Publicado em setembro – outubro de 2026 - ano 67 - número 371 - pp. 22-29
O GRITO SILENCIADO EM SUSANA; Uma leitura de Daniel 13
Por Profa. Dra. Maria Antônia Marques
A história de Susana é a de uma mulher que, assediada por dois juízes do povo e injustamente condenada, clama a Deus e, por sua fidelidade à Lei de Moisés, é salva pelas mãos do jovem Daniel. Trata-se de texto produzido ao redor do ano 100 a.C., como um protesto contra a política helenista de Alexandre Janeu, e, mais tarde, relido entre os anos 30-50 d.C., com o objetivo de reforçar a necessidade de manter-se fiel à Lei de Moisés e às tradições judaicas.
1. Contando a história
A narrativa descreve a história de Susana, esposa de Joaquim e filha de Helcias. De um lado, Susana é apresentada como educada na Lei de Moisés. O autor reforça, em três passagens, que a mulher era muito bela de aspecto. De outro lado, apresenta dois anciãos, juízes do povo, descritos como injustos. Os dois, sem saberem um do outro, começam a desejar ter relações sexuais com Susana. Quando um descobre o segredo do outro, eles se unem e tramam um plano para assediar a mulher. Em uma ocasião oportuna, eles abordam Susana, que, por fidelidade à Lei de Moisés, recusa o assédio deles e grita por socorro. Eles também gritam e acusam-na de estar cometendo adultério com um homem jovem, que teria fugido. O julgamento é instaurado e a mulher é injustamente condenada. No auge do seu desespero, Susana reza e pede a Deus que intervenha. Nesse momento, surge Daniel, um jovem, que instaura um novo julgamento, desmascarando a iniquidade dos anciãos. Segundo a Lei de Moisés, eles são condenados e a honra de Susana e a de sua família são restauradas.
A história de Susana devia ser uma antiga história semítica independente que, posteriormente, foi relida e reescrita conforme a fé e a religião judaica. O texto chegou até nós em duas versões diferentes: a Septuaginta, datada por volta do ano 100 a.C. (Spolsky, 1996, p. 1), e a versão de Teodocião, provavelmente uma tradução prototeodociônica, situada entre os anos 30 e 50 d.C. (Freedman, 1992, p. 448).
A narrativa do ano 100 a.C. é um protesto contra o governo de Alexandre Janeu (103 a 76 a.C.), filho de João Hircano (134-104 a.C.). Com João Hircano termina o período dos Macabeus (167-134 a.C.) e começa uma nova dinastia, que recebe o nome de “asmoneia”. João Hircano adotou o espírito da helenização (busca desenfreada de poder, riqueza e prazer) e fez aliança com o grupo dos saduceus, judeus helenizados. Janeu sucedeu ao seu irmão, Aristóbulo I (104-103 a.C.), assumindo uma política de conquistas. Ele teve muitos conflitos com o grupo dos fariseus, que fizeram dura oposição ao seu domínio opressor e à sua política religiosa.
A releitura feita pela tradução prototeodociônica, a versão que temos nas traduções modernas da Bíblia, é um alerta para que a comunidade permaneça fiel à Lei de Moisés e às suas tradições e não se deixe corromper pela sedução de outros grupos religiosos, entre os quais o movimento de Jesus.
O texto de Susana provavelmente foi escrito pelos fariseus, por volta do ano 100 a.C., para criticar a corrupção e o abuso de poder dos governantes asmoneus – descendentes dos macabeus – e dos saduceus, um grupo de judeus helenizados. Depois de derrotar o Império Selêucida (grego) com a ajuda dos romanos, os Macabeus lutaram para estabelecer o governo, ocupando, de maneira ilegítima, o cargo de sumo sacerdote (1Mc 10,18-21; 13,49-14,49).
Inicialmente, os Macabeus lutaram para defender a Lei contra a helenização imposta pelos Selêucidas, mas, com o tempo, eles próprios e seus descendentes adotaram o mesmo espírito. A dinastia dos Asmoneus manteve o poder político na região, lançando mão de uma política expansionista e militarista, com abuso de poder, injustiça e corrupção generalizada.
