Roteiros homiléticos

Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 46-48

27 de setembro – 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

O discípulo “fala” menos e “faz” mais!

1. INTRODUÇÃO GERAL

A obediência ou a desobediência à Palavra de Deus não se realiza com discursos imediatistas, mas na configuração da vida. De fato, somos mais do que decisões isoladas, somos mais do que um erro ou um acerto. Somos a soma das decisões que definem a direção para a qual orientamos nossa existência. Pode acontecer que, uma hora ou outra, seja necessário repensar o caminho, e isso não faz de ninguém melhor ou pior. O horizonte de todo discípulo-missionário está na vida e no mistério de amor de Jesus, capaz de viver um “sim” permanente, até a doação total na cruz. A humildade e a entrega se transformam, em Jesus, em sinal de “glória”.

1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ez 18,25-28)

Ezequiel é o profeta do exílio babilônico (século IV a.C.). Junto dele estão outros israelitas deportados. Imaginemos um grupo que se encontra distante de sua terra e de sua cultura conversando sobre essa situação, lembrando-se da família e do lugar onde viviam e tentando encontrar um culpado de tudo o que estava acontecendo: quem pecou para provocar a ira de Deus?

O profeta Ezequiel recorda ao povo que não se trata de descobrir “quem pecou”, mas de assumir a responsabilidade pessoal diante de todos os acontecimentos: “Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre” (v. 26). Não é difícil também para nós cair na tentação de buscar culpados, de buscar os “maus” da história, sem tomar consciência das nossas maldades.

A profecia recorda ainda que existe a tensão entre a perversão do justo e a conversão do injusto. Por isso, a vida não pode ser resumida em uma ou outra prática, mas na direção do bem, na conversão constante em vista de uma existência orientada para o caminho do Senhor. Todos erramos em algum momento, mas Deus está sempre de braços abertos para acolher quem decide regressar ao seu plano de amor: “Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá” (v. 28).

2. II leitura (Fl 2,1-11)

A vida comunitária carrega sempre tensões, por mais madura que seja. É bonito aquilo que São Paulo escreveu à comunidade de Filipos: “aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade” (v. 2). A disputa pelo poder, a busca por prestígio, os cargos utilizados para a imposição de ideias são armadilhas às relações fraternas e à vivência da fé.

O caminho para “sarar” essa ferida é reconhecer no outro um irmão, um “tu” muito amado por Deus: “Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante” (v. 3). Para viver essa condição de humildade, Paulo evocou um hino que apresenta Jesus Cristo como aquele que “esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens” (v. 7). Jesus é Deus que se abaixa, que se esvazia, que assume a natureza humana para viver o amor até o fim, na cruz.

Cabe a todo seguidor de Jesus, na experiência da comunidade cristã, não se colocar como o centro de tudo nem buscar privilégios, mas, sim, assumir o imperativo da humildade, a qual abre as portas para relações fraternas e justas e tem seu fundamento naquilo que Paulo sintetizou de maneira muito direta: “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus” (v. 5).

3. Evangelho (Mt 21,28-32)

Os dois filhos de que nos fala o Evangelho deste domingo podem ser o espelho das nossas tensões mais profundas. De um lado, um filho cumpridor das regras, obediente, que não questiona, não interroga, mantém todas as aparências intactas, mas, internamente, contraria tudo, com vergonha de dizer a verdade...; de outro, o filho rebelde, contestador da autoridade paterna, desobediente, que, porém, deixando aberto o espaço do pai, vai descobrindo o mapa do caminho que precisa fazer e, pouco a pouco, deixa-se transformar.

Jesus conta a parábola de um pai que mandou seus dois filhos trabalhar na sua vinha. O primeiro resmungou, não queria, mas depois pensou melhor e foi para a vinha. O segundo reagiu com entusiasmo – um entusiasmo imediato que, entretanto, não permaneceu. Alguns estudiosos interpretam esses dois filhos como a imagem do povo de Israel e dos pagãos. Os israelitas estabeleceram uma aliança com Deus rapidamente, mas tiveram dificuldade de vivê-la. Os pagãos, por sua vez, não acolheram a Deus de imediato, mas foram aderindo ao projeto de Jesus.

O seguimento de Jesus Cristo se realiza no passo a passo da nossa vida. Não é uma decisão rasa e imediata, nem mesmo uma obediência exterior. Seguir Jesus Cristo é sempre um movimento de discernimento da liberdade, da responsabilidade, dos erros e dos acertos, porque é essa a dinâmica da vida. O primeiro filho, que teve a dificuldade inicial de acolher o chamado, descobriu que a vinha do pai também era sua e foi trabalhar. Não basta dizer “sim, Senhor”, como o segundo filho. Deus pede mais!

A parábola é contada aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, ou seja, àqueles que tinham se tornado a imagem do segundo filho: rígidos nas leis e calculistas no medir os outros. Em contraposição a eles estão “as prostitutas e os publicanos” (v. 32), que eram acusados de serem filhos maus, mas, para Jesus, precederão àquele outro grupo no Reino de Deus (v. 31).

Jesus inverte a lógica e mexe com nossos preconceitos. De fato, quando nos achamos superiores, como indicou Paulo na segunda leitura, o Evangelho nos convida a tomar consciência da nossa pequenez, a buscar o abaixamento, a reconhecer que nossas atitudes de acusação do outro ou de algumas categorias sociais podem ser a tradução de uma hipocrisia de que nosso coração está cheio. O caminho é sempre a mudança, a conversão e a consciência que o salmista ajuda a tecer: “De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia e sois bondade sem limites, ó Senhor!”

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A liturgia da Palavra deste domingo é uma oportunidade de avaliar e meditar a intencionalidade das nossas ações: por que dizemos “sim” e por que dizemos “não”; quanto tempo persevera nosso “sim” e quanto persevera nosso “não”. Um mundo “líquido” e fluido parece que transforma tudo em imediatismo, em velocidade, o que acaba distorcendo e diminuindo a seriedade de decisões importantes. O amor exige tempo, demora, opção de vida que não se desfaz na primeira dificuldade. De fato, Rilke, o grande poeta, já ensinou que “amar é durar, luzir com uma luz que não tem fim”.

Pe. Ms. Maicon André Malacarne*

*Maicon André Malacarne é presbítero da diocese de Erexim-RS, pároco na paróquia São Cristóvão, em Erechim, e professor de Teologia Moral na Itepa Faculdades, em Passo Fundo-RS. Mestre e doutorando em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana, de Roma. E-mail: [email protected]