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Notícias e informações falsas: um desafio pastoral

19/03/2024

Um dos grandes desafios que a pastoral enfrenta hoje, são as chamadas Fake News. Na opinião do professor Robson Sávio, é fundamental que as lideranças religiosas se capacitem para conhecer e lidar com esse “novo mundo”, marcado pela manipulação de desejos, crenças, sentimentos.

 

Robson Sávio Reis Souza

Professor da PUC Minas, onde coordena o Núcleo de Estudos Sociopolíticos. Membro da equipe de análise de conjuntura sociopolítica da CNBB e do Observatório da Comunicação Religiosa. Presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais.

Eis o artigo:


O senso comum classifica o ser humano como racional. Somos dotados de consciência, inteligência e razão. Desenvolvemos a capacidade de reflexão, de acumular conhecimento e transformá-lo em sapiência, sabedoria, para nos humanizarmos, discernindo as formas do bem viver.

Mas, nós, humanos, também somos seres de vontade, comunicação, sociabilidade; criamos a cultura e damos sentido às coisas materiais e transcendentais; temos no corpo, uma morada. Com habilidades e competências, pela criatividade e pelo trabalho, transformamos o mundo, com técnica e tecnologia. Assim, o ser humano constrói a si mesmo à medida que transforma o mundo por suas próprias mãos.

É importante destacar que, também, somos emoções, paixões, desejos. Medo, crenças, alegrias e tristezas, amores e ódio também caracterizam a condição humana.

Estudos contemporâneos em várias áreas, como a neurociência, têm comprovado que, ao contrário do senso comum, parte significativa das ações e omissões humanas estão mais relacionadas aos sentimentos e crenças do que a cálculos racionais. Ou seja, medo, ódio, amor, fé (dimensão da religiosidade) são, em boa medida, definidores do comportamento humano.

Numa cultura que valoriza demasiadamente o racional e menospreza a subjetividade é preciso lançar racionalidade sobre o “mundo simbólico”. Não à toa, pesquisas também informam que, apesar de aumentar o número de desigrejados em nosso país (pessoas que não se vinculam a nenhuma denominação religiosa), por outro lado, 89% dos brasileiros acreditam em Deus ou num poder superior. Ou seja, a dimensão da transcendência, que está intimamente ligada à subjetividade, continua superando certa racionalidade que não vê nas tradições religiosas (igrejas) um apelo existencial.

Esta breve introdução chama-nos a atenção para um fenômeno cada vez mais perceptível contemporaneamente: sentimentos de ódio, violência, vingança, medo e até mesmo a manipulação religiosa grosseira têm se transformado em instrumentos cada vez mais utilizados para a fidelização de pessoas e a criação de grupos herméticos, marcados por radicalismo político e fanatismo religioso.

Uma das formas mais contundentes de arregimentação de um exército de ódio e violência se dá através das chamadas mídias digitais. Uma articulação entre grandes empresas de mídia, utilizando-se dos chamados algoritmos (que capturam os usuários estimulando seus desejos, crenças, percepções de mundo e os fidelizam a determinados grupos) e setores da extrema-direita global têm produzido, mundo afora, todo tipo de perversidade. Com muita monetarização, ou seja, com lucro financeiro, essa coalizão de empresas e influenciadores digitais ligados a grupos políticos, ideológicos e religiosos (cada vez mais radicalizados) usam como meio de engajamento e fidelização uma série de estratégias de comunicação que despertam nos usuários das mídias sociais sentimentos de medo, ódio, apreensão, insegurança. E esse mar de desinformação e notícias falsas inunda e mobiliza a vida das pessoas, impacta e divide famílias, comunidades religiosas, ambientes de trabalho, estudo etc.

A utilização das redes digitais como espaço de ação pastoral é um fenômeno desafiador. Se por um lado é imprescindível ocupar tais redes como espaços de evangelização, tendo como referência a ética cristã, observa-se, por outro lado, que influenciadores digitais abusam da religião com outras finalidades: ganham dinheiro com a monetarização; exibem-se como “pregadores da verdadeira fé”  e, o mais importante, fidelizam seu público a interesses políticos e ideológicos, travestidos de elementos religiosos. Na prática, muitos desses influenciadores difundem mensagens e conteúdos contrários, por exemplo, ao ensino social da Igreja e ao Magistério do Papa Francisco.

O livro intitulado “Influenciadores digitais católicos: efeitos e perspectivas”, que acaba de ser publicado pelas editoras Ideias & Letras e Paulus, discute o papel dos chamados “influenciadores digitais católicos” na produção e divulgação de conteúdos religiosos em rede, alcançando um nível de influência enorme e preocupante.

Mais do que nunca, é preciso assumirmos, como sociedade e Igreja, que urge investir em educação midiática, que é “a capacidade de desenvolver habilidades que permitam a pessoa a ler e analisar notícias, buscar fontes seguras, participar, produzir comunicação e difundir conteúdos com qualidade, segurança, fluidez e ética.” (Alexandre Sayad, autor de “Idade Mídia, a comunicação reinventada na escola”).

Na perspectiva da ação pastoral, com vistas à defesa dos princípios basilares da ética cristã, é fundamental que as lideranças religiosas se capacitem para conhecer e lidar com esse “novo mundo” digital marcado pela manipulação de desejos, crenças, sentimentos. Se as comunidades religiosas desejam enfrentar essa rede de ódio, violência, mentiras e desinformação que divide as famílias e os grupos eclesiais, além de uma “pastoral da comunicação” qualificada, há que se pensar em outras formas de educação midiática incorporadas à ação evangelizadora.