Os fariseus constituíam um movimento religioso contra a helenização e os costumes gregos. Eles buscavam ser fiéis à tradição e à cultura do povo judeu, com a observância rigorosa das leis mosaicas; criticavam e desafiavam a autoridade dos governantes asmoneus e dos saduceus, provocando conflitos e massacres. João Hircano, governador asmoneu (134-104 a.C.), massacrou milhares de pessoas (não apenas fariseus); Alexandre Janeu, segundo a informação do historiador Flávio Josefo (Antiguidades judaicas, XIII, n. 558, p. 197), mandou crucificar cerca de oitocentos fariseus por volta dos anos 90 a.C. (McLaren, 1991, p. 56). Nesse contexto, a novela de Susana foi escrita pelos fariseus para denunciar o abuso de poder e a corrupção dos governantes, representados pelos dois anciãos imorais e corruptos.
2. Susana: uma imagem para o povo de Israel
Em Daniel 13,1-4, o autor introduz a história, apresentando as personagens principais. Em primeiro lugar, conforme o costume da época, apresenta o marido de Susana, Joaquim, nome cuja tradução pode ser “Deus estabelece”. Ele é descrito como muito rico e muito respeitado. Susana, em hebraico, significa “lírio”, uma das imagens utilizadas para o povo de Israel (cf. Ct 2,2.16; 4,5; 6,3; 7,3). Descrita como “muito bonita, temente a Deus e educada na Lei de Moisés”, ela é filha de Helcias, nome cujo sentido pode ser “porção do Senhor” ou “a minha sorte é Deus”.
De um lado, temos o grupo de Susana, composto de pessoas descritas como abençoadas, justas e fiéis; de outro, temos a descrição dos dois anciãos, juízes e conselheiros do povo. Eles apenas “parecem” governar o povo. Atuam na casa de Joaquim, que pode ser uma imagem para a sinagoga, lugar onde as pessoas eram julgadas.
Em Dn 13,7-41, acompanhamos os fatos: primeiro, Susana e os anciãos no jardim. Ela é olhada e desejada diariamente por ambos. Susana e as duas escravas entram no jardim e, por um breve instante, Susana fica só com os anciãos ali. Sem demora, eles vão direto ao ponto: “Concorde conosco, vamos manter relações. Se não concordar, acusaremos você” (v. 21). Susana recusa e grita bem forte; os anciãos também gritam e contam sua versão dos fatos.
Julgada e condenada, Susana grita. Trata-se de uma confissão: ela reconhece o poder e a onipresença de Deus e lhe expõe sua situação. Para alívio dos leitores, o narrador adianta: “O Senhor escutou a voz dela” (v. 44). Surge Daniel, um adolescente, que convoca um novo julgamento. Os dois anciãos são julgados separadamente (v. 51-60) e, uma vez que entram em contradição, são condenados à morte por falso testemunho, enquanto Susana é inocentada.
3. Daniel 13: história de Susana ou sobre Susana?
Na primeira parte da história de Susana (v. 1-41), os dois anciãos, representando o poder helenizado, dominam a cena. O que conta é o desejo deles de possuir o corpo de Susana. Até mesmo o simples desejo de tomar banho é desrespeitado (v. 15-21). A mulher é dominada, e essa situação, por si só, já constitui um ato de violência (Saffioti, 2002, p. 1).
Diante da chantagem sexual e da ameaça de estupro, Susana grita. No entanto, sua voz é emudecida pela gritaria dos anciãos. Aos olhos dos homens, a honra de Joaquim e a de Helcias estão manchadas, consequentemente a de todos os homens, e esta precisa ser restaurada. O grito de Susana e a resposta de Deus (v. 42-43) funcionam como a dobradiça que abre para a segunda parte (v. 44-62). Depois de dar seu grito, Susana sai de cena, pois o julgamento é assunto de homens. Nessa parte, Deus, por meio de Daniel, assume o protagonismo da história. A resposta ao desespero de Susana é o surgimento de um rapaz jovem, que a salva. Não estaria aí, nas entrelinhas, a mentalidade de que a mulher é sexo frágil e precisa de um salvador masculino?
