Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 39 - 42
12 de julho – 15° DOMINGO DO TEMPO COMUM
Por Pe. Marcus Mareano*
Uma palavra eficaz
A liturgia deste domingo convida a comunidade à renovada compreensão da centralidade da Palavra de Deus. A escuta e a acolhida dessa Palavra constituem o eixo estruturante da experiência de fé em Cristo, pois é por meio dela que a pessoa entra em relação com o mistério divino revelado na história.
A primeira leitura sublinha o caráter eficaz e performativo da Palavra de Deus, que se manifesta como princípio fecundo e criador de vida. A Palavra divina não é mero discurso, mas ação salvífica que transforma a realidade, orienta os caminhos humanos e sustenta a esperança do povo de Deus. Mesmo quando seus efeitos não coincidem com as expectativas humanas, ela permanece eficaz, pois cumpre sempre o desígnio salvador de Deus na história (Is 55,10-11).
O Evangelho propõe uma reflexão sobre a atitude do ser humano diante dessa Palavra (Mt 13,1-23). A parábola do semeador e da semente parece uma simples cena do campo, mas, por trás da simplicidade da imagem, oculta-se uma mensagem misteriosa a ser compreendida, como sempre ocorre com os ensinamentos de Jesus. O texto convida a ser “terra boa”, isto é, a cultivar uma disposição interior aberta à escuta e à prática da Palavra, de modo que esta produza frutos concretos na vida cotidiana.
A segunda leitura demonstra a eficácia da Palavra na vida da pessoa (Rm 8,18-23). Ela fornece os critérios e a orientação ética para uma existência “segundo o Espírito”. É por meio dessa conformação ao Espírito que o ser humano colabora na edificação do “novo céu e da nova terra” (2Pd 3,13; Ap 21,1). Assim se efetivará a plena comunhão entre Deus, a humanidade e toda a criação.
I COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (Is 55,10-11)
Na primeira parte do Dêutero-Isaías (Is 40-48), o profeta apresenta a iminente libertação do cativeiro e proclama um “novo êxodo”, em que Deus conduzirá seu povo das terras de escravidão para a Terra da Promessa. Na segunda parte (Is 49-55), a ênfase recai sobre a restauração de Jerusalém, símbolo da presença divina e do reencontro entre Deus e Israel.
É nesse contexto que se situam os versículos propostos para a liturgia deste domingo. Após convidar o povo exilado a buscar e invocar o Senhor (Is 55,6-9), o profeta recorda a força eficaz e transformadora da Palavra divina que acaba de ser anunciada (v. 10-11).
Nesse momento histórico, a comunidade israelita se encontra desanimada. As promessas de libertação parecem demoradas demais, e a esperança começa a se esvair diante da dureza do cotidiano. Crescem a impaciência, a dúvida e o questionamento: será que as palavras do profeta se cumprirão? Deus não estaria tardando demais em agir? Ele se esqueceu da dor do seu povo?
É precisamente diante desse clima de desânimo que o Dêutero-Isaías reafirma, com vigor e ternura, a fidelidade de Deus e o poder inquebrantável de sua Palavra, capaz de transformar a história e devolver a vida àquilo que parecia perdido.
2. II leitura (Rm 8,18-23)
Paulo inicia esse trecho da carta aos Romanos estabelecendo um contraste, fundamentado na afirmação de que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada (v. 18). O sofrimento é visto como etapa transitória no processo de revelação da glória divina, a qual se manifestará plenamente nos redimidos. Essa perspectiva revela o caráter teleológico da história humana: o presente encontra sentido apenas à luz do futuro prometido.
Em seguida, Paulo usa uma linguagem metafórica para expressar a solidariedade cósmica entre o ser humano e o universo criado (v. 19-22). O pecado humano introduziu desordem não apenas na dimensão pessoal e social, mas também na ordem cósmica (Gn 3,17). Por isso, a criação está sujeita à finitude e à caducidade. A partir do momento em que o ser humano adere a Cristo e passa a viver “segundo o Espírito”, torna-se capaz de superar o destino de morte e as consequências do pecado.
