenas como experiências opostas, mas como dimensões interdependentes da existência humana, que contribuem para a constituição da identidade e para o processo contínuo de amadurecimento pessoal. Ganhar pode significar conquistar algo novo, mas também assumir responsabilidades e renunciar a outras possibilidades. Perder pode significar experimentar a ausência de algo importante, mas também ser confrontado com a necessidade de rever escolhas, reconstruir vínculos e descobrir recursos pessoais até então desconhecidos. Isso não significa romantizar o sofrimento ou afirmar que toda perda produz necessariamente um benefício. Significa reconhecer que, mesmo quando não podemos modificar o acontecimento, podemos buscar novas maneiras de compreendê-lo e integrá-lo à nossa trajetória.
No contexto de uma comunidade religiosa, mudanças nas atribuições, transferências, encerramento de atividades, substituição de lideranças e reavaliação de projetos podem desencadear reações que transcendem os aspectos meramente administrativos. Muitas vezes, o que está em questão não é apenas a perda de uma função ou a alteração de uma responsabilidade, mas também a necessidade de reconhecimento, o sentimento de pertença, os vínculos afetivos construídos ao longo do tempo e a percepção do próprio lugar na missão comum. Quando essas dimensões humanas e relacionais não são devidamente consideradas, corre-se o risco de interpretar toda forma de resistência como indisponibilidade para a missão, toda manifestação crítica como oposição às mudanças e toda expressão de sofrimento como sinal de imaturidade. Tal compreensão desconsidera a complexidade dos processos de mudança e pode dificultar o acolhimento, o discernimento e a elaboração das perdas inerentes à vida comunitária.
Uma atuação pastoral comprometida com a dignidade humana exige sensibilidade para reconhecer que, por trás das diferentes reações às mudanças, existem histórias, vínculos, expectativas e sentimentos que precisam ser compreendidos. Antes de qualquer julgamento, torna-se fundamental promover espaços de diálogo e escuta, permitindo que as pessoas expressem suas inquietações, compreendam os motivos das decisões e encontrem caminhos para integrar as experiências de despedida e de perda em sua trajetória pessoal e comunitária. Acolher o sofrimento não significa evitar as mudanças necessárias, assim como respeitar os sentimentos não implica legitimar indistintamente todas as reações. A missão pastoral requer o equilíbrio entre a clareza das decisões e a sensibilidade diante das pessoas, conjugando firmeza e compreensão, responsabilidade e cuidado, de modo que os processos de transformação sejam conduzidos com respeito à dignidade humana e à história de cada indivíduo.
Também na vida pessoal, a compreensão das perdas nos convida a rever a maneira como lidamos com o controle, as expectativas e os limites. Frequentemente, sofremos não apenas pelo que perdemos, mas também pela dificuldade de admitir que determinada situação já não depende de nós. Queremos recuperar o que existia, corrigir o que aconteceu ou garantir que o futuro corresponda aos nossos planos. Entretanto, o amadurecimento exige reconhecer que não somos senhores absolutos das circunstâncias. Há momentos em que agir é necessário; em outros, é preciso esperar, discernir, renunciar ou simplesmente aprender a conviver com uma realidade que não podemos alterar.
À luz da fé cristã, esse itinerário encontra uma referência fundamental na relação entre a cruz e a ressurreição (1Cor 15,14-22). A fé não elimina o sofrimento nem dispensa o necessário processo de elaboração das perdas. O próprio Jesus, diante da paixão, experimentou a angústia e a solidão (Mt 26,36-39; Mc 14,33-36), demonstrando que a confiança em Deus não exige a negação dos sentimentos humanos. A esperança cristã não consiste em ignorar a realidade da perda ou minimizar seus efeitos, mas em reconhecer que o sofrimento não precisa determinar definitivamente o sentido da existência (Rm 8,18; 2Cor 4,16-18). Mesmo diante das rupturas e das mudanças, permanece aberta a possibilidade de ressignificar as experiências vividas e de encontrar novos caminhos de crescimento e renovação (Is 43,18-19; Rm 12,2).
A ressurreição não significa um simples retorno às condições anteriores, mas a inauguração de uma realidade nova (2Cor 5,17; Ap 21,5). Essa compreensão permite reconhecer que determinadas experiências não podem ser revertidas, embora possam ser incorporadas à história pessoal e comunitária, que permanece em construção. Algumas despedidas continuam a provocar sofrimento, certos projetos precisam ser encerrados e determinadas expectativas não chegam a se concretizar. Isso, porém, não impede que a vida encontre novos caminhos de expressão, serviço, comunhão e fecundidade (Jo 12,24; Rm 8,28). A esperança não elimina as marcas deixadas pelo passado, mas possibilita ressignificá-las, de modo que elas não determinem, de maneira definitiva, a compreensão do presente nem as possibilidades que se abrem para o futuro (Is 43,18-19; Fl 3,13-14).
As contribuições de Elisabeth Kübler-Ross acerca da morte e do morrer constituem uma referência importante para a compreensão dos processos de ganho e perda, desde que sejam consideradas as particularidades de cada experiência e os limites de aplicação de seu modelo teórico. A negação, a raiva, a barganha, a tristeza profunda e a aceitação ajudam a reconhecer algumas das reações que podem acompanhar o enfrentamento de uma perda, sem constituírem uma sequência obrigatória ou universal.
Aprender a perder não significa desistir da vida, assim como aprender a ganhar não significa acreditar que podemos conservar tudo o que conquistamos. A maturidade consiste em acolher as conquistas com gratidão, enfrentar as perdas com honestidade e discernir, em cada circunstância, aquilo que pode ser transformado, aquilo que precisa ser abandonado e aquilo que merece ser preservado. Viver plenamente não é evitar toda ruptura, mas desenvolver a capacidade de atravessar as mudanças sem perder a dignidade, a responsabilidade, a esperança e a disposição de continuar construindo sentido.
** KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes terminais têm a ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
27/10/2026 