No silêncio de Susana, podemos perceber uma estratégia de protesto: “Ficar calada(o) pode ser uma forma diferente e mais sutil de atuar e de reagir, especialmente quando exprime a recusa de participar da troca coloquial ou a denúncia de que aquilo que se tem para dizer não é aceito socialmente enquanto discurso significativo” (Suárez, 1997, p. 46). Há muitas formas de coerção, seja individual ou estrutural, que têm a força de silenciar a pessoa. Quantas vezes, em nosso silêncio, a ira se tornou protesto?
4. Protagonismo dos homens na história de Susana
A imagem da mulher Susana corresponde aos padrões exigidos pelo sistema patriarcal-androcêntrico. A honra de seu pai é restaurada, afinal ele soube proteger a pureza sexual da filha até o casamento. A partir do casamento, a guarda da mulher passava do domínio do pai para o do marido. Os homens da casa de Joaquim não foram capazes de proteger a mulher. Assim, outras vozes masculinas se erguem para defendê-la: Deus e Daniel. Os homens desencadeiam a situação de injustiça e, ao mesmo tempo, têm a força de restabelecê-la.
Para solucionar o conflito, interpõe-se a figura de Daniel, que apresenta pontos em comum com Susana e com os dois anciãos. Por um lado, enquanto jovem e piedoso, ele é identificado com Susana; por outro, ele recebe o privilégio da ancianidade e, sendo também homem, ganha por isso a confiança dos outros anciãos e da assembleia. O grito de Daniel e seu discurso têm a força de mudar o rumo dos acontecimentos e desmascarar o falso testemunho dos dois anciãos.
5. Gemido, grito, silêncio, choro, olhar, falar: estratégias de resistência
Numa primeira leitura da narrativa de Susana, sobressai o protagonismo dos homens e o silêncio da mulher. O grito de Susana é para defender a Lei de Moisés, a qual legitima um modelo social que minimiza o papel feminino. Não obstante, em toda organização social, por mais opressora que seja, há pequenas brechas que possibilitam romper com a lógica social dominante.
Os anciãos acreditavam que seria fácil conseguir realizar o desejo deles. Susana, como as filhas de Israel, não ofereceria resistência alguma. Aí surge um elemento novo: a mulher resiste. Diante da ameaça de estupro e da imposição dos anciãos, Susana geme. O gemido é clamor silencioso que brota de uma situação de extremo sofrimento. A mulher faz sua opção de maneira consciente: ela prefere morrer a pecar diante do Senhor.
No julgamento, Susana é exposta e humilhada perante toda a comunidade. Sua reação é chorar. Susana e a comunidade choram. A comunidade chora em solidariedade com a situação da acusada. O choro de Susana também é um grito. Mesmo chorando, a mulher ainda busca alternativas. “Ela olhava para o céu” (v. 35). O olhar para o céu tem a dimensão de restabelecer a confiança em Deus, em si mesma e nos valores em que ela acredita. Restabelecida a confiança, Susana encontra forças para lançar um novo grito. Nesse segundo momento, ela expõe sua situação. Sua fala torna-se denúncia profética contra a corrupção das autoridades.
Em meio às dificuldades externas, a comunidade judaica enfrenta alguns conflitos internos – por exemplo, a dificuldade de viver e manter a Lei de Moisés e suas tradições diante do avanço da helenização. Alguns preferiam abandonar a comunidade e se misturar na multidão, igualar-se aos demais – o que também não era fácil, pois havia uma história de ódio e rejeição contra os judeus. Nesse contexto, a comunidade clama a Deus e ele responde, enviando Daniel, que “gritou com voz forte: ‘Eu sou inocente do sangue desta!’ Todo o povo se voltou para ele. E lhe perguntaram: ‘Que palavra é essa que tu falas?’” (v. 46-47). O grito de Daniel só aparece na versão de Teodocião.
Um novo julgamento é convocado (v. 49-50), e os outros anciãos convidam Daniel para ser o juiz. Daniel, um adolescente ou jovem, assume a função de um ancião. Podemos olhar esse fato de dois ângulos diferentes: primeiro, para mostrar que o sistema legal como está não funciona, muitos justos e inocentes estão sendo condenados; segundo, para deixar claro que Deus age por meio de Daniel. Na realidade, Deus passa a exercer o julgamento. Ele é o justo juiz.