O mundo criado e a humanidade estão vinculados no mesmo drama da queda e da redenção. O Espírito Santo é o princípio vital que sustenta essa esperança e garante a comunhão final entre Deus, o ser humano e toda a criação (v. 23). Paulo projeta, assim, uma visão relacional e integradora da salvação. Não se trata apenas da salvação individual, mas de uma restauração cósmica que abrange toda a realidade.
3. Evangelho (Mt 13,1-23)
O texto possui três momentos distintos: a parábola em si (v. 1-9), a reflexão de Jesus sobre o sentido das parábolas (v. 10-17) e, por fim, a explicação dirigida aos discípulos (v. 18-23).
Na primeira parte, Jesus fala levando em conta a vida concreta do povo. Na Palestina de então, o semeador lançava as sementes antes de arar o campo. Por isso, parte delas caía à beira do caminho, outra parte em terreno pedregoso e outra entre espinhos. É uma imagem realista, mas Jesus a transforma em uma parábola do Reino dos Céus. De todo modo, o acento da mensagem não está na fragilidade dos terrenos, e sim na força fecunda da semente. Quando ela encontra terra boa, produz frutos em abundância e uma colheita inimaginável para os agricultores da época.
Na segunda parte, Jesus reflete sobre o porquê de falar em parábolas. Elas são como um espelho que mostra o coração de quem escuta: quem tem o coração aberto, compreende e se deixa transformar; quem tem o coração fechado, escuta sem entender e olha sem perceber. Por isso Jesus proclama bem-aventurados os discípulos, porque seus olhos veem e seus ouvidos ouvem. Eles acolheram a Palavra e já participam do Reino que nasce no meio deles.
Por fim, a terceira parte traz a explicação da parábola. A semente é sempre boa; o semeador é o próprio Cristo; o fruto, porém, depende de como cada um acolhe a Palavra. Alguns têm o coração endurecido, como terra batida: a Palavra não consegue penetrar. Outros são superficiais: recebem com entusiasmo, mas desanimam nas dificuldades. Outros ainda são sufocados pelas preocupações e pelas riquezas, então a Palavra se perde entre tantos ruídos. Contudo, há também aqueles cujo coração é aberto, acolhedor e fiel: neles a Palavra germina, cresce e dá muito fruto.
Essa parábola é um convite à esperança e à conversão. Esperança, porque a mensagem do Evangelho está crescendo e se espalhando, mesmo quando não o percebemos; e conversão, porque somos chamados a preparar o terreno do nosso coração para acolher a Palavra com generosidade. Mesmo que muito pareça se perder, o Reino de Deus frutificará de modo surpreendente.
III. PISTAS PARA A REFLEXÃO
A liturgia chama a atenção para a ação transformadora da Palavra de Deus proclamada e celebrada. Essa Palavra deve gerar transformação sincera nas pessoas, conforme afirma a profecia de Isaías. Quando se crê, não se pode sair da Eucaristia da mesma forma como se chegou.
O Senhor continua a semear todos os dias, em cada celebração, em cada gesto de amor, em cada encontro com o próximo. Que não deixemos a semente cair à beira do caminho. Que removamos as pedras da indiferença e arranquemos os espinhos do egoísmo. E que nosso coração, purificado e disponível, se torne terra boa, onde a Palavra de Deus possa germinar e produzir frutos de fé, de amor e de justiça para o mundo.
Essa Palavra, sedimentada no interior humano, permanece e gera perseverança. As tribulações e adversidades não podem nos separar do amor de Deus semeado em nosso coração. Por mais que os tempos pareçam difíceis, pode-se esperar um novo tempo de experiência da glória dos filhos e filhas de Deus.
Pe. Marcus Mareano*
*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]

