Roteiros homiléticos

Publicado em julho – agosto de 2026 - ano 67 - número 370 - pp. 42-44

19 de julho – 16° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Por Pe. Marcus Mareano*

Um Deus de bondade

INTRODUÇÃO GERAL

O modo de agir de Deus sempre supera como o imaginamos. As leituras nos sensibilizam para essa ação misteriosa e surpreendente de Deus. Experimentando sua misericórdia em nossa vida, somos capacitados para sermos misericordiosos e refletir sua bondade em nossos gestos.

A primeira leitura (Sb 12,13.16-19) apresenta essa lógica divina, que ultrapassa os critérios humanos de retribuição. Deus se manifesta como misericórdia e indulgência, revelando um poder que se expressa prioritariamente na compaixão. Assim, desvela-se sua grandeza e se instaura um horizonte ético para o agir humano: os filhos e filhas de Deus são chamados a se conformar ao seu coração misericordioso.

No Evangelho (Mt 13,24-43), por meio de parábolas, Jesus mostra que o Reino dos Céus não constitui um espaço de perfeição elitista, reservado a um pequeno grupo de justos. Ao contrário, caracteriza-se como âmbito inclusivo de crescimento, no qual todos têm a possibilidade de maturar suas escolhas, crescer humanamente e abrir-se à ação transformadora da graça. A pedagogia do Reino respeita os ritmos da liberdade humana, oferecendo tempo e espaço para que cada pessoa responda, de forma responsável e gradual, ao convite divino à vida segundo o Espírito.

A segunda leitura (Rm 8,26-27) assegura que o Espírito Santo vem em auxílio da fragilidade humana, sustentando-nos precisamente onde nossas capacidades se mostram limitadas. Esse mesmo Espírito revela que a bondade divina não é apenas um atributo contemplado, mas sobretudo uma realidade eficaz que opera continuamente na história e na realidade das pessoas.

I COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Sb 12,13.16-19)

O texto em análise integra a terceira grande seção do livro da Sabedoria (Sb 10,1-19,22). Nessa unidade literária, o autor desenvolve uma releitura teológica da história da salvação. Confrontam-se as ações punitivas dirigidas aos ímpios e as intervenções salvadoras que Deus reserva aos justos, isto é, ao povo eleito. Essa estratégia literária visa demonstrar a justiça e a misericórdia divinas na condução da história.

O autor inicia essa seção apresentando a atuação da Sabedoria divina na história de Israel (Sb 10,1-11,14), evidenciando como ela guia, protege e orienta o povo ao longo dos acontecimentos fundamentais da tradição bíblica. Em seguida, estabelece um contraponto ao descrever o modo como Deus interveio em relação aos egípcios (Sb 11,15-20) e aos idólatras cananeus (Sb 12,3-19). O trecho da leitura se insere na última parte, na qual se enfatiza o tratamento dispensado por Deus às populações cananeias.

O autor diz que Deus exerce seu poder com absoluta justiça e misericórdia (v. 13). Diferentemente dos ídolos ou dos poderosos humanos, Deus não precisa provar sua autoridade por meio da violência ou do medo. Ele mostra que seu poder se realiza sobretudo no cuidado pelos fracos (v. 16-18). Essa passagem realça que Deus governa todas as coisas com sabedoria, pois nada existe fora do seu domínio. Justamente por ser o único verdadeiro, julga com equidade e age sempre segundo a verdade, sem arbitrariedades.

À luz dessa compreensão, o texto mostra que o modo de Deus agir educa seu povo (v. 19). A paciência, a mansidão e a misericórdia divinas tornam-se modelo para a ação humana. Deus oferece tempo para a conversão e não destrói imediatamente o pecador. Assim, o povo aprende que a verdadeira força não está na imposição ou na dureza, mas na capacidade de perdoar e de conduzir o outro ao bem. A pedagogia divina convida o ser humano a exercitar a mesma justiça misericordiosa com a qual Deus sustenta e julga o mundo.

2. II leitura (Rm 8,26-27)

Nossa experiência de oração é marcada por uma limitação: nem sempre sabemos formular adequadamente aquilo que nos cabe pedir. Diante disso, o próprio Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza (v. 26).

O Espírito assume a tarefa de articular, diante de Deus, os anseios e necessidades que nós mesmos não conseguimos expressar de maneira adequada. Ele se associa aos “gemidos” humanos, acrescentando-lhes sua própria intercessão “inefável”, de modo que a oração alcance a Deus em profundidade e verdade.