Após ter sido comprovada a inocência de Susana, entra em cena sua família (v. 63). Os homens de seu grupo e também sua comunidade não foram capazes de defendê-la. O pai, conforme a narrativa, estava presente no julgamento, mas sua voz não se fez ouvir. Joaquim é o marido ausente o tempo todo. O fio que costura a narrativa é a Lei de Moisés (v. 3.62). Susana prefere morrer a transgredir a Lei. Essa história narra o triunfo da Lei, renovando a esperança da comunidade e exortando-a a permanecer fiel às tradições e aos costumes judaicos, o que os fariseus pregavam e praticavam.
6. Lei de Moisés: identidade do povo judeu
Para entender a narrativa de Susana, é interessante ter presentes alguns marcos da história judaica no pós-exílio, especialmente no período da restauração, sob a liderança de Neemias e Esdras, entre 450 e 350 a.C. A partir desse período, Israel se reestrutura como comunidade organizada em torno do templo (Grabbe, 1992, p. 74) e passa por uma purificação étnica, procedendo à expulsão dos estrangeiros de seu meio, justificada pela lei comunitária do livro do Deuteronômio (cf. Dt 23,2-9).
Entre a época da restauração de Neemias e Esdras e o contexto sócio-histórico no qual surgiu a narrativa de Susana, existem, aproximadamente, três séculos e meio de distância para a versão da Septuaginta e quatro séculos e meio para a de Teodocião. Todavia, podemos comprovar que a observância da Lei de Moisés era fundamental para a vida da comunidade judaica. A observância da Lei era o valor máximo (cf. v. 3.23.62).
O abuso dos anciãos, autoridades constituídas, é um ato sistemático. Vejamos a acusação de Daniel: “Semente de Canaã e não de Judá, a beleza enganou a ti e o desejo perverteu o teu coração. Assim fazíeis às filhas de Israel, e elas, atemorizadas, consentiram convosco, mas uma filha de Judá não suportou a vossa iniquidade” (v. 56-57). Na comunidade judaica havia certo afrouxamento no cumprimento das leis, porque alguns assumiram o modo de vida helenista. E, de acordo com a denúncia do grupo dos justos e piedosos, esse relaxamento vinha dos altos estratos sociais.
A resistência de Susana aponta para a resistência das comunidades judaicas em Judá e na diáspora, o grupo daquelas e daqueles que, mesmo ameaçados e perseguidos, continuavam fiéis às leis de seus ancestrais. Por que usar a imagem de uma mulher bela e sedutora? Possivelmente, por ser uma linguagem de fácil entendimento.
A comunidade que faz a releitura da história de Susana está tentando alicerçar alguns fundamentos essenciais para sua vida. Um deles é a importância de ser fiel à Lei de Moisés. Outro aspecto que aparece no grito de Susana é a certeza de que Deus não abandona aquelas e aqueles injustamente perseguidos e caluniados. “Deus salva o sangue inocente” (v. 62; cf. Dt 19,10; 21,8).
A história de Susana é um escrito produzido em um contexto patriarcal. Contudo, podemos ler essa narrativa na perspectiva do corpo e dos sentimentos da mulher. Susana lança mão de pequenas estratégias para continuar vivendo: geme, chora, grita, fala, olha para o céu, confia. Em seu corpo, há muitas marcas de resistência. Esse texto continua encontrando ressonância na vida das mulheres de todos os tempos. Há muitas “Susanas” hoje, tanto do sexo feminino como do masculino, que são cotidianamente silenciadas, humilhadas e vilipendiadas. É fundamental que nos unamos contra toda e qualquer forma de violência às mulheres.
Referências bibliográficas
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Profa. Dra. Maria Antônia Marques
*Maria Antônia Marques é mestra e doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Bernardo. Assessora do Centro Bíblico Verbo e professora no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp),ministra cursos de Bíblia em várias partes do país. E-mail: [email protected]