O Espírito Santo atua como mediador eficaz e autêntico intérprete no diálogo entre o ser humano e Deus. Ele eleva a oração, purifica suas intenções e a conforma à vontade divina, dirigindo-a àquele que conhece os corações (v. 27). Dessa forma, a súplica que o Espírito inspira é acolhida por Deus.

3. Evangelho (Mt 13,24-43)

A parábola do trigo e do joio (v. 24-30) apresenta um cenário extraído da vida agrícola palestinense. O elemento inesperado da narrativa reside na decisão do proprietário, que ordena que ambas as plantas cresçam conjuntamente até o tempo da ceifa, quando então se procederá à separação entre o que deve ser recolhido e o que será queimado.

A parábola funciona como crítica às práticas de exclusão vigentes no Judaísmo do Segundo Templo. Jesus conviveu com pecadores e pessoas moralmente marginalizadas, acolhendo-as como destinatárias da salvação e convidando-as a integrar a comunidade do Reino. Em contrapartida, grupos como os fariseus percebiam tal atitude como escandalosa e inadmissível, pois aqueles “transgressores da Lei” não poderiam pertencer ao ambiente santo de Deus. A parábola questiona essa atitude excludente, propondo a prioridade da misericórdia divina sobre qualquer forma de rigorismo segregante.

Na explicação posterior oferecida pelo próprio evangelista (v. 36-43), o foco se desloca da questão da convivência entre trigo e joio para a temática do juízo. Diante de comunidades marcadas pelo esfriamento espiritual, pelo aburguesamento e pelo laxismo, Mateus recorre aos termos da apocalíptica judaica para despertar os cristãos de sua letargia na fé. Imagens como “fogo ardente”, “choro” e “ranger de dentes” não constituem descrições literais do fim do mundo, mas dispositivos retóricos destinados a provocar conversão, renovar o compromisso com o Evangelho e reavivar a consciência de responsabilidade diante da missão cristã.

As parábolas do grão de mostarda (v. 31-32) e do fermento (v. 33) apresentam estruturas semelhantes e se concentram em destacar a desproporção entre a pequenez inicial e a amplitude do resultado. O grão de mostarda, apesar de minúsculo, produz um arbusto de proporções significativas. O fermento, embora aparentemente insignificante, transforma toda a massa. Ambas as imagens ilustram o dinamismo interno do Reino de Deus: uma origem modesta na pregação de um carpinteiro de Nazaré, que chega aos recantos do mundo e transforma a história humana.

As parábolas respondem às objeções daqueles que duvidavam da eficácia histórica da mensagem de Jesus, mostrando que o Reino possui força inerente e irreversível. Elas oferecem aos ouvintes renovada motivação, encorajando-os a assumir um compromisso mais autêntico com a ação transformadora do Reino no mundo.

III. PISTAS PARA A REFLEXÃO

Em tempos tão acelerados e de cobrança de produtividade, as leituras nos convidam a contemplar a bondade e a paciência de Deus em sua pedagogia conosco.

A história do povo de Israel, apresentada no livro da Sabedoria, mostra como Deus age com misericórdia. As parábolas do Evangelho afirmam que a atuação divina não consiste na punição imediata, mas sim na consideração pela liberdade humana e na oferta permanente de reconciliação. Somente no tempo oportuno se manifestará o juízo definitivo, que cabe exclusivamente a Deus. Enquanto isso, o Espírito Santo vem em nosso auxílio para nos conduzir à comunhão com Deus na oração.

O processo de evangelização também exige de nós paciência e misericórdia. Os seres humanos não são máquinas, mas seres de liberdade que ora se dispõem à ação divina, ora a recusam. Por isso, o tempo da realização cabe sempre a Deus, que perscruta os corações.

Pe. Marcus Mareano*

*Marcus Mareano é natural de Fortaleza-CE. Bacharel em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Bacharel e mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje). Doutor em Teologia Bíblica, com dupla diplomação, pela Faje e pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica (KU Leuven). Professor de Teologia no Seminário Provincial Coração de Jesus (Diamantina-MG) e no Instituto Teológico Dom Hermínio Malzone Hugo (Governador Valadares-MG). Pároco da paróquia São Mateus, em Belo Horizonte-MG. E-mail: [email protected